O amor nunca foi “cringe”
Se reparares, não é a primeira vez que te acontece dares amor a mais e vir de trás da montanha a ceifeira com saias longas a anunciar-te que «não», que «estás mal», que «tens de te controlar» porque «Ó rapaz, já viste, não pode ser, isso só afasta». Para entrar nesta vida do amor tens de ser mau — mau.
Éramos rapazes — os mais velhos ensinavam-nos os truques na praia: «enganarmo-nos no nome de propósito, demorar a responder, dar mais atenção à amiga». Eis o método universal para conquistar raparigas: tratá-las mal, arrancar-lhes pedaços da autoestima e pintar-lhes os pés de cuspe.
Não que seja boa pessoa, mas tudo isso me cheirava a tomate seco e sempre preferi ensopar-me de amor e verdade dizendo «olha, gosto de ti porque és divertida», «gosto de ti porque me fazes rir», «gosto de ti porque és bonita». Mas não senhor, não senhores, o truque é mesmo ser mau, errar no nome sucesso glória cama.
Mentira – porque eu vi o verde verão que te passou nos olhos quando te disse coisas bonitas que se te grudaram no coração. Mentira – porque vi também como o mar mudava de cor com a sombra da tua alegria por te sentires vista sentires amada. Mentira – porque eu vi como os teus pés brancos subiam aos meus quando vinhas contar-me segredos à boca. O teu nome eu sabia, perdi-me foi do meu.
E bem. O amor está em nós: e nós escolhemos dá-lo a alguém. E se tivermos muito amor dentro, natural será que tenhamos muito para dar. Pois dêmo-lo com toda a força e intenção: rebentemos os ossos aos brutos que nos tentam convencer que agora é cringe ser-se romântico ou demonstrar sentimentos – no fundo, que é cringe o amor. Trinquemos-lhes os olhos, mordamos-lhes as pálpebras: e se passou a ser cringe demonstrar afetos, então sejamos os mais cringe de todos os homens.
Matem-me esfolem-me enterrem-me eu quero dizer «te amo, bandida» e ignorar se isso é demasiado. Se o é, baza porque eu não quero uma fatia do bolo, eu quero o bolo todo na minha cara, lambuzar-me, engasgar-me, ficar com a testa branca do teu açúcar.
Parabéns à modernidade por ter transformado o amor numa piada. Já não posso comprar cerejas porque agora somos modernos e eu nem sei se ficas para jantar. Mas eu quero que jantes quero que fiques daquele lado da mesa naquele sítio que já é teu porque a luz te põe tão bonita.
Mil vezes um compromisso no coração do que a liberdade da carne. A liberdade senti-a quando éramos felizes e me vias de nenúfar em nenúfar dentro do teu coração. A liberdade senti-a quando te descrevi a bicharada que olhava no teto daqui de dentro. Senti-a quando pude ser esquisito sensível frágil. Senti-a quando pude ser uma capital europeia uma flauta um farrapo.
E como é bom poder ter sido tudo isso, ser tudo isso, por ter abraçado esse senhor peludo eu chamo-lhe amor. Como é bom conhecer as suas pernas, os seus braços e reconhecê-lo quando se está a espreguiçar dentro do nosso peito. Como é bom que ele nos chegue até às pontas dos dedos e aqueça as mãos que desviarão o fio de cabelo dos teus olhos. Como é bom, meu Deus, que nos tenha feito tão frágeis, tão sensíveis e capazes de sentir coisas tão belas.

