Noruega inaugura memorial para assinalar os 15 anos dos atentados terroristas que mataram 77 pessoas

por Lusa,    23 Julho, 2026
Noruega inaugura memorial para assinalar os 15 anos dos atentados terroristas que mataram 77 pessoas
Fotografia de Vegard Kleven / KORO
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A Noruega comemora esta semana 15 anos desde os atentados terroristas que mataram 77 pessoas em 2011 com a abertura de um centro de memória e um memorial que quer ser “difícil de ignorar”.

A 22 de Julho de 2011, a zona de edifícios governamentais de Oslo foi palco de uma explosão que matou oito pessoas. A bomba, colocada dentro de uma carrinha estacionada perto do edifício que albergava o gabinete do primeiro-ministro, foi obra de Anders Breivik, que depois se dirigiu à ilha de Utøya onde matou mais 69 pessoas.

Na praça atrás do edifício onde Breivik colocou a bomba, ergue-se hoje uma estrutura de 12 metros de altura, um “protesto” cujo autor quis que fosse “difícil de ignorar”.

“O que eu quis fazer foi uma espécie de escultura que funcione como arquitectura de protesto ou como um aviso”, diz à Lusa o autor da peça “Upholding” (que significa preservação ou defesa), Matias Faldbakken, o memorial inaugurado no domingo na capital norueguesa.

Dentro de uma estrutura de metal em V invertido, Faldbakken criou, de um lado, um mosaico preto e branco, representando um perna-verde-comum, uma das aves nativas de Utøya e, do lado oposto, voltado para a rua, uma superfície lisa em vermelho vivo.

Fotografia de Niklas Hart / KORO

“Do outro lado, parece-se com um protesto dirigido ao ‘establishment’ político, como um aviso de que nem mesmo na Noruega temos garantias de quem se sentará naqueles escritórios”, diz Matias Faldbakken apontando para os edifícios da administração central norueguesa. “Parecia que o sistema norueguês era muito estável na sua social-democracia. Esta escultura não diz nada explicitamente político, mas serve como lembrete”, considera.

“Tudo o que se refere ao 22 de Julho é bastante sensível e fraturante”, diz o artista sobre aquele que foi o pior ataque em solo norueguês desde a Segunda Guerra Mundial. “Eu quis que este objecto fosse parte da discussão. Achei interessante esta interacção entre o equilíbrio delicado [do painel] e a grade de metal”.

A curadora de arte envolvida na concepção do memorial, Trude Schjelderup Iversen, lembra que houve monumentos anteriores e que este foi sempre um processo difícil na sociedade norueguesa.

“Desta vez, decidimos fazer as coisas de forma diferente. Baseámos o trabalho numa discussão pública aberta”, conta . “Este é um memorial radical, [que nos lembra que] defender a democracia é um processo contínuo. Para mim, essa é a essência do anti-fascismo: permitir que os fortes defendam o que é frágil”, diz, referindo-se à estrutura metálica em torno do memorial. 

No rescaldo do atentado, em 2011, as ruas de Oslo e de outras cidades norueguesas encheram-se de gente em demonstrações pacíficas de solidariedade com as vítimas e recusa dos ideais de Breivik. Dezenas de milhares de pessoas, de rosas brancas e vermelhas nas mãos, participaram, na altura, nas chamadas “marchas das rosas”.

Hoje, os especialistas alertam que, apesar de minoritárias, as convicções de extrema-direita estão a aumentar na sociedade norueguesa e no mundo ocidental em geral. 

Um estudo da Polícia de Segurança da Noruega (equivalente ao SIS – Serviço de Informações de Segurança em Portugal) nota que a ideologia e as acções violentas de Breivik têm vindo a contribuir para uma maior radicalização entre jovens.

No período após 2019, diz o estudo, as menções a Breivik aumentaram entre os autores de ataques terroristas efectivos ou planeados no Ocidente, em relação ao período pré-2019. Esta polícia identifica ainda uma crescente tendência de radicalização de menores e alerta que a ameaça do extremismo de direita já não é apenas um problema interno dos estados, mas um fenómeno transnacional.

“A democracia precisa de cuidados constantes. Normalmente, os memoriais são feitos de madeira, granito, pedra ou bronze, materiais que duram para sempre. Mas esta estrutura de aço relembra-nos que a democracia é temporária, que não devemos estar demasiado confortáveis aqui, porque isso nos fará esquecer”, diz Trude Schjelderup Iversen.

Em frente do memorial, está também o centro de memória que abrirá ao público esta quarta-feira, 22, para marcar os 15 anos dos atentados. Entre outros elementos, a exposição permanente conta com os retratos das 77 pessoas mortas nesse dia. 

“É um local para recordar, porque este foi um trauma nacional para a Noruega”, diz o director educativo do centro Jarle Sundve. “Queremos desafiar os visitantes a reflectir nos motivos pelos quais isto aconteceu”.

“É importante lembrar que o 22 de Julho não foi acidente. Foi um atentado terrorista de extrema-direita guiado por convicções políticas. Queremos ajudar as pessoas a entender o que aconteceu e a reflectir sobre as lições que podemos tirar”, diz.

O centro de memória conta ainda com uma exposição temporária sobre radicalização através das redes sociais. É em fóruns online, diz a Polícia de Segurança norueguesa, que a ameaça terrorista associada à extrema-direita está mais presente.

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