O futuro que não ia existir afinal é bom
A noite de 31 de dezembro de 2009 foi como todas as outras passagens de ano: no jardim do meu amigo Henrique a atirar Pedras de Bom Ano aos carros que passavam ao largo da sua casa em Vizela. Os gigantes cedros que a circundavam garantiam a invisibilidade necessária ao sucesso da nossa Frente de Libertação da Adolescência, que a cada ano ganhava força, músculo e pêlos. A democrática emboscada não tinha razão de ser que não a da demonstração da nossa virilidade despontante, prova de que a beleza de ser criança também está na liberdade de poder matar pessoas sem querer. O duelo era justo na medida em que ninguém se via: a mira era feita com os ouvidos, que calculavam a aproximação do Honda Civic e ordenavam à mão que atirasse um «Feliz 2010» aos Cláudios e às Andreias.
Tudo o que eu conhecia antes de 2009 era 2008, 2007, 2006, 2005, 2004 e 2003. Distinguia bem esses anos e estava para mim claro que tinha vivido cada um deles, não fossem desde logo os primeiros sumários de janeiro em que trocava o 6 pelo 7, relembrando-me que sim, que estava um ano mais velho, que 2006 era passado e que 2007 chegaria fresquinho e por abrir. O ano de 2007 era de tal forma novidade que nem conseguia conceber o mundo daí a dois anos.
Nessa última noite de 2009 estava mais angustiado do que o costume: é que, ao contrário de nos anteriores anos, neste não rodava só o último número da direita: aparecia um 10, que seria seguido por um 11, e depois por um 12, e daí em diante. É-me claro o aperto de então pensar o que seria de mim e do mundo em 2018, como que carregando uma mochila ao peito e não nas costas, convicto de caminhar para um futuro ao qual não pertencia.
E se o pensamento em 2009 era assim sobre 2018, a década de 2020 era vista como ainda mais abstrata (até dizer em voz alta o ano soava estranho). Quando em 2009 pensava no ano de 2026 não imaginava porcos voadores ou em ser isto ou aquilo: sentia, sim, o abismo do tempo a furar-me a barriga, a fria finitude a soprar-me ao pescoço, as mãos a desfazerem-se. Pensar em 2026 era entrar num túnel onde não via nada.
Hoje, quando penso em 2042, não há escuridão: está iluminado com néons cor-de-rosa. O que me então faltava era experiência: para perceber que a vida é muito mais interessante do que aparentava; que os nossos interesses mudam e nós com eles; que há ziliões de coisas bonitas para ler, provar, conhecer, ouvir e ver. Sobretudo: que também as mais profundas tristezas passam; que a estranheza que sentia — e sinto — em viver sentiram-na outros antes.
Em 2025 já não atiro pedras a carros (mal), mas divirto-me a descobrir CDs, livros, poesia, comida, pessoas. Divirto-me em noitadas, em cuidar de plantas, em brincar com cães ou em ir à praia. Aprendi a encontrar-me no sensível e no quieto: o futuro que em 2009 me inquietava e torcia o espírito revelou-se afinal uma vida crocante e colorida.
A criança de 2009 não conseguia pensar na vida sem a temer: o futuro engolia-a. Hoje, vingo essa criança como um sapo bem-vestido que saltita entre nenúfares, curtindo aqui e brincando acolá, tornando-se-me evidente que também o futuro será bom — desde que não mo contem.
Sugestões do cronista:
Em tempos de passagem de ano, e do tempo, lembro-me sempre do The Old Fools do Philip Larkin. É o poema mais violento que conheço: não consigo lê-lo sem me imaginar de fraldas. Recomendo-o porque põe um prego por cima das melancolias às quais a época se presta. Sugiro que em 2026 se divirtam mais, sejam menos sérios e se armem menos em intelectuais da culturinha — que a vida é para curtir. Prescrevo também (esta é para mim) menos tempo nas redes sociais e mais tempo nos livros; mais tempo a dançar e menos gasto com neuras, que também acabarão por passar.

