Não se abandona os amigos de infância
Quando somos crianças os amigos chegam por decreto: «Aqui está João, filho de Zé. Brinquem». Nem é preciso saber falar para que se crie uma amizade: basta ser-se estúpido e comer terra. Depois vem o tempo e penteia-nos as ideias de forma diferente: um continua a gostar de terra, outro passou a preferir o mar. Mantemo-nos amigos, mas se hoje nos conhecêssemos era provável não sermos.
Vamos jantar e o meu amigo encosta o telefone no copo para ver a bola. Jamais gostaria dele se hoje o conhecesse, mas como em criança perseguimos gansos juntos, adoro-o. Há anos que não temos uma conversa interessante: ele gosta de futebol, eu de pesca; ele adora ginásios, eu julgo-os; ele acha piada a Trump, eu não. Mas ainda assim, resistimos.
É que, numa amizade, o tempo a que se é amigo conta: a cada ano damos mais uma volta ao tronco, fortalecendo-lhe a casca. As amizades não são velhas por acaso: são-no porque, durante todo aquele tempo, soubemos cuidar delas: discutimos com o cuidado de não magoar; fizemos esforços para estar nas festas de anos um do outro; prestámos atenção quando devíamos.
O meu velho amigo e eu podemos até não ter assunto que interesse aos dois, mas é bom queixar-me de desamores e ele saber relacionar essa carência com a morte do meu pai sem que lhe tenha de falar da morte do meu pai. Como é bom os velhos amigos serem antigas linhas paralelas que não se resumem àquele dia, mas a todo o passado em comum: e quanto mais para trás, maior o património nos nossos corações.
É natural afastarmo-nos de amigos: mudanças de cidade, concertos dos Coldplay ou festas no Praia no Parque: tudo razões válidas para percebermos que não falamos a mesma língua, mas nenhuma válida o suficiente para ditar um afastamento completo. É compaginável ser-se um bronco que gosta de Trump e ao mesmo tempo um grande amigo: ao fecharmos a nossa vida a quem pensa de forma diferente de nós corremos o risco de algo muito pior: rodearmo-nos apenas de semelhantes.
É fundamental manter-me amigo do brutamontes de Guimarães que me diz, enquanto mastiga, que sou “paneleiro” por gostar de poesia. Primeiro porque é um grande amigo (quando morreu o meu pai foi o primeiro a ligar-me — esses brutos estão sempre lá). E segundo porque não há interesse em fechar-nos em redomas intelectuais, perdendo o pé das pessoas que não passam a vida a pensar na vida.
Que bom ainda ter amigos que me devolvem a terra à boca e a mastigam comigo de forma aparvalhada, recordando-nos de todos os cachaços que ficaram por dar, todas as miúdas que ficaram por beijar e todos os gansos que ficaram por levar. Que bom saber que ainda posso subir a esta velha escada e sentir na cara o vento de uma amizade que já tanto soprou e que hoje não mais é do que uma brisa que cheira a passado. Mas ainda cheira: porque queremos e enquanto quisermos.
Recomendações do cronista:
Na música, o álbum Daisy (2025), do Rusowsky, artista madrileno, dá-nos vontade de beijinhos matinais na cama: ouço um C. Tangana mais doce e com mais segredos, que mistura memes e eletrónica barroca: recomenda-se. Nos filmes, O Estrangeiro (2025), de François Ozon, tem a melhor fotografia de tudo o que vi nos últimos quatro anos — é por lhe faltar cor que fala tão bem. Na comida, o Lavrador, na Estrela, ainda serve um dos melhores cozidos de Lisboa; e o Khayyam, iraniano no Príncipe Real, o melhor arroz. Nos textos, a prosa de Sophia de Mello Breyner: «Caminho da Manhã» ou «Retrato de Mónica».

