Na Catalunha

por Martinho Lucas Pires,    5 Maio, 2026
Na Catalunha

Os campos são amplos e planos. Ao longe, vêem-se algumas montanhas, e uma costa que se vai elevando o quão mais a norte nos encontramos. Perto de Figueres vemos os Pirenéus, brancos no topo, isolados perante o sol e o azul do céu. Parece um desenho animado japonês.

As canolas estão em flor, o amarelo é bonito. É ligeiramente mais claro e brilhante que o amarelo que lhes cobre a bandeira, entre riscas de vermelho. Não há vermelho nos campos, mas há muita casa e palácio de pedra em tom bege, que parece terracota, ou ocre, e tantos, tantos ciprestes. Uma espécie de Toscânia, mas cheia de parques industriais, vinhas e vento. Sobretudo na costa, a que chamam “brava”.

A língua é bonita, vista no papel. Ouvida, parece um francês aportuguesado, com algumas abertas mas muitos cortes. Na livraria do museu de Arte Contemporânea de Barcelona contemplo as várias edições em catalão, e sinto pena por não perceber patavina da língua. Devia fazer um curso, apenas porque sim, porque saber uma língua é entrar numa cultura, é estabelecer uma relação com uma certa visão do mundo. O quão difícil seria, a partir do meu francês, do meu italiano, do meu portunhol arranhado?

Vou alimentando a ideia enquanto passeio por Barcelona. Não vinha à Cidade Condal desde 2018, e antes disso estive sete anos sem lá pôr os pés. Lembro-me bem de passear pelo Raval, de deambular pelas ramblas, de ir ao museu, às casas de Gaudi, de beber espumante e comer uns pinchos, de ir ao Primavera saltar ao som de Girl Talk e dos Flaming Lips, e de ouvir o Jarvis Cocker a cantar, agarrado numa estrutura de palco, o Razmatazz, para delírio do público.

Esqueci-me de Barcelona durante anos, como me esqueço dos intervalos dos jogos, ou das pausas para café. Foi um interlúdio, mas não um acontecimento, o que não quer dizer que não tenha sido um tempo, um espaço de ação, de vida.  

Sempre fui mais de Madrid do que de Barcelona, em termos de cidade (não de futebol). Talvez pelo tamanho de uma face à outra, ou pelo simples facto da primeira ser capital – mas a segunda também, a segunda também… É estranha a preferência, quando da segunda vemos o mar, e sentimos a provocação, a rebeldia, o orgulho, e a cultura, a começar pela língua, mas seguindo nos olhares e formas com que as pessoas nos recebem e tratam. É complexo o nosso interior, a forma como sentimos e construímos o cânone.

Estive ainda no campo e vi o amarelo e o verde; fui à costa e vi o mar e as rochas; fui a Figueres e entrei na casa louca de Dalí, onde lhe rezei uma Avé Maria, em frente ao túmulo. Mas fui a Girona e vi qualquer coisa que era uma cidade, daquelas sem poder mas com história, cheia de uma identidade, de uma propriedade bem demarcada e agradável. Gostava de lá voltar.

Era Páscoa e deu-se a ressurreição. Tinha trazido um livro, apenas um, para ler – uma edição inglesa (sim, eu sei) de Coisas Vivas, de Munir Hachemi, escritor madrileno radicado em Buenos Aires. Não lhe peguei. Trouxe da livraria do museu um livro, em castelhano (eu sei, eu sei…) com as entrevistas de Roberto Bolaño, autor citado nas primeiras duas páginas do livro de Hachemi.

Bolaño era chileno. Partiu da América Latina para a Europa, estabelecendo-se em Barcelona, onde viveria a morrer, mas também viveu em Girona. Lembro-me bem de como me senti quando li os seus livros: os Detetives Selvagens, a Estrela Distante, o Terceiro Reich, e o Espírito da Ficção Científica. Senti-me dentro de um mundo fascinante, de uma língua narrativa deliciosa e intrigante. Sou capaz de me lembrar de onde estava quando li cada um destes livros, mas lembro-me especificamente de estar a chegar de Madrid, num voo noturno, com um antigo guarda-redes do Benfica sentado duas filas atrás, e de acabar de ler as aventuras de Remo e José Arco, dois poetas que viajam de mota pela Cidade do México enquanto desvendam o mistério do surgimento de tantas publicações de poesia que estão a surgir. Agora que vim da Catalunha, apetece-me revisitar esse livro.

Sugestões do cronista:

Filmes, nada. Séries, esqueçam. Livros, o The White Album de Joan Didion, e o Análise – Notas do Divã de Vera Iaconelli. Comecei a ler o Mil e Uma Noites do Robert Stevenson, e vou ainda só na primeira história, mas já comecei a perceber o potencial. Canções? O novo do Thundercat (sempre bom), o novo dupla-duração de MIKE e Earl Sweatshirt (sempre bons) e o disco Aquáticos, de Fábio do Nascimento e E Rusha V.

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