O Globo de Ouro que tarda em chegar

por Pedro Mascarenhas,    28 Setembro, 2026
O Globo de Ouro que tarda em chegar
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Em 1996, algures entre abril e maio, os últimos meses do meu último ano na Escola de Dança do Conservatório Nacional, fui fazer audição para o Ballet Gulbenkian. Como bom curioso que sempre fui, enquanto esperava para entrar no estúdio de dança para fazer a aula com a companhia, aproveitei para observar tudo à minha volta, para os camarins, para o ambiente nos corredores, para as pessoas que ali trabalhavam. Observei tudo o que pude, não sei se a projetar uma vida futura, ou apenas a distrair os nervos. Parei os olhos na tabela de serviço onde se encontravam planos de trabalho da futuramente extinta companhia da Gulbenkian, e reparei numa carta assinada pelos bailarinos.

A carta era endereçada à SIC, que nesse ano tinha instituído os Globos de Ouro, um prémio para reconhecer o talento de artistas portugueses em diferentes áreas, exceto a dança e os seus intérpretes. A carta chamou-me a atenção, não propriamente pela situação que expunha, mas pela iniciativa coletiva de todo um elenco a reivindicar o seu lugar na prática e na história da dança portuguesa. Faziam-no enquanto intérpretes de dança e como exemplo vivo e real de “a união (da dança que) faz a força”.

Fiquei sempre curioso sobre qual terá sido a resposta e, na minha ingenuidade crónica — que aos 18 anos tinha uma intensidade desmedida —, convenci-me de que no ano seguinte a situação seria resolvida e imaginei possibilidades de nomeados e nomeadas, na área da coreografia e da interpretação. Candidatos não faltavam. Nunca faltaram. A dança é uma área artística, plural, onde cabem todas as danças, todos os criadores e intérpretes. Escolhas nunca faltaram e continuam a não faltar.

Os anos foram passando e fui convivendo com a ideia de que para a SIC, e para todas as pessoas que direta ou indiretamente estiveram envolvidas na produção deste prémio ao longo de 30 anos, a dança nunca foi mais do que entretenimento, no mais infeliz sentido do termo.

E, no entanto, a dança esteve sempre presente nos Globos de Ouro. Ao fim de 30 anos, continua a estar presente, mas apenas para “abrilhantar” a noite, para entreter ou simplesmente para servir de abertura da cerimónia ou de separador. Não consigo imaginar que, ao longo de tantos anos, diferentes diretores, imagino que centenas de jurados (na sua maioria da área da cultura), diferentes equipas, nunca ninguém tenha questionado a ausência de um prémio para a dança. E isto quando na categoria de teatro, até se inclui a definição espetáculo: Globo de Ouro para Melhor Peça/Espetáculo.

Mas também tenho dificuldade em compreender que, havendo uma ínfima possibilidade de questionamento, passadas três décadas, a dança continue a não ser reconhecida enquanto arte por um canal de televisão que distingue prémios ao talento artístico português, e afirma serem estes os prémios que distinguem o talento em Portugal.

Claro que podemos refletir sobre o que é que um sector que historicamente tem dificuldade em criar uma união para reivindicar os seus direitos e o seu reconhecimento (sabemo-lo), pode fazer neste caso. A estrada é sempre de dois sentidos, a pergunta é legítima, e eu não tenho dados que me permitam saber a resposta. Talvez o sector tenha feito muito ou talvez não. A partir de determinado momento, a falta de reconhecimento por um canal de televisão provavelmente deixou de ser importante face a um desrespeito constante que dura há três décadas. É aquela máxima que resume, e resolve tudo: “onde não puderes amar, não te demores”.

Todos os anos, em cada gala, ultimamente apresentadas por Clara de Sousa, faz-se um discurso de abertura onde se juntam um conjunto de clichês que no fundo sustentam a importância dos Globos de Ouro. Ora se referem manifestos artísticos e se nomeiam todas as artes, incluindo a dança, como aconteceu em 2025, ora se refere “o talento de um país inteiro”, como no sábado passado, mas sem que a dança tenha lugar entre os nomeados.

Percebe-se que a SIC continua, sistematicamente, a ignorar a dança e que faz um branqueamento artístico de parte da criação nacional, ao excluí-la e aos seus intérpretes. Percebe-se também que, quem escreve os textos para os apresentadores não sabe o que está a escrever. Quem os lê não ouve nem reflete sobre o que está a dizer. Reconhecem que a dança é uma arte, mas não lhe reconhecem valor ao não distinguir anualmente com uma nomeação que fosse. 

Voltei a lembrar-me da carta que tinha lido há 30 anos na tabela do Ballet Gulbenkian. É possível que não tenha tido resposta. Ou talvez seja eu que prefiro acreditar que não teve resposta. Do mal o menos.

Os anos passaram, a audição correu bem, mas não entrei no Ballet Gulbenkian, que, nove anos depois e de forma abrupta e inconsequente, terminaria.

Aconteceram centenas de criações; intérpretes maravilharam-nos nos palcos portugueses; muitos terminaram as suas carreiras; outros nasceram, cresceram, formaram-se e já são profissionais, muitos já vão a meio da sua carreira. Continuamos a ver espetáculos incríveis, outros nem por isso, ultrapassamos as fronteiras da multidisciplinaridade e assistimos a uma transformação constante e necessária nas artes performativas. Enfim, tal como na dança, a vida é um eterno e ininterrupto movimento mesmo quando tudo parece estanque.

Também os Globos de Ouro se transformaram, acrescentaram áreas. Algumas vieram de fora das artes, apesar de ali surgirem como parte dos talentos criativos; outras deixaram de ser reconhecidas e de pertencer à lista de nomeações. Mantiveram a presença da dança nas suas galas para dar brilho e aparato entre fogos de artifício.

No sábado passado a SIC assumiu, mais uma vez, que a dança é uma arte, mas talvez não seja arte suficiente para ser reconhecida e premiada. Eu, embora com mais moderação, continuo a ter uma boa dose de ingenuidade que me permite no fundo, bem lá no fundo, acreditar que um dia a dança e os seus intérpretes vão ser reconhecidos num dos prémios mais mediáticos em Portugal.

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