Nunca conhecemos tantos desconhecidos

por Rui André Soares,    28 Novembro, 2018
Nunca conhecemos tantos desconhecidos
“Nighthawks” (1942), de Edward Hopper
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Hoje, com a facilidade das redes sociais e o facto de nos conseguirmos deslocar rapidamente, conhecemos muitas realidades e muitas pessoas. Até já é possível um jovem de 30 e poucos anos sentir-se cansado de descobrir o mundo (e verdade seja dita, Portugal é extraordinário para se viver e descobrir mesmo para quem é português).

Em 1980, durante as gravações de “The Shining”, e quando questionado sobre como era a vida de um famoso ao nível de Hollywood, Jack Nicholson, que estava no auge da sua carreira, disse que as pessoas anónimas não tinham noção da esquizofrenia a que as figuras públicas são expostas. E falando do seu caso em particular, Nicholson disse que no espaço de um ano poderia conhecer tantas pessoas como uma pessoa anónima numa vida inteira. Sendo que quase todas as relações eram pouco profundas e em grande quantidade.

Se pensarmos sobre este facto, esta é uma realidade muito próxima da que temos hoje com as redes sociais. Nunca conhecemos tantos desconhecidos como agora e vivemos numa época em que é possível comunicarmos mais com desconhecidos do que com amigos, familiares ou vizinhos próximos. E atrás da quantidade de pessoas desconhecidas que conhecemos vêm as ideias que estas defendem e a forma como estas as comunicam. Actualmente tem mais importância o que se diz em vez de quem o diz. E as duas coisas devem funcionar lado a lado para conseguirmos perceber as intenções ou até descobrirmos facilmente o tom de uma conversa ou opinião.

A juntar a tudo isto está ainda a forma como o Facebook/Twitter/Instagram desenvolveram as suas timelines: não têm fim. O nosso scroll ou swipe pode ser infinito e assim sendo pode-se dizer que caminhamos a passos largos, e duma forma quase proporcional, para sermos o Jack Nicholson dos anos 80 (mas sem o talento para a representação).

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