A barreira invisível

por Henrique Prata Ribeiro,    11 Abril, 2021
A barreira invisível

Se me pedirem para dizer qual a maior barreira que a Saúde Mental enfrenta, digo com facilidade que é o estigma. Ele está presente em todos os campos da sociedade; desde as escolas aos hospitais ou à Assembleia da República, passando pelas profissões mais técnicas e chegando aos próprios profissionais de saúde. Não é dependente do estrato socioeconómico e cria, em relação a toda a área e em especial em relação às perturbações mentais, um peso que é invisível, mas demolidor. Esse estigma representa parte da dificuldade que ainda existe em fazer as pessoas chegar atempadamente aos necessários tratamentos.
A nossa sociedade ainda não encara com naturalidade as doenças psiquiátricas. As consultas, quer com psicólogos, quer com médicos psiquiatras continuam a ser, em muitos meios, temas proibidos

Um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica. Apenas este dado deveria ser suficiente para se perceber o quão importante é discutir nos nossos meios os temas relacionados com a Saúde Mental e o quão natural terá de ser que as pessoas sejam acompanhadas por médicos psiquiatras e por psicólogos. Quando alguém está doente, tem de procurar o necessário tratamento. Infelizmente, ainda não é do senso comum que as perturbações psiquiátricas sejam doenças e que, à semelhança das outras, necessitem de ser tratadas.

Um dos problemas que existe na psiquiatria quanto à desconstrução dos mitos que envolvem a área, é o facto de não existirem exames complementares de diagnóstico que permitam, através de uma máquina, “entregar” um diagnóstico aos doentes. Os diagnósticos são feitos com base em análise clínica de quadros sindromáticos, que são conjuntos de sintomas que configuram determinadas doenças. No entanto, ainda que não consigamos quantificar in vivo os níveis dos neurotransmissores, sabemos que esses quadros sindromáticos representam alterações da sua disponibilidade e distribuição. Essas alterações neuroquímicas têm de ser reequilibradas, muitas vezes com recurso a fármacos que impactem a neurotransmissão — psicofármacos, ou seja, fármacos que atuem no funcionamento cerebral. 

Utilizemos a depressão como exemplo. É uma das perturbações psiquiátricas mais prevalentes e estima-se que no curso de uma vida, cerca de 20% das pessoas preencham, nalgum momento, critérios para o seu diagnóstico. É uma doença com alterações conhecidas a nível da neurotransmissão, da inflamação cerebral e até de atrofia de determinadas zonas do cérebro. Estima-se que seja responsável por uma enorme porção de todos os suicídios – que é a segunda causa de morte em jovens entre os 15 e os 29 anos — e é curável. Ainda assim, há em relação aos medicamentos antidepressivos um estigma tão enraizado, que mesmo com indicação médica, se sente por vezes falta de confiança por parte dos doentes em iniciar a sua toma. Ainda que a depressão não se deva curar exclusivamente com recurso a fármacos, a inclusão de antidepressivos no plano de tratamento é essencial, altera completamente o prognóstico dos doentes e, objetivamente, salva vidas. Ao curar a depressão, os antidepressivos salvam milhões de vidas todos os anos, que eventualmente poderiam ser perdidas para o suicídio. É essencial dar este tipo de conhecimento às pessoas, para que compreendam a importância que chegar aos cuidados de saúde e cumprir as indicações médicas pode ter.No campo do combate ao estigma, muito trabalho tem de ser feito, mas estamos a atravessar um período no qual sinto que se estão a reunir as condições ideais para, através dos media, das redes sociais e, mais importante, através da adoção de medidas de prevenção e vigilância para a Saúde Mental por parte do Governo — a nível das instituições de ensino e dos locais de trabalho, por exemplo — darmos início à educação da população em relação ao que são os sintomas e as doenças mentais. O estigma termina onde começa o conhecimento.

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