Não, a culpa não é tua
Estão a educar-nos para acreditar que ou triunfamos, ou não somos ninguém. Saramago percebeu cedo uma das crueldades do nosso tempo. A meritocracia. Essa promessa aparentemente bonita de que o esforço será sempre recompensado. De que cada um chega exatamente ao lugar que merece. De que o sucesso é prova de virtude e o fracasso sinal de falha individual.
É uma promessa bonita. E, em parte, necessária. O problema começa quando essa promessa passa a explicar tudo. Quando quem chega ao topo acredita que chegou sozinho, e quem fica para trás é levado a acreditar que a culpa é apenas sua.
A partir daí, a desigualdade deixa de ser apenas económica. Passa a ser moral. Deixa de estar apenas nos salários ou nas heranças, e passa a viver na forma como olhamos para os outros: como vencedores ou derrotados, como merecedores ou falhados.
Mas ninguém começa do zero. E ninguém triunfa sozinho. Conta o esforço, sim. Mas conta também a casa onde se nasce, a estabilidade que se teve, a rede familiar que ampara uma queda, a escola em que se andou, os professores que se teve, os colegas que nos rodearam, a possibilidade de estudar sem trabalhar ao mesmo tempo, de procurar emprego sem urgência desesperada, de arriscar sem que um erro destrua a vida inteira. É por isso que a desigualdade não pode ser discutida como se fosse apenas uma questão de escolhas individuais.
Há hoje demasiadas pessoas em Portugal que fazem tudo aquilo que lhes disseram que era certo fazer. Trabalham, pagam impostos, cumprem horários, educam filhos, cuidam de pais, fazem contas, cortam onde podem, adiam o que conseguem. E, mesmo assim, vivem sem margem. A pobreza e a insegurança já não se explicam apenas pela ausência de trabalho. Explicam-se, cada vez mais, pela insuficiência do trabalho face ao custo de vida.
Portugal tornou-se caro demais para os salários que paga. E, quando isto acontece, a meritocracia deixa de ser uma promessa e passa a ser uma acusação. Se não consegues, é porque não fizeste o suficiente.
Os dados sobre riqueza em Portugal ajudam a perceber a dimensão do problema. A concentração da riqueza no nosso país foi das que mais subiu entre os países da União Europeia. Os 10% mais ricos detêm cerca de 60% do total da riqueza nacional. A partir da World Inequality Database, o retrato fica ainda mais claro: em 2024, apenas 1% dos residentes, pouco mais de 100 mil pessoas, concentrava mais de 220 mil milhões de euros, quase um quarto de toda a riqueza das famílias portuguesas. No extremo oposto, metade da população, cerca de 5,4 milhões de pessoas, detinha apenas 3,63% dessa riqueza. Metade do país com menos de 5% da riqueza. O 1% do topo com quase um quarto.
A nível global, em 2025, 91 pessoas tornaram-se multimilionárias por via hereditária, recebendo em conjunto quase 298 mil milhões de dólares. Em 2024, a Forbes identificou 15 multimilionários com 30 anos ou menos: todos eram herdeiros. E a tendência vai continuar. O Billionaire Ambitions Report 2025 estima que pelo menos 5,9 biliões de dólares serão herdados por filhos de multimilionários nos próximos 15 anos.
Portugal acompanha esta tendência noutra escala. Segundo o mesmo relatório, Portugal ganhou cerca de 3.200 novos milionários em 2024, chegando a aproximadamente 175 mil pessoas com património líquido superior a um milhão de dólares. Nada disto significa que criar riqueza seja um problema. Não é. O problema começa quando a riqueza se reproduz sobretudo pela herança, quando a origem familiar pesa mais do que o trabalho, e quando continuamos a pedir aos trabalhadores que acreditem no mérito enquanto a estrutura económica os empurra para a insegurança.
Perante este retrato, seria de esperar que a prioridade política fosse tornar o trabalho mais seguro, mais bem pago e mais compatível com a vida. Seria de esperar que estivéssemos a discutir como subir salários, como reforçar a negociação coletiva, como reduzir o tempo de trabalho, como dar previsibilidade às famílias, como garantir que a transição tecnológica beneficia também quem trabalha.
Em vez disso, o Governo apresenta uma reforma laboral que parece partir da ideia de que o problema da economia portuguesa é os trabalhadores terem direitos a mais. É difícil não ver a ironia. Num país onde mais de 40% da população estaria em risco de pobreza sem o Estado social, a resposta proposta passa por fragilizar ainda mais quem trabalha: recurso a outsourcing após despedimentos, alargamento dos contratos a termo, banco de horas individual, limitação de direitos sindicais, redução de direitos de parentalidade, dificuldades acrescidas à reintegração após despedimento ilegal e até a descriminalização do trabalho não declarado.
O século XXI devia obrigar-nos a discutir outra coisa. Há mais de 30 anos que Portugal não tem uma redução significativa do horário semanal de trabalho. Num tempo de inteligência artificial, automação e transformação tecnológica acelerada, a pergunta devia ser como distribuímos melhor os ganhos de produtividade. Como trabalhamos melhor, não apenas mais. Como devolvemos tempo às pessoas.
Há quem diga que os últimos 50 anos foram uma farsa. Não foram. A democracia trouxe-nos liberdade de votar, de falar, de nos organizarmos, de protestar, de estudar, de escolher a nossa vida sem medo. Trouxe-nos a escola pública, Serviço Nacional de Saúde, proteção social, direitos laborais, liberdade sindical e liberdade de imprensa. Trouxe-nos um país incomparavelmente mais livre, mais educado e mais digno do que aquele que existia antes de Abril.
Esse progresso deve ser defendido. A questão é que continua incompleto. Está incompleto quando trabalhar já não chega para viver com dignidade. Que liberdade tem quem trabalha todos os dias e chega ao fim do mês sem poupança, sem margem e sem futuro? Que liberdade tem quem adia filhos porque não tem estabilidade?
A resposta à desigualdade não é ressentimento nem redistribuição punitiva. É garantir que quem mais tem contribui justamente, como todos os outros. E reconhecer que uma sociedade decente não pode dizer às pessoas que tudo depende do seu esforço enquanto constrói uma economia onde esse esforço já não chega para viver.
