O lápis azul está de volta, e mora nos EUA
A retirada do programa de Jimmy Kimmel do ar, sob pressão da Casa Branca, expõe um problema maior do que a simples decisão sobre um Talk Show: espelha uma democracia em check. Não porque faltem instituições reguladoras, mas porque as mesmas estão a neutralizar as vozes críticas. Ecoando, à primeira vista, um Portugal passado, onde as portas entre o artista e o público encontravam-se interditas pelo guardião de grafite azul.
No entanto, continuaram os poetas e pensadores portugueses a escrever. Encontraram meios de mobilização, mesmo com poucos recursos – a força de consciência era irresistível. A sensibilização do povo estava no primeiro ponto da ordem do dia. E agora? A concentração dos meios de comunicação traz consigo um risco avassalador: a uniformização da informação. Quando poucos grupos controlam a maioria das vozes, instala-se um monopólio da narrativa, que limita a pluralidade e fragiliza a capacidade crítica. O povo, em vez de ser sensibilizado por uma diversidade de perspectivas, passa a ser exposto a versões filtradas, simplificadas ou até manipuladas da realidade. A consequência? A erosão da autonomia do indivíduo, substituída pela reprodução de mensagens impostas.
Basta olhar para o assassinato de Charlie Kirk. Quantas vozes desmoralizaram o chumbo que ecoou entre as palavras divisórias e radicais do infortuno, dignificando-o como a voz da “direita moderada”? O problema, cremos nós, não está na condenação da violência política, mas na subversão da realidade à qual Charlie Kirk se aliou. Não se deixem pintar de azul, mas não se conformem à tela branca que vos foi vendida.
A democracia não sobrevive sem crítica. É nela que encontra o seu alimento. Mas até as verdades mais firmes podem ser esquecidas, enterradas pelo silêncio conveniente. O verdadeiro perigo surge quando a crítica ainda existe, mas é algemada: quando o governo decide o que pode ou não ser dito, ou ameaça punir quem ousa discordar. Nesse instante, já não estamos perante a convivência democrática, mas diante daquilo que mais a nega — a censura.
O lápis azul inicia-se quando os centros de poder perdem a narrativa. E é precisamente isso que assusta Donald Trump: o medo de que Jimmy Kimmel ou Stephen Colbert criem vídeos virais capazes de marcar a opinião pública.
Se Trump não consegue apresentar uma narrativa mais forte e se o espaço digital e as conversas de café passam a ser dominados pela sátira dos humoristas, ele falha. E, diante dessa falha, a tentação que surge é recorrer a uma solução autoritária: a ditadura da censura.
Ora, a democracia também significa pluralidade: o povo não pensa apenas na cor amarela. Pensa, também, no roxo, no verde e no vermelho. O contraste é o que dá força ao sistema democrático. Mas quando uma democracia é forçada a gostar só do amarelo, deixa de haver espaço para as outras cores. E é exatamente assim que nascem as ditaduras: regimes de uma só cor, onde a opinião pública é controlada e não sobra espaço para diversidade.
Estará o espaço entre o branco e o azul a diminuir?
Crónica escrita por Manuel Neves e Francisco Silva.
