O Marido da Mulher

por Pedro Saavedra,    9 Novembro, 2021
O Marido da Mulher
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Nunca foste o meu género! Ouvia ela enquanto caía pelas escadas. Tinha sido um acidente sem sentido, um pé mal colocado, uma vertigem súbita, um desviar de olhar ou apenas um infeliz acaso. Apesar disso, tudo mudava a partir dali. Discutiam há três semanas sem parar. Ela dizia-se infeliz, ele dizia-se farto. Mas fechados em casa por causa de razões de outra responsabilidade a sua antiga relação interior tinha-se tornado no cenário de um filme de horror em que ambos eram simultaneamente vítima e carrasco.

Tudo começara da maneira mais inocente de todas. Tinham terminado uma relação de seis anos porque discutiam muito. Não deviam nada um ao outro, apesar dela sempre ter ganho mais do que ele, na empresa não na relação. Tinham tudo no nome dos dois e casos extra-casamento, que se saiba não havia. Havia sim um ódio crescente baseado na melhor das emoções humanas, a empatia. Ambos tinham empatia pelos argumentos e pelo tu sabes lá do que falas. Amavam-se e odiavam-se ao mesmo tempo. Não era um problema até começarem as agressões. Primeiro os ataques emocionais depois os físicos. Mas aquele acto tinha sido mesmo inocente, tão inocente que ninguém se estava sequer a questionar de quem teria sido a culpa do início do movimento de desiquilíbrio pelas escadas abaixo. Ela rebolava e, degrau a degrau, aproximava-se cada vez mais do inevitável fim.

Tinham-se conhecido também por inocência e acaso numa paragem de autocarros. Os funcionários da consessionária costumavam fazer greve e eles já se tinham habituado a usar aquela carreira casa/trabalho e trabalho/casa. Em greve, e sem forma de chegarem a casa num dos dias mais caóticos da cidade onde insistiam em viver, apesar de tudo, foram felizes no primeiro encontro. Sentiram que o outro tinha forma de amparo em vias de extinção. Ele olhou para ela e sentiu que era a mulher da vida dele, ela olhou para ele e sentiu-se compreendida. Falaram pouco da primeira vez e deixaram-se levar pelo melhor argumento que pode existir num casal, a atracção. Lá se fizeram e se por lá tivessem continuado talvez por lá ainda andassem.

Desde o primeiro dia que viviam juntos. Primeiro em quartos de hotel onde terminavam as noites de saída das sextas-feiras. Cada um combinava à vez o local de encontro. O entusiasmo de ter espaço novo para uma nova fantasia de vida a dois. Isso correu tão bem que passaram à fase seguinte e decidiram alugar uma casa. Uma micro casa que tiveram dinheiro para alugar e só mais tarde nesta grande casa onde habitaram até à separação. Ele não quis sair, ela pagava as contas e a história de um ex-casal fechado em casa durante uma quarentena, aconteceu. Parece mentira que duas pessoas desavindas, na única noite que se dedicaram a tentar refazer o que já estava perdido, acordaram num mundo virado do avesso. Mas isso tinha sido há seis meses atrás.

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