O mundo é meu e dos meus golos no verão

por Henrique Pinto de Mesquita,    24 Agosto, 2025
O mundo é meu e dos meus golos no verão
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Saía da porta e caía aos meus pés, redonda, minha, pronta para me dar a tarde mais feliz da minha vida.

(Era sempre a tarde mais feliz da minha vida)

Quando caía, pinchava: estava cheia. Maior do que eu — e ainda assim minha. Cor-de-laranja, símbolo da Nike, levava-a debaixo do braço como um escudo que me protegia de um futuro sempre triste, nunca melhor. Era intervalo e ia jogar contra os mais velhos que sabiam lá. O craque era eu.

E entrava em campo e a terra subia e o tempo parava e a bola rolava e eu era tão feliz. Sei lá se a mãe chamava, se o pai olhava, sei que ela fugia e eu corria e o gordo na baliza sempre com ranho-amigo e sempre fiel que saudades tenho tuas bola criança ser feliz e ter terra e sangue nos joelhos.

Meu amor quando partiste e rolaste menos eu parti contigo para esta vida de adulto que pensa e faz e muito obrigado sim gostei de Londres mas sinto mesmo é falta das tardes que passávamos juntos e brincávamos na relva com primos e mães novas e cães velhos. E as balizas eram sempre aquelas pedras onde lembras-te uma vez rachei-me e deitei tanto sangue que saudades desse sangue dessa vida.

Quando era criança eu era a melhor porque jogava melhor à bola do que as outras que eram ranhosas e diziam “papá” e “mamã”. Eu nem pelo pai nem pela mãe, chamava pelo meu amigo Henrique que me treinava as trivelas no campo de cimento que os meus avós construíram — tu lembras-te, Henrique?

Eram os tempos do Lucho e do Quaresma. E dos fins-de-tarde com enxaqueca de tanto jogar, de tanto treinar para ser Deco, Ronaldinho, Hulk, Diego. E as tardes no hall de entrada a fazer cuecas a uma mesa manuelina que ficava com as pernas mais comidinhas sempre que lá fora chovia. E o meu pai uma vez filmou-me a fintar a mesa manuelina e queríamos mandar para as captações do Manchester United — tu lembras-te, Pai?

E as boladas no vidro para irritação da mãe. Quanto vidro parti que bom partia-os todos outra vez, agora partido só mesmo o coração e não foram bolas — foram solas. Tu lembras-te como o sol não existia e as estrelas que nos guiavam eram os focos dos ringues, de como íamos aos restaurantes e saíamos da mesa para jogar à bola onde pudéssemos com carros sem carros com crianças sem crianças. Tu lembras-te Zeca do plano inclinado de Margaride, da bola que não parava e de ti com o cabelo nos olhos e os olhos na bola? O mundo podia acabar ali tudo bem quero é marcar este golo fazer esta finta meter esta trivela.

E corríamos sem parar, sempre em frente, sempre quentes, com poucos dentes, mas muito superiores ao que hoje somos ao que hoje temos. A noite caía mansa e não havia cá coisas venha de lá essa bola, qual melancolia eu queria era meter cuecas aos meninos mais velhos que eram fracos fracos fracos.

Há dias saí do trabalho e fui à CUF com as unhas dos dedões dos pés partidas, negras, a sair. Perguntaram-me se «era do futebol» havia de ser do quê? «Dos pisões, certo?» Mas quais pisões — «isto é de rematar, sôtora».

– Mas remata com os dois pés?!

Desculpe?

– Remata com os dois pés?!

Os meus olhos encheram-se de mar de bola na praia lá estava eu com a minha no pé cor-de-laranja em frente a dois mais velhos que são do Porto betos da treta. Passo pelo primeiro, cueca no segundo — as meninas já têm 10 anos e estão a ver — e meto uma trivela de pé esquerdo para golo. Putos no chão, ranho na areia e as meninas loirinhas gatas loucas para ver de perto a minha tatuagem matutano. O mundo é meu e dos meus golos no verão.

– Claro, sôtora!

Sugestões do cronista:

Aproveitar as noites meigas de verão, que não se deitam ao lado, mas por cima de nós. As cores, fantasia e verdade do Bob Wilson. Diabruras com amigos em festivais, bolas de Berlim sem nutella, amigos mais velhos, olhos verdes e pernas morenas. The Strokes. A história do Afonso: em dois anos mudou de coração, casou e teve o primeiro filho — dois novos corações. O olhar pendurado da Rosinha — «bem-vinda ao continente dos frágeis, podes parar de nadar». E que não vos contem tudo, se não o futuro deixará de vos interessar.

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