O bairro voltou a ser festa
A minha rua está barulhenta por causa dos imigrantes.
Havia um hábito bonito mantido por um casal que tinha um café de esquina na minha rua. Nesse café, os domingos eram de celebração: o casal fazia um churrasco aberto a quem quisesse aparecer; cada pessoa pagava o que podia, e ninguém ficava sem comer, mesmo que não pudesse pagar.
Aqueles domingos eram um símbolo de comunidade para o bairro: independentemente da sua proveniência, todos tinham direito de permanência. Com a pandemia, o casal acabou por fechar o café, que se manteve encerrado durante anos. Até há umas semanas.
O café da esquina reabriu, pela mão de uma senhora castiça. Não é portuguesa, facto denunciado pelo sotaque (quase imperceptível) e pela caneca exibida acima do balcão, a dizer I love Romania. Para além do óbvio romeno, fala quatro línguas: domina o português, troca umas ideias em russo com um par de amigas, e ainda arranha o francês e o inglês. E tu, quantas línguas falas?
Os clientes desfazem-se em elogios. “Ela faz uma sopas, uns pregos e umas bifanas que são daqui”, dizia esta manhã uma idosa cheia de pinta, levando as pontas do polegar e do indicador ao lóbulo da orelha, no intervalo das festas que fazia ao cão irrequieto no seu colo. O marido concordava efusivamente com acenos de queixo.
Toda a santa tarde, o café da esquina torna-se num Centro Comunitário do Burburinho. Regada a tabaco e cerveja, a galhofa enche a rua inteira. Uns de pé, outros sentados na esplanada, outros ainda lançando ideias da porta para fora. Todos têm alguma coisa a dizer, num caldo cultural que impressiona e maravilha.
Ao lado do café da esquina da senhora romena, existe um cabeleireiro cujo dono é um brasileiro jovial. A clientela de ambos mistura-se, e logo se desenha o fresco pós-modernista à sombra fresca de Verão.
Brasileiros de viola no colo contam piadas politicamente incorrectas a portugueses que se curvam de tanto rir, afrodescendentes ainda salpicados da tinta da obra brindam com minis debaixo do olhar de dondocas aperaltadas que terminam a mise, há tugas de chinelos como se estivessem na sala lá de casa, e idosas beberricam o café com a ponta dos lábios nos raros momentos em que a alegria dá descanso.
A vizinhança tem-se habituado bem à gritaria animada de fim de tarde. À janela, uma senhora puxa do cigarro enquanto tenta ouvir o motivo das gargalhadas. Os que passam, vindos da estação ferroviária, intrigam-se com a galhofa. Uns param para uma cerveja imprevista, outros seguem caminho, mas os olhares que deitam por cima do ombro denotam um certo arrependimento por não terem parado, talvez mesmo uma pequena inveja.
Enquanto escrevo, sou interrompido pelo burburinho. Levanto-me para esticar as pernas, abro a janela como bom quadrilheiro e observo a cena enquanto aprecio o vento fresco no rosto. Talvez seja o meu idealismo aos gritos, mas ponho-me a pensar se o mundo não seria melhor assim. Com mistura constante, comunidade cultivada, sem políticas ou preconceitos a servir de ruído de fundo, apenas umas conversas despreocupadas em busca de concórdia.
Porque, bem vistas as coisas, todos queremos o mesmo: uma sombra, uma bebida fresca e motivos para rir com outros humanos, mesmo quando o mundo parece estar a despedaçar-se.
