O ensino e o Nobel: Saramago

por Duarte Benard da Costa,    2 Abril, 2026
O ensino e o Nobel: Saramago
José Saramago / DR
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O recente anúncio do Ministério da Educação de uma consulta pública sobre alterações às aprendizagens essenciais de Português no 12.º Ano tem gerado várias críticas. A alteração mais polémica tem a ver com a suposta exclusão de Saramago do programa. Não é o caso. A proposta de tornar opcional a leitura de Saramago não é um sinal do menosprezo político em relação ao autor, mas antes uma tentativa recomendável de abertura pedagógica de um programa tendencialmente muito restritivo.  

A atenção e indignação pública em relação a este assunto faz parecer que o país está mais uma vez a abandonar Saramago. Este excesso de zelo não faz sentido neste caso, visto que se trata de uma proposta para aumentar a liberdade pedagógica dos professores de português. Entre o peso das metas pedagógicas e o jugo dos exames os professores têm pouca margem de acção, pelo que esta iniciativa parece positiva. As críticas vêm de vários quadrantes, e tem a ver com as seguintes questões: a questão política e a secundarização de um ‘autor maior’; a questão da função moral e intelectual da escola pública; e a questão do lugar da literatura na formação humana.  

A questão política é evidente. Saramago foi protagonista de uma embaraçosa tentativa de política de gosto por parte da Secretaria de Estado da Cultura que em 1992 excluiu o seu romance Evangelho segundo Jesus Cristo de uma candidatura a um prémio europeu. A história da conturbada recepção de Saramago pela política leva Daniel Oliveira no Expresso a criticar a presente proposta como uma nova tentativa de uma ‘visão uniformizadora da identidade nacional’ pelo PSD. Mas uniformização não é o que se está a propor neste documento. A proposta do ministério contempla apenas dar aos professores a possibilidade de optar por um de dois romances de Saramago ou outro de Mário de Carvalho. Aliás, é um equívoco estabelecer uma relação de causalidade entre as aprendizagens essenciais da escola e o reconhecimento estatal, deduzindo que Saramago está a ser menosprezado pelo governo. O que choca algumas pessoas é o facto de o nosso único prémio Nobel da Literatura não ser obrigatório nas salas de aula. Com o Nobel, o autor como que ganha um lugar cativo à mesa da literatura, graças à aura de autoridade que o prémio impõe a quem o recebe. Dá-se uma espécie de transformação metonímica em que os vencedores do Nobel passam a representar a área em que venceram. Saramago passa a ser o senhor Literatura Portuguesa. As pessoas perguntam, então, como pode o Nobel não estar representado no currículo de Português? A resposta é: está.  

Num recente artigo de opinião no Público, Daniel dos Reis Nunes considera esta proposta uma afronta, já que evidencia um decadentismo da educação pública. Nunes defende a obrigatoriedade de Saramago, um autor que ensina a pensar, sendo um ‘antídoto’ contra um ‘tempo marcado pela pressa, pela simplificação e pela superficialidade’. Para Nunes, ler Saramago não é ‘apenas estudar literatura’ mas constitui o ‘contacto com um dos grandes marcos do pensamento social, político e literário português do século XX’. Todos concordamos com a ideia de uma escola que promova a ‘exigência, o debate e a construção do pensamento’, mas o artigo de Nunes parece afirmar que Saramago é o único autor com o tal antídoto para o presente. Subentende-se que a contemporaneidade sofre de uma espécie de patologia, remediável pela literatura de Saramago. Mas Saramago está no programa não por estas razões mas por ser, incontornavelmente, o Nobel da Literatura. A própria fundação Saramago hesita em comparar este a outros escritores para enaltecer o Nobel em relação aos demais: Saramago não detém o monopólio da suposta formação cívica dos alunos e é questionável se algum autor poderá contribuir para tal formação.

As emoções que a opcionalidade da leitura de uma obra de Saramago causa têm origem na falta de confiança nos professores e na resistência que há em dar-lhes liberdade pedagógica nas escolhas das obras que leccionam. Os argumentos usados em prol de manter Saramago como leitura obrigatória têm o defeito de poderem ser usados em relação a outro autor qualquer; e têm a fraqueza de querer valorizar a literatura por coisas que não são literatura, por exemplo, a formação humana, o pensamento político, situação actual, etc. A literatura vale por si própria, é um bem em si mesmo, é um prazer. Como dizia John Ruskin, através da leitura escutamos as grandes mentes que nos precederam. Raramente temos prazer a ler livros obrigatórios, e muitas vezes a obrigatoriedade tem efeitos nefastos. É então o prazer na leitura que levará os alunos a querer ler mais, e que gerará cidadãos que na sua liberdade poderão vir a querer ler Saramago.

As críticas à proposta do ministério são, para já, fracas e têm pouca substância, focando-se na falsa ideia de uma desconsideração a José Saramago ou na crença de que a literatura (e a de Saramago em especial) forma bons cidadãos. Perante tais reacções, a proposta do ministério ganha força. No seu todo, o que esta tem de mais positivo é precisamente a possibilidade de escolha, procurando não constranger a leitura mas abrindo-as à diversidade cultural e pedagógica do país. E é essa liberdade e diversidade que promoverão o debate e estimularão um espírito crítico tão prezado por Saramago.

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