Não podemos mudar a morte
Há coisas que sabemos e só verdadeiramente sabemos quando acontecem.
Sabemos que vamos morrer. Sabemos que as pessoas que amamos vão morrer. Sabemos, em abstracto, que o tempo é limitado, que nada é permanente, que há conversas que ficam por ter e coisas que adiamos como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
Mas saber não é o mesmo que compreender.
Há uma espécie de clarividência que a morte produz. De repente, aquilo que sabíamos passa a ter peso. A hierarquia das coisas altera-se. Algumas urgências deixam de o ser. Outras, que pareciam poder esperar, tornam-se intoleravelmente importantes.
Talvez seja essa uma das coisas mais difíceis do luto: perceber que a pessoa que perdemos não fazia apenas parte do nosso passado. Fazia parte do nosso futuro.
Não perdemos apenas alguém com quem vivemos coisas. Perdemos alguém com quem ainda iríamos viver coisas. As conversas que ainda teríamos. As coisas que ainda lhe íamos contar. As pequenas conquistas que essa pessoa ainda iria conhecer. As versões de nós próprios que ainda não chegaram a existir diante dela.
É também por isso que a perda não é apenas a ausência de alguém. É a perda de um lugar.
Jacques Lacan ajuda-me a pensar isto de uma forma particularmente desconcertante: quando alguém que amamos morre, não perdemos apenas essa pessoa. Perdemos também aquilo que éramos para essa pessoa. O lugar que ocupávamos no seu desejo, no seu olhar, na sua história. Somos aquela pessoa específica para aquele outro específico.

É por isso que, quando penso na morte dos meus, não penso apenas em sentir a falta deles nos momentos difíceis. Penso sobretudo nos momentos felizes. Em alguma conquista, alguma coisa extraordinária ou banal que me aconteça e na pergunta: quem vai ficar genuinamente feliz por mim? Quem vai torcer por mim daquela maneira particular? Quem vai olhar para aquilo que fiz e sentir aquele orgulho que só aquela pessoa sentiria?
Ninguém substitui exactamente esse lugar. E há ainda outra coisa estranha na morte: o diálogo não desaparece. Muda de lugar.
Quando alguém morre, deixa de viver no seu corpo e passa, de certa forma, a viver em nós. Continuamos a falar com essa pessoa. Pensamos no que diria. Antecipamos a sua reação. Acontece alguma coisa e pensamos: tenho de lhe contar isto.
A morte interrompe o diálogo exterior, mas não necessariamente o diálogo interior. A pessoa continua a existir como interlocutor dentro de nós, feita de memória, de palavras, de gestos, de expressões, de maneiras de ver o mundo.
E talvez seja aqui que devêssemos pensar mais colectivamente sobre o luto.
A morte foi durante grande parte da história humana uma experiência profundamente social. Não porque fosse menos dolorosa, mas porque havia formas colectivas de a reconhecer. Rituais, cerimónias, gestos públicos. A morte de uma pessoa não dizia respeito apenas ao seu núcleo mais íntimo: alterava, ainda que temporariamente, a vida da comunidade.
A contemporaneidade tornou muitas coisas mais privadas e individuais. Também a morte.
Philippe Ariès descreveu esta transformação como uma passagem para aquilo a que chamou a “morte interdita”: uma morte que progressivamente deixa de ocupar o espaço quotidiano e passa a ser escondida, medicalizada, afastada do olhar. A tese de Ariès foi posteriormente discutida e complexificada, mas permanece uma intuição importante: a forma como uma sociedade trata os seus mortos diz muito sobre a forma como essa sociedade pensa a própria vida.
Talvez tenhamos individualizado tanto o luto que perdemos uma das suas funções mais antigas: permitir que uma comunidade pense, em conjunto, sobre a vida, a morte e aquilo que realmente importa.
Os rituais não servem apenas para consolar quem perdeu alguém. Servem também para dizer publicamente que aquela perda aconteceu. Para reconhecer uma mudança nas relações. Para dar uma linguagem àquilo que, individualmente, pode ser impossível de dizer. E para lembrar às comunidades que alguém esteve aqui e que a sua ausência também altera o mundo dos outros.
“A forma como uma sociedade trata os seus mortos diz muito sobre a forma como essa sociedade pensa a própria vida.”
Uma sociedade não serve apenas para celebrar os vivos. Também precisa de saber acompanhar os mortos e aqueles que ficam.
Isto torna-se ainda mais importante quando a morte acontece em circunstâncias que tornam o luto mais difícil de falar. O suicídio pode deixar para trás não apenas a dor da perda, mas também silêncio, culpa, perguntas sem resposta, vergonha, incompreensão. E quando uma morte não encontra espaço para ser reconhecida publicamente, a dor pode ficar ainda mais isolada.
Não quero transformar uma morte numa lição. Seria injusto para quem morreu e demasiado fácil para quem fica.
Não acredito que devamos procurar uma mensagem escondida em cada tragédia, como se a morte tivesse acontecido para nos ensinar alguma coisa.
Mas acredito que podemos decidir o que fazer com aquilo que a morte nos fez ver. E é aqui que a clarividência da morte se torna uma responsabilidade.
A morte mostra-nos, brutalmente, aquilo que já não podemos mudar. Mas talvez seja precisamente por isso que nos ajuda a reconhecer aquilo que ainda podemos.
Há relações que ainda podemos reparar. Há pessoas a quem ainda podemos dizer que amamos. Há conversas que ainda podemos ter. Há decisões que continuamos a adiar. Há formas de viver que podemos abandonar. Há coisas que julgávamos importantes e que talvez já não sejam.
A morte põe limites à nossa ação. Não precisa de pôr limites à nossa capacidade de agir.
Talvez seja esta a parte do luto que mais facilmente perdemos quando o tempo passa. Voltamos à rotina. Às obrigações. À agenda. Ao conjunto de pequenas urgências que, todos os dias, se apresentam como se fossem definitivas.
E então existe o risco de desperdiçarmos a lucidez que a morte nos deu.
Não porque devêssemos viver permanentemente conscientes da morte. Isso seria impossível. Mas porque talvez devêssemos deixar que, de vez em quando, a consciência da finitude reorganizasse aquilo a que damos importância.
A pergunta não é apenas: como continuamos depois de perder alguém? Talvez seja também: como queremos continuar? E esta pergunta já não é apenas individual.
É aqui que me lembro de Paulo Freire e da sua insistência na esperança como condição da transformação. Para Freire, a esperança não é esperar que alguma coisa aconteça. Não há esperança na espera pura. A esperança só ganha sentido quando se transforma em prática, quando se liga à possibilidade de agir sobre o mundo.

É uma ideia que me parece particularmente importante quando pensamos na morte.
Porque uma das coisas que a morte pode fazer é convencer-nos de que nada podemos fazer. Há aquilo que já não podemos reparar, pessoas que já não podemos abraçar, palavras que já não podemos dizer. Mas seria uma conclusão terrível transformar aquilo que já não podemos mudar numa prova de que nada pode ser mudado.
Freire escreveu sobre o direito e o dever de mudar o mundo. E talvez esta formulação seja menos grandiosa do que parece. Mudar o mundo pode começar por recusar a ideia de que o mundo está terminado.
É também aqui que a desesperança se torna politicamente importante. A desesperança é programada.
Não necessariamente no sentido de uma conspiração, mas no sentido de uma aprendizagem. Há ambientes que nos habituam a olhar para o mundo como um lugar em que tudo corre mal, todos desconfiam de todos e nada muda. Há sistemas que recompensam a nossa atenção quando estamos assustados, indignados ou zangados.
Se a desesperança pode ser produzida, então a esperança também pode ser trabalhada.
Não como a crença ingénua de que tudo vai correr bem. Mas como a convicção de que aquilo que fazemos ainda importa.
Porque há uma pergunta que está escondida por baixo de muitas lutas políticas: que justiça social tentaremos construir se já não acreditamos que a sociedade pode ser melhor?
Sem alguma forma de esperança, o inconformismo perde força. A injustiça deixa de parecer uma coisa que pode ser transformada e passa a parecer apenas uma característica inevitável do mundo.
A desesperança diz: é assim. A esperança diz: pode ser diferente. E é talvez nesse intervalo que começa a responsabilidade.
Talvez seja isso que a morte, quando nos atinge, nos obriga a ver com uma clareza que a vida quotidiana frequentemente consegue esconder: o tempo é limitado, as pessoas são insubstituíveis, o amor cria lugares que ninguém ocupa da mesma maneira e há coisas que, uma vez perdidas, não podem ser recuperadas.
Mas também há coisas que ainda estão nas nossas mãos. Não podemos mudar a morte. Podemos decidir o que fazemos depois dela.
Podemos cuidar melhor uns dos outros. Podemos falar mais abertamente sobre aquilo que nos acontece. Podemos devolver alguma dimensão colectiva ao sofrimento. Podemos reparar relações. Podemos dizer o que adiámos. Podemos recusar a ideia de que o mundo é uma coisa acabada à qual só nos resta adaptar.
A finitude não precisa de ser uma razão para desistir. Pode ser uma razão para começar.
Se precisares de ajuda, estas linhas estão disponíveis 24 horas, de forma gratuita e anónima: Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico – 1411; Aconselhamento Psicológico do SNS 24 – 808 24 24 24. Se estiveres em perigo, liga 112. Aqui encontras outros contactos de apoio, gratuitos e anónimos.
