“O Louco de Deus do Fim do Mundo”, de Javier Cercas: uma viagem literária que vale a pena partilhar
Os bons livros são como uma viagem por lugares e mundos que desconhecemos, com personagens/pessoas que nos deixam um pouco delas. Depois há os livros que excedem tudo isto, que são aqueles que nos fazem questionar as nossas certezas e até nos ajudam a conhecer um pouco mais de nós. O Louco de Deus do Fim do Mundo é uma dessas obras que nos deixam marcas profundas.
É certo que esta obra já foi aconselhada por muitas pessoas — ávidos leitores, opinion leaders, etc. — mas a verdade é que é vale mesmo a pena, não é apenas um fenómeno de popularidade.

Depois de a ler dei por mim a pensar em muitas coisas. Questionei se Javier Cercas teria de alguma forma recuperado a fé que afirma ter pedido na adolescência, confirmei a admiração que sentia pelo espírito cristão do Papa Francisco, fiquei arrebatada pelo trabalho dos missionários num país com tão poucos crentes e comovi-me com a forma como um filho ateu, anticlerical e laicista aceitou um convite improvável para dar uma resposta à sua muito creste mãe: iria ela encontrar o falecido marido após a morte?
Estamos a chegar ao Natal, tempo que deve ser mais do que o de um consumismo desenfreado e sem sentido. Deve ser uma época em que oferecemos coisas com sentimento e que possam fazer a diferença na vida dos que nos são próximos.

Um Louco de Deus do Fim do Mundo é uma dessas experiências literárias avassaladoras, que merece ser partilhada com aqueles que mais amamos, sejam eles crentes ou não crentes, jovens ou pessoas mais velhas. Ninguém fica indiferente à forma como descreve a preparação da viagem com o Papa à Mongólia (nos bastidores do Vaticano), o encontro com os missionários e a constante interrogação que o autor faz sobre a fé, a que diz que perdeu e a dos outros.
«Muitas vezes invejei as pessoas que, como a minha mãe ou os missionários — os loucos de Deus deste livro —, têm uma fé autêntica: invejei a força e a serenidade que a fé proporciona. Mas a fé não é uma questão de vontade: ou se tem ou não se tem. Eu tive e perdi e, embora agora gostasse de a recuperar, não saberia como fazê-lo», confidenciou Javier Cercas numa entrevista recente. E esse respeito e admiração pela fé de quem a tem sente-se em cada frase, numa obra que se desenrola como se o autor estivesse a falar diretamente para nós.
O Louco de Deus no Fim do Mundo não é um livro que apenas se lê, é um livro que se absorve. É uma obra que nos interpela e nos questiona sobre aquilo em que acreditamos, mas também sobre as nossas dúvidas e inquietações.
Por todos estes motivos, esta é a minha escolha deste ano para encher alguns sapatinhos na chaminé.
