“Mosquito”, de João Nuno Pinto: um filme ousado e necessário

por Cinema 7ª Arte,    28 Janeiro, 2020
“Mosquito”, de João Nuno Pinto: um filme ousado e necessário
“Mosquito”, de João Nuno Pinto
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“Mosquito”, de João Nuno Pinto, o primeiro filme português a abrir um dos chamados festivais internacionais classe A, rapidamente tornou-se num dos trabalhos mais badalados desta edição do Festival de Roterdão. O caso não é para menos, afinal de contas, apesar de alguns desaires, o mais recente filme de João Nuno Pinto não tem qualquer tipo de paralelo na história do cinema português, habilitando-se a receber o rótulo de “Apocalypse Now” da nossa cinematografia. Mas mais importante ainda será o facto de que se trata também de um documento essencial para o processo de reinterpretação da “aventura” portuguesa em África, missão que nunca estará isenta de percalços e controvérsias.

“Mosquito”, filme de João Nuno Pinto

O filme tem como foco principal o protagonista Zacarias (João Nunes Monteiro), um rapaz de 17 anos que embriagado de um patriotismo cego e uma sede de glória, acaba por se alistar para combater nos campos europeus da primeira grande guerra em 1917 (não falta por aí quem se desdobre em paralelos com a obra de Sam Mendes, mas esse é um caminho condenado ao fracasso, já que as semelhanças são escassas). Porém o destino envio-o para Moçambique, onde a autoridade do império nacional é posta em causa pela chegada das tropas alemãs. Em vez de prosseguir com os seus camaradas, vê-se “aprisionado” a uma cama. O primeiro embate não é com alemães, mas sim com a malária. Após a recuperação inicia-se então uma autêntica “peregrinação” com vários encontros e desencontros, onde Zacarias segue a caminho da frente de guerra, acompanhado apenas por dois negros, a sua sanidade em perigo e uma enxurrada de mitos.

O tom de “Mosquito” revela-se logo à partida, e diga-se, de forma irrepreensível. Assim que a embarcação de Zacarias se aproxima da costa é recebida por um oficial português e um grande grupo de negros. Quando do barco se ouve a pergunta: “Onde está o molhe para desembarcarmos?”, a resposta é contundente: “Não há molhe, mas temos pretos”, seguindo-se uma encenação meticulosa onde todos os soldados são carregados em ombros pelos negros obedientes, de forma a não molharem nem a ponta dos pés.

Todos aqueles que sempre sentiram a falta de um retrato autêntico da experiência imperial portuguesa, e em particular da relação entre os portugueses e os povos nativos, encontrarão uma resposta complexa, mas inevitavelmente satisfatória em “Mosquito”. A inicio desmascara-se esporadicamente, de forma habitual, poluída pela perspectiva eurocêntrica dos protagonistas e o contexto em que se desenrola a narrativa. A este nível destaca-se a personagem do Sargento Justino (João Lagarto), o verdadeiro líder da expedição e quem mais se desdobra em monólogos que tocam em vários dos clássicos do Lusotropicalismo e da visão mais grotesca do imperialismo. Para Justino a relação com os negros é simples, os brancos são os leões, donos e senhores de uma selva repleta de bestas perigosas e matreiras, sempre prontas a atacar os mais desatentos e enfraquecidos (alias, uma metáfora que lhe saíra extremamente cara).

“Mosquito”, de João Nuno Pinto

Durante grande parte do filme os africanos pouco mais são que cenário, já que o filme foca-se repetidamente na experiência de Zacarias, que tal como Charles Marlow em “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, terá de enfrentar uma dura batalha com a imensidão de África e a natureza agreste do espaço. Aqui o filme torna-se algo redutor, embarcando em vários dos clichés do género.

Mas “Mosquito” recompensa os mais resistentes, já que se recusa a ser mais uma oportunidade perdida no trajecto recente do cinema português, e eventualmente enfrenta a grande questão cara a cara, quando Zacarias fica refém de uma comunidade de mulheres “perdidas” na savana.

Do nada, os papeis revertem-se, Zacarias banaliza-se e são os africanos (nesta caso as africanas) que se humanizam e se revelam como extremamente complexas, “vitimas” de semelhantes jogos de poder, das suas tradições e do confronto civilizacional que se desenrola no mundo real. É nesta fase que “Mosquito” se agiganta e se completa, e à medida que o protagonista encontra o seu momento de redenção, ficamos com a sensação que num par de cenas o cinema português deu também ele passos gigantes.

Se a nível temático “Mosquito” é ousado, a nível técnico não é menos destemido, chegando mesmo a ser exibicionista, dada a quantidade de truques, experimentações e ensaios que o autor arrisca. Não haja ilusões, tratasse de um filme de peito cheio, deslumbrado consigo próprio, que sofre dos seus exageros, mas que também se amplia quando acerta no alvo.

“Mosquito”, filme de João Nuno Pinto

O trabalho do director de fotografia Adolpho Veloso é verdadeiramente sensacional, inventivo na forma como brinca com a luz da paisagem Africana, oferecendo ao filme um sentido orgânico, empoeirado e soado, que em muito contribui para estreitar o laço entre a experiência de Zacarias e a experiência da própria audiência. A construção narrativa joga também um papel de louvar neste jogo, numa viagem temporal, repleta de avanços e recuos cirurgicamente escolhidos, e interpelados por momentos de delírio, que desempenham a sua função de desorientação de forma impecável.

Justo também será apontar um destaque para o jovem João Nunes Monteiro no papel de Zacarias, que nos apresenta uma performance rigorosa e raramente desfocada da sensação de deslumbre e desnorteio da sua personagem. O mesmo não se poderá dizer de alguns dos seus camaradas, que revelam desequilibrados numa teatralização demasiado encenada, que desvirtuam frequentemente este “Mosquito”.

Mas talvez o mais desadequado será mesmo o trabalho de som, em particular a banda sonora, que vive em quase perpétuo confronto com o resto da obra. No papel compreende-se que um filme tão aventureiro tente ser inovador a este nível, mas o resultado é no mínimo perturbador. Chegamos mesmo a escutar uma batida de House Music enquanto Zacarias caminha pela mata Moçambicana. Se por um lado sentimos a mesma desorientação que se esbate sobre o protagonista, a experiência leva-nos por caminhos tão insolentes que acaba por resultar num enorme e desnecessário obstáculo.

Longe de ser um filme perfeito, “Mosquito” é de tal maneira denso e ousado que exige vários visionamentos, e que no final lhe seja feita justiça. É um obra complexa, perseverante  e corajosa. Assume os riscos, perde-se e encontra-se neles. Mas acima de tudo é manifestamente um filme necessário. Está “condenado” a abrir horizontes, declara-se contra os mitos que persistem e os brandos costumes, e revela-se pronto a confrontar-se com a inevitável oposição. Ainda bem que vem encorpado e robusto, afinal de contas chega no momento certo.

Este artigo foi escrito por Fernando Vasquez e foi originalmente publicado em Cinema 7 Arte.

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