Não nos podem enganar com tantos finais felizes

por Rui André Soares,    29 Janeiro, 2018
Não nos podem enganar com tantos finais felizes
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[contem spoilers]

O melhor do mercado estar repleto de séries e de ser cada vez mais fácil e rápido criar filmes é que podemos de facto rentabilizar o nosso tempo enquanto nos entretemos. Um exemplo disso mesmo é o filme ‘Lady Bird’. Depois de em 2008 ter realizado e escrito, ao lado de Joe Swanberg, ‘Nights and Weekends’, Greta Gerwig decidiu, 9 anos depois, escrever e realizar um novo filme e se existiam dúvidas de que a actriz de ‘Frances Há’ era boa a contar histórias ‘Lady Bird’ contraria todo esse possível pessimismo.

Esta comédia adolescente é uma lufada de ar fresco e põe a nu vários temas actuais mas sem se focar necessariamente neles. Ou seja, o tema central é a própria vida de uma adolescente, que pode ser comum a qualquer adolescente, viva na América ou na Europa (salvo alguns detalhes próprios da cultura dos EUA). É uma espécie de ‘Boyhood’ mas que não se preocupa com a forma do crescimento da personagem principal. Há de facto coisas a acontecerem e que merecem o devido destaque na vida da jovem Lady Bird McPherson (papel interpretado pela actriz Saoirse Ronan) e na 1 hora e 34min que o filme dura podemos concluir que a vida é mesmo assim: cheia de inícios e fins que nos vão completando e construindo como pessoas e que não há pessoas perfeitas, sejam adolescente ou adultos.

Saoirse Ronan e Greta Gerwig durante as filmagens

Por fim, um dos grandes trunfos dos Óscares, quando acontece, é o de dar destaque a filmes que saem um pouquinho fora da caixa; ‘Lady Bird’ está nomeado para 5 Óscares, e é um filme que merece ter um grande público para mostrar que nem todas as histórias têm de ter finais felizes ou para mostrar que uma comédia não tem necessariamente de ser um mau filme ou de ter uma história menos boa. Mas para além disto, é também importante que o cinema nos mostre um retrato mais ou menos real de como o mundo é lá fora. Não nos podem enganar com tantos finais felizes como se estes fossem perdurar até ao fim com um “e viveram felizes para sempre”. O cinema tem de ser mais e a responsabilidade disso acontecer também é nossa. Andamos, e temos de continuar, a dizer aos algoritmos que queremos cinema diferente. E quando formos ao cinema temos de tentar dar o nosso dinheiro a filmes como o ‘Lady Bird’. É caso para dizer que o mundo mudou, o mercado mudou, e o público tem de mudar.

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