O erro do copista

por Pedro Saavedra,    6 Julho, 2021
O erro do copista

“Eis que uma jovem mulher conceberá e dará à luz um filho.” Era a frase que o atormentava há três dias e três noites. Tudo tinha corrido bem até ali, mas o profeta Isaías estava a complicar, e muito, a vida de Teófanes. Não se diria, mas este jovem monge já tinha muitos tormentos na sua cábula oratória; este era, de longe, o mais difícil, e as palavras do seu pai, morto demasiado jovem, mas presente demasiado tempo, ecoavam-lhe na memória. Tinha sido um escriba bastante importante na colónia judaica da ilha de Samotrácia. Como judeu, ainda guardava os ensinamentos da Tora em hebreu; mas como grego, que também o era, educara os filhos para o novo império. A Roma dos antigos já tinha caído, mas a nova Roma estava a querer ascender e o mundo que ele conhecia era cada vez menos latino e cada vez mais grego.

Teófanes era demasiado jovem para se lembrar disso, mas sabia que o império dos antigos era o império das coisas certas e únicas, inatingíveis naqueles novos tempos conturbados que nenhum imperador conseguiria contrariar. Roma tinha caído há algum tempo mas, por ali, todos ainda se chamavam romanos. O pai dele era Manasseh, escriba do governador da ilha, uma mistura entre contabilista das pequenas coisas e biógrafo das grandes. Viviam bem, numa pequena casa de dois pisos perto do porto dos pescadores,  e, para além das constantes queixas da sua mãe, do cheiro a peixe se entranhar em todas as coisas vivas e mortas, a vida corria-lhes bem até lá aportar aquele estranho barco que, de velas enegrecidas, trazia, mais uma vez, a praga justiniana ao seu bom porto. 

Tudo aconteceu demasiado rápido e Teófanes ficou órfão no espaço de dias. De nada valeu ao pai as preces que enviou ao governador, que já tinha recebido ordens de Constantinopla para queimar todas as casas infectadas. E, ao largo, foi daí que ambos viram as suas casas arder. O Governador, convencido de ter feito o melhor, via ficar em escombros uma das colónias mais ricas do Egeu, e Teófanes via a sua pequena casa de dois pisos a arder, com o seu pai lá dentro. Ardia, ao mesmo tempo, a sua infância e o seu futuro. No leito de morte e ainda consciente do que estava a acontecer, Manasseh, como bom pai e bom hebreu, colocou nas mãos do seu primogénito a Tora que tinha herdado, e um conjunto de tabuinhas de sabugueiro: Vai, a minha terra morre comigo, a tua terra será onde o mar te levar. Não o viu mais, nem à sua mãe e irmã, fugitivas no caos da carnificina de corpos infectados e de almas perdidas. Qual seria o destino de uma jovem mulher, descendente de patrícios de Palmira, com uma criança de colo a gritar de fome? Imaginou o pior e decidiu-se a tentar perceber o que é que um pai contabilista escreveria, em algumas pequenas tábuas de madeira: Nascemos um e tornamo-nos muitos / somos muitos, mas de apenas um precisamos / de um único precisamos até ao fim / no fim, será d’Ele a decisão do muito que fomos.

Entrou no mosteiro de Clídio, no melhor dos momentos. O Governador era primo direito do grande Cirilo e sabia o que devia ao meu pai da sua boa relação com o Imperador. Não era nem muito honesto, nem muito corrupto, tal como todos os homens poderosos do seu tempo; fazia pela vida e tentava ajudar, o melhor que podia, pobres e órfãos. Foi mais ou menos esse o discurso que fez a Bóris, o Grande, como viria a chamar-se. Bóris era exigente, como todos os trácios, mas também precisava de jovens minimamente capazes para a arte do copismo, e ali, à sua frente, o filho órfão de um escriba judeu parecia-lhe ideal para a sua missão.

Os primeiros anos não foram bons, não podiam ser, era um mosteiro cheio de homens raptados às suas vidas. Todos mentiam o melhor que podiam aos confessores mas à noite, e cada um na sua cela, as imagens da vida que deveriam ter tido apareciam nas paredes, no chão e até na parca roupa que repousava no chão. Mas o tempo apaga tudo e a rotina do mosteiro permitia esquecer, passo-a-passo, cada um dos momentos do passado. E, assim, pouco a pouco, Teófanes foi-se tornando o melhor copista de Clídio. Já ia no décimo quinto dos cerca de trinta volumes que lhe eram esperados copiar, quando Bóris entrou no sriptorium e deixou cair em cima da mesa um conjunto de pergaminhos enrolados, Ainda te lembras da língua do teu pai? Bóris gostava de me lembrar a ascendência hebraica. Era coisa que a ele, um trácio, o fazia, lá está, sentir-se Grande. Um pouco. Respondi eu. Aqui, a tua mais importante missão e provavelmente a minha última antes do Salvador me chamar a Si. A palavra do senhor escrita por um dos teus conterrâneos. Deixa tudo o que estás a fazer e começa a traduzir estes textos para grego. Aviso-te só que foi o Imperador, ele próprio, que nos enviou essa preciosidade e que tens que a entregar o mais rápido possível, para que se possam fazer dela o maior número possível de cópias.

Bóris tinha-o deixado com aquela missão e não mais pressionou ou questionou Teófanes, que se tornou ungido pela tarefa e beneficiado na fila do refeitório. Era o mais rico dos monges, não por património acrescentado, mas pela admiração dos meus pares. E os primeiros meses foram dos melhores na sua vida, levantava-se quando queria, deitava-se quando as forças o abandonavam e, para além de algumas conversas junto ao mar, Deus deixou de ser uma obrigação com horários. “Eis que uma jovem mulher conceberá e dará à luz um filho.” Estava ali escrito e só ele o conseguia ler. Havia naquela humanidade que o cercava uma necessidade de encontrar um caminho que tudo justificasse e percebia que o novo império precisava de um rumo. As histórias que chegavam ao mosteiro de Clídio eram poucas mas relatavam sempre o mesmo, conflito e discussão sobre a nova religião que Constantino tinha imposto ao seu império antes de morrer. Tantas tribos, tantas ideias, tantas formas, obrigadas a encontrar numa única divindade e numa única explicação a espantosa realidade das coisas visíveis e invisíveis.

Não sei se foi da falta de sono das últimas três noites, mas achou que lhe cabia a ele seguir as últimas ordens do seu pai: de um único precisamos até ao fim / no fim será d’Ele a decisão do muito que fomos. Pegou na pena e sem remorso, leu almah e escreveu parthenos. Da palavra hebraica para jovem mulher passou à palavra grega para virgem. “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho.” Nessa noite já voltou a dormir como um anjo. Em sonhos, apareceram-lhe os dois Pais que, lá do alto, o encorajavam a continuar a missão de fazer do livro deles o nosso livro. E foi exactamente o que monje Teófanes fez.

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