Nunca tivemos tanto, nunca possuímos tão pouco
Houve um tempo em que comprar uma coisa significava ficar com ela. Podíamos usá-la outra vez, emprestá-la a alguém, vendê-la quando já não interessasse ou deixá-la a quem viesse a seguir. Para muito do que consumimos hoje, nada disso é verdade. Já não compramos, subscrevemos, aderimos, ativamos, renovamos; até que um dia cancelamos e fica tudo para trás. Hoje comprar não significa que seja nosso.
Fiquei espantado quando descobri o caso da HP: consumidores compraram impressoras e subscreveram os serviços da empresa, incluindo os tinteiros. Quando cancelaram a subscrição, os tinteiros que tinham em casa, mesmo cheios, deixaram de funcionar, sendo desativados à distância. A explicação da própria HP é a parte mais reveladora: aqueles tinteiros nunca deixaram de ser propriedade da empresa. O cliente pagou, contudo nunca chegou a ser dono. Pode ser só uma impressora, mas o caso tornou-se paradigmático de como a economia mudou.
Mais interessante ainda é que isto está juridicamente previsto. Em 2019, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que revender um livro eletrónico em segunda mão precisa de autorização do editor, ao contrário de um livro em papel. O mesmo raciocínio vale para música e videojogos. E com isso fechou-se um mercado inteiro: o dos usados. Este facto jurídico mostra-nos que, até legalmente, o objeto já não está do nosso lado.
O porquê disto acontecer não é inocente. As empresas têm um objetivo: tornar um cliente que comprava uma vez num cliente que compra várias vezes, e garantir uma receita mais estável. A Adobe escreveu isso mesmo, preto no branco, nos documentos que entregou ao regulador americano em 2013: esperava que a passagem à subscrição aumentasse a receita recorrente e o crescimento a longo prazo. Em 2015 acabou com a licença perpétua e comprar o Photoshop deixou de ser possível, só se passou a poder subscrever. Em 2025, mais de 90% da receita da empresa provinha desta via. O mais intrigante aqui é que a mudança não foi motivada pela melhoria do produto, mas pelo facto de as receitas previsíveis serem mais aliciantes para os acionistas.
É importante demonstrar que também existem coisas boas. Temos hoje acesso a muito mais do que antes: num clique chegamos às discografias mais variadas, de José Pinhal a Smashing Pumpkins. Vemos a série que queremos, quando queremos, por menos do que custava no cabo. Se quisermos, existem apps e gadgets que nos dão em direto o nosso batimento cardíaco e uma pontuação ao nosso sono. Se isto acrescenta alguma coisa à nossa felicidade, não sei, mas os nossos antepassados ficariam fascinados, especialmente Álvaro de Campos. Contudo, com tanta opção e subscrição, vem a despesa. Segundo o Barclays, 88% dos consumidores britânicos têm pelo menos uma subscrição e gastam em média 50,60 libras por mês, num total de 155 milhões de subscrições ativas para 68 milhões de pessoas. Em Portugal a direção é a mesma: entre janeiro e abril de 2025, 42,2% dos portugueses subscreviam pelo menos uma plataforma de vídeo streaming, o que quer dizer que, incluindo todos os outros tipos de subscrição, os números deverão ir para valores parecidos com os dos ingleses.
A reação existe, mas fica só para alguns. Em Portugal, os dados da Audiogest para 2025 mostram-no bem: as vendas de CD caíram 8%, mas o vinil cresceu 5% e representa hoje 72% das vendas de álbuns físicos. O formato mais antigo é o único que resiste e cresce, porém, nesse mesmo ano, o digital já valia 79% do mercado nacional de vendas, e o streaming sozinho representava 98,7% das receitas digitais. Ou seja: o vinil cresce dentro de uma fatia que somente representa um quinto do mercado nacional. As vendas de vinil em Portugal andarão hoje pelos sete milhões de euros.
A ressalva, porém, não desmente a tendência, confirma-a. Outro exemplo é o mercado dos videojogos colecionáveis, que cresce, e não me espanta que daqui a uns anos o DVD de certos filmes seja também um objeto de coleção. Mas isto não é um retorno ao passado, é a cristalização da separação. Possuir o hardware todo, ter o objeto em casa e poder consumi-lo sem estar conectado deixou de ser o modo normal e passou a ser um luxo. Resumindo, a minoria compra, a maioria aluga.
Poder-se-á argumentar que tudo isto é uma escolha, e em parte é. Escolhemos entre a Netflix e a HBO, entre o Spotify e o Apple Music, entre o plano semanal e o mensal, entre o individual e o familiar. Nunca houve tanta escolha. Mas é toda ela uma escolha entre alugueres. A opção de comprar não foi proibida, somente deixou de estar acessível. E talvez seja essa a parte mais difícil de contestar: nunca tivemos acesso a tanto.
Sugestões do cronista:
Ler na praia é das melhores coisas que se podem fazer no mundo. Stoner, de John Williams, é um livro agradável para se ler neste contexto, porque é um livro simples sobre uma vida sem acontecimentos, mas que precisa de tempos mortos para assentar.
Um pequeno ensaio da política Ida Auken, do qual esta crónica tomou alguma inspiração e que nos fala de uma realidade alternativa de 2030.

