Mulheres conquistam lugar na alta gastronomia apesar de percurso ser “mais difícil”

por Lusa,    8 Julho, 2026
Mulheres conquistam lugar na alta gastronomia apesar de percurso ser “mais difícil”
Fotografia de Or Hakim / Unsplash
PUB

Na alta gastronomia, um mundo ainda dominado por homens, as mulheres têm conquistado nos últimos anos cada vez mais lugares de destaque, apesar de reconhecerem que o percurso “é mais difícil” e exige sacrifícios.

“Eu queria mesmo ser cozinheira. Queria ter o meu emprego, o meu trabalho. Não queria abrir mão daquilo que gostava, que era a cozinha, e foi um bocado difícil”, recordou à Lusa a chef Justa Nobre, 69 anos e 40 como cozinheira.

Há um papel, o de mãe, que mais “ninguém ocupa”, e isso leva muitas mulheres a ter de abdicar da carreira, em particular numa profissão que obriga a trabalhar à noite e aos fins de semana, comentou.

“A mulher vai até onde ela quiser. A mulher simplesmente decide. Há uma altura da vida em que ela decide o que quer ser, se mãe, se profissional”, disse, admitindo que teve de fazer “sacrifícios” para seguir o sonho.

Só em 2025 duas mulheres, Marlene Vieira e Rita Magro, ganharam a primeira estrela Michelin em Portugal, após um interregno de quase 30 anos – antes, Maria Alice Marto tinha conquistado esta distinção no restaurante “Tia Alice” entre 1993 e 1996. Neste ano, juntou-se-lhes Angélica Salvador, a primeira brasileira a receber uma estrela fora do Brasil.

Fotografia de John Fornander / Unsplash

Foi para “colocar os holofotes nas mulheres” – cozinheiras, pasteleiras, produtoras, proprietárias de negócios – que Nelson Marques criou o Ladies Night Fest, um festival que “celebra o talento feminino na gastronomia portuguesa”.

“Antes, a gala [de entrega das estrelas] Michelin parecia um quartel de bombeiros”, comentou à Lusa o criador do festival, que se questionava: “Como é que as mulheres na cozinha tradicional têm o lugar de maior destaque, e não se passa o mesmo na cozinha mais criativa?”.

“Sempre que fiz esta pergunta, as justificações nunca me convenceram muito”, admitiu o criador do Ladies Night Fest, que promove, ao longo do ano, 10 jantares em todo o país, sempre com talentos femininos.

A maternidade e o papel de cuidadora da casa são realidades que dificultam o acesso das mulheres à alta gastronomia, reconheceu.

“Quando a sociedade coloca as mulheres em Portugal ainda a trabalhar, em média, duas horas e meia por dia a mais do que os homens no cuidado de casa (…) sim, talvez seja mais difícil para as mulheres”, referiu.

Além disso, “durante décadas existiu violência”, psicológica, mas também física, na cozinha, um “ambiente abusivo que não era propício para as mulheres prosperarem”.

Atualmente há mais mulheres a ganhar protagonismo, destacou Nelson Marques.

“Hoje o festival também existe porque existem mais mulheres em lugar de destaque, também porque fomos normalizando e começou a ser mais comum”, disse, apesar de reconhecer que “ainda hoje é difícil encontrar restaurantes” liderados por mulheres.

Em 11 de setembro, o Ladies Night Fest leva ao jardim do MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, em Lisboa, um evento que combina gastronomia de autor, ‘street food’, vinhos, arte e música ao vivo, tudo no feminino.

Adjoké Bakaré, a segunda chef negra no Mundo a conquistar uma estrela Michelin, Angélica Salvador (restaurante In Diferente, Porto, uma estrela) ou Elisabete Ferreira, considerada a melhor padeira do Mundo em 2024, vão marcar presença na festa, que tem Lara Figueiredo, chef pasteleira do ano 2025 dos prémios Mesa Marcada, como anfitriã.

“Enquanto mulheres, temos mais responsabilidades naturais, biológicas, impostas pela sociedade, o que torna mais difícil tomar certas decisões”, considerou à Lusa Lara Figueiredo, 27 anos.

Além disso, “historicamente existiam menos oportunidades para as mulheres e muitas acabavam por se desmotivar”, afirmou a chef pasteleira do restaurante “Contemporâneo”, integrado no MACAM, o primeiro hotel-museu de cinco estrelas na Europa.

No entanto, Lara Figueiredo considera que hoje o caminho é mais fácil: “Cada vez as pessoas têm mais consciência. Há uns 10, 15 anos seria um problema maior”.

A jovem pasteleira garante que o Ladies Night Fest não é um evento exclusivo para mulheres: “Os homens fazem parte, mas também é muito importante as mulheres terem o momento delas e a sociedade começar a olhar para isso de uma forma muito mais natural e muito mais necessária”.

PUB

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.