O obituário das tascas portuguesas? Uma resposta comedida
Este artigo foi originalmente publicado no esquerda.net e é aqui republicado com a devida autorização.
A romantização das tascas e de outros tropos semelhantes da “portugalidade” não nos leva a lado nenhum.
Numa recente crónica publicada na Comunidade Cultura e Arte, Manuel Neves e Francisco Themudo perguntam: está próximo a afixação do “obituário das tascas portuguesas” no café da esquina?
Com muito romantismo à mistura, Manuel e Francisco falam sobre estes sítios “com balcões corridos, toalhas de papel marcadas por gotas de gordura a fazer notar o sabor da refeição e o som persistente da máquina do café a ressoar no fundo” onde ocorre uma “dança muito portuguesa” que se tornou um “ritual quotidiano que nos caracteriza”. Nada de errado com isto, certo? Bem… Vamos por partes.
O duo determina, de forma correta, que algum destes estabelecimentos “icónicos” estão a ser substituídos por “espaços padronizados” devido à gentrificação que assola, em particular, as grandes cidades (mesmo que este fenómeno já não se encontre apenas concentrado nas metrópoles do Grande Porto e da Área Metropolitana de Lisboa). Porém, uma ressalva: este processo não afeta somente as tascas. Veja-se o exemplo recente do fecho da pastelaria centenária Centro Ideal da Graça, em Lisboa, devido ao edifício onde esta se localizava ter sido comprado — adivinhe-se — por um fundo de investimento imobiliário. A indemnização oferecida aos inquilinos do prédio e aos donos e (esperamos) trabalhadores da pastelaria terá sido suficiente para aquecer a alma dessas pessoas que ali fizeram a sua vida? Duvido. A descaracterização, assim sendo, continua.
Contudo, a tese que Manuel e Francisco defendem na sua crónica revela algo mais do que apenas um simples lamento pelo possível desaparecimento das “tascas portuguesas”. É mais profundo. Neste tipo de crónicas sobre a “tasca” que se têm proliferado nos últimos anos à medida que a gentrificação galga terreno no centro das cidades, o romantismo saudosista em torno da ideia da cultura mui-portuguesa associada à tasca domina. É imperativo que assim seja. São os ventos do momento.
Afinal, a ideia de que a tasca faz parte da cultura tuga é uma ideia que faz parte da realidade plantada nas nossas memórias. E, verdade seja dita, há razões para isso. Como José Margarido assinalou numa crónica na Time Out Lisboa, uma tasca que se preze possui (geralmente) estas três qualidades: genuinidade, qualidade e consistência. Além disso, claro, uma boa tasca tende a possuir preços de amigo para os seus pratos servidos numa (supomos) travessa de inox. Tudo isto faz com que a nostalgia pela tasca seja fácil de surgir. Numa era onde tudo se tornou tão caro, a gentil e nobre tasca, capaz de providenciar uma boa dose a um preço acessível ao comum mortal, torna-se a resposta idílica aos desaires da contemporaneidade.
Porém, o que torna todo este romantismo mais interessante de analisar é que ele surge bem delineado ao mesmo tempo que ocorre o clímax de todo um revivalismo daquilo a que podemos chamar — mas se calhar, não devemos — de “portugalidade”. Porquê agora? A resposta não parece ser difícil de adivinhar (é só olhar para a constituição da Assembleia da República, a maior “tasca” do país), mas torna-se complicada de explicar quando muito deste revivalismo parece estar ligado, ou pelo menos foi iniciado, a círculos cosmopolitas das grandes cidades. O hipster de bigode é o principal herdeiro do Zé Povinho?
Com certeza, haverá uns iluminados que irão proferir que a cultura de tasca é uma cultura de colisão de classes. Porque, afinal, a tasca é frequentada por todos os estratos da sociedade, correto? Bem, isso não foi o que ouvi enquanto crescia numa vila no Norte do país. Para mim, a tasca era sinónimo de quase degeneração. Um local onde os velhotes da vila iam para se embebedar e terem “conversas de tasca”. Futebol, mulheres, pseudo política. De certa forma, colocando assim as coisas, a cultura de tasca, se calhar, é uma cultura mui-portuguesa — mas não pelas razões que tantos apregoam. No seu pior, a cultura de tasca é misógina, falocêntrica, patriarcal, precária, que pouco representa a tal colisão de classes e mundos que alguns apregoam. Quantas tascas conhecem que encenam essa utopia?
Talvez isto seja uma questão geográfica acima de tudo (e de classe — a minha família nunca teve a cultura de ir comer fora), mas só quando vim para Lisboa é que comecei, com cada vez mais frequência à medida que os anos avançavam, a escutar a boa-nova sobre a cultura de tasca acerca da qual se assina agora obituários. Fica mais engraçado pensar nisto quando leio pessoas como o Frederico Pombares a declarar que o “norte de Portugal é o paraíso das tascas”. E talvez fique mais engraçado ainda quando nos apercebemos que a frase de um dos autores do Telerural (lembram-se? Portugalidade máxima) foi proferida durante um painel de discussão que ocorreu no festival Tribeca Lisboa, um evento sinónimo de gentrificação, sobre a tasca e as “neo-tascas” — tascas gentrificadas. Coincidência?
A realidade, claro, será muito mais complexa que sobrepor todas estas perspetivas. Até porque, de certa forma, todo o romantismo criado em torno das tascas — e de outros elementos conectados à tal “portugalidade” — também contribuiu para o processo de gentrificação das grandes cidades do país. Todavia, este saudosismo bacoco em torno das tascas, ignorando os possíveis defeitos destes lugares, revela algo sobre aquilo que está escrito nas entrelinhas deste discurso. Na boa verdade, o quão distante está a saudade da tasca do fenómeno do revivalismo do tradicionalismo presente, por exemplo, na música portuguesa dos últimos anos devido às influências de figuras como ROSALÍA, C. Tangana ou Conan Osiris? Tal como a portugalidade apregoada pelos David Brunos e outros tantos desta vida no fim da história, esse revivalismo romântico do “tradicional” (e outros melismas que tal) efetua o mesmo trajeto onírico que estas crónicas: tentar chegar à essência do que é a cultura portuguesa e, por consequência, do que é ser português. Ou seja, tudo isto é uma tentativa em procurar uma utopia perdida no nosso passado. Alerta: perigo. Temos um problema.
Então, o quão distante estão todos estes discursos de uma espécie de neo-salazarismo? Estamos perante uma espécie de glorificação quasi-espiritual de múltiplos símbolos do “tradicionalismo e do ruralismo”, como lhe chama Luís Trindade no livro O Estranho Caso do Nacionalismo Português. Se enquadrarmos a tasca como parte da “simples” cultura portuguesa, começamos a ver os fantasmas do passado a ganharem força. E quando refletimos que muita desta nostalgia na metrópole surge como consequência da cidade perdida devido à gentrificação e consequente descaracterização, não estamos muito distantes de começar a afirmar de que a metrópole cosmopolita é um espaço de degeneração e de vícios em contraponto com a pureza, simplicidade e “felicidade” do meio rural. Até quanto é possível esticar a corda com esta glorificação do parolo estilo Telerural até ela partir? Estamos mesmo na corda bamba e, mais uma vez, é este discurso de macrocefalismo o principal a vir ao de cima.
Em particular, a música pop portuguesa vive um período de grande sucesso e excesso para algumas manifestações sonoras que simbolizam o mesmo que esta glorificação da tasca. É um pesadelo. Múltiplos revivalismos a ocorrer ao mesmo tempo, capazes de revelar um grande amor de muitos ao passado construído a partir de mitos ao invés de olhar para a possibilidade de construção de um futuro coletivo. Que alternativa há ao capitalismo, que tanto se imiscui nas nossas vidas? Para muitos, mesmo que inconscientemente, nenhuma. Portanto, a resposta tem de estar lá atrás no tempo. Na tasca, no adufe, no cantar ao desafio, no cante alentejano, nas romarias, no campo. No simulado tradicionalismo da música ligeira portuguesa pré-25 de abril, tão bem orquestrado por António Ferro, ou no (suposto) cosmopolitismo do Portugal pós-moderno (q.b.) que entrou na CEE dos anos 80.
Esse é o Portugal da portugalidade cristalizada na cultura pop nacional, o Portugal que é levantado nos ombros do simulacro cultural que é ostentado nos mitos do pré e até do pós-25 de abril. De um lado, o mito do Portugal grandioso, claro, onde simplicidade = felicidade. Era essa a ideia propagada pelo regime salazarista para levar o extenso mundo rural português a aceitar a sua condição material de miséria e, em simultâneo, levar a burguesia lisboeta (principalmente) a aspirar a essa suposta “simplicidade” como seu destino utópico. Do outro, o mito de um Portugal aberto, tolerante, moderno. Se a história terminou com o fim da União Soviética, como declarou erradamente Francis Fukuyama no início da década de 90, então o Portugal da tasca, o Portugal suburbano romântico dos anos 80 que existe na memória de toda uma geração, devia ser, para sempre, o país vigente. Contudo, como é óbvio, não é. Esse futuro que parecia iminente não se cumpriu. Nem o Portugal de Psicopátria era e se tornou uma utopia, nem o Portugal de Mundo Nôbu o é. Nenhum deles é real.
Pode-se culpar o projeto neoliberal do cavaquismo para o país e a americanização progressiva de Portugal por esse incumprimento de um futuro prometido, mas a resposta será, com certeza, ainda mais complexa do que isso. Não se desconstruiu os estereótipos histórico-culturais levantados pelo salazarismo que hoje surgem tão bem alinhados com a ideia de um Portugal que nunca existiu (e com os ventos políticos de uma direita nacionalista revigorada), mas que parece vivo na memória de tantos. A regionalização falhou. A retórica lusotropicalista continua viva e de boa saúde. Tudo isto eram minas prontas a arrebentar, adormecidas até serem pisadas pelos agentes corretos que não se importam de prosseguirem o trabalho de António Ferro.
Que tantos no campo da esquerda parecem interessados em querer entrar neste jogo de mitos e cavalgar o passado de forma romântica, é estranho. Este é um jogo perigoso, camaradas. A romantização das tascas e de outros tropos semelhantes da “portugalidade” não nos leva a lado nenhum. A disputa destes mitos não nos aproxima de nenhuma nostalgia revolucionária que nos permita abrir novos horizontes. Pelo contrário. Só nos arrasta mais para o abismo para o qual caminhamos a passos largos.
O título deste artigo é inspirado nos ensaios do Youtuber britânico hbomberguy.
