O ódio não precisa de provas

por Márcia Mendonça,    28 Agosto, 2026
O ódio não precisa de provas
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O humanismo parece cada vez mais frágil. O ódio nunca esteve tão presente e, sobretudo, nunca pareceu tão bem recebido.

Nelson Moreira não cometeu nenhum crime. É rapper, negro, filho de mãe angolana e de pai cabo-verdiano e nasceu em Portugal. Em 2022, foi entrevistado pela Mensagem de Lisboa e posou para uma fotografia exibindo o seu Cartão de Cidadão português. Em 2026, é acusado nas redes sociais de ter atropelado 16 pessoas em Albufeira, na madrugada de 25 de agosto. A base da acusação? Nenhuma. O motivo? Estamos fartos de saber.

O nome artístico é “Wine Tkk”, mas chama-se Nelson Moreira e nasceu em São Jorge de Arroios, em 1990. Em 2022, foi entrevistado para uma reportagem da Mensagem de Lisboa sobre as dificuldades de vários cidadãos nascidos em Portugal que demoraram anos a obter a nacionalidade portuguesa. Numa fotografia da autoria de Inês Leote, fotojornalista, exibe o Cartão de Cidadão de forma simbólica. Cartão que só conseguiu obter aos 27 anos.

Passados quatro anos desde a reportagem, Nelson Moreira viu multiplicarem-se nas redes sociais publicações que usavam a sua fotografia para o acusar de ser responsável pelo atropelamento de 16 pessoas em Albufeira. Sem nenhuma razão, nem nenhum fundamento. Diga-se de passagem que nenhuma dessas publicações foi sustentada com qualquer tipo de prova. Mas isso não foi problema para as milhares de pessoas que partilharam as mesmas publicações, deram “gosto” e deixaram comentários de ódio, racistas e xenófobos.

Volto a repetir: nenhuma prova foi apresentada. Acreditou-se apenas numa publicação feita nas redes sociais, por alguém desconhecido, que não explica de onde vem esta alegação.

“Este é o condutor angolano com passaporte português que vive no Reino Unido. Foi este terrorista que atropelou 16 pessoas em Albufeira na Rua da Oura, Algarve, fugindo à PSP. Não tiveram coragem de falar alguma verdade… mais um passaporte e cartão passado sabe-se lá como. PorTuga da Aima”.

Os exemplos são vários. São várias as publicações, vários os comentários e várias as partilhas. No entanto, o comunicado divulgado pela GNR explica apenas que foi detido, no dia 25 de agosto, “na zona da Oura, em Albufeira, um homem de 35 anos de idade pelos crimes de ofensa à integridade física qualificada, condução sob efeito de álcool e condução perigosa”. O Correio da Manhã noticiou, no entanto, que o homem que conduzia o carro nessa madrugada se chama Fábio, tem nacionalidade portuguesa e nasceu em Angola.

Não era Nelson Moreira. Nunca foi Nelson Moreira. E, ainda assim, bastou uma fotografia sua, em que exibia o seu Cartão de Cidadão português, para que milhares de pessoas decidissem que era culpado.

Sabemos que o discurso de ódio nunca esteve tão presente no nosso dia a dia e, principalmente, nas redes sociais. No entanto, a capacidade que alguém pode ter para fazer uma alegação desta dimensão sem qualquer tipo de remorso nunca deixa de surpreender.

Numa sociedade que menciona constantemente a ameaça que a imigração traz aos costumes e aos valores, é difícil não reparar no contraste entre aquilo que se defende e aquilo que se faz. O respeito pelo próximo, a empatia e a compaixão parecem ser facilmente esquecidos quando estamos atrás de um ecrã.

Nelson Moreira já se pronunciou em relação a esta acusação vil: “Sou negro. Sou português. Sou rapper. Tenho orgulho em tudo o que sou e em quem me tornei (…) Questionar a minha nacionalidade, reduzir a minha identidade à minha raça ou usar a minha cor como argumento para me atacar é racismo (…)”.

No entanto, importa lembrar que as centenas de pessoas que partilharam estas publicações provavelmente nunca vão saber que se trata de uma mentira. As publicações nunca vão desaparecer. A imagem de Nelson Moreira estará para sempre associada a um crime que não cometeu.

E as consequências? Onde estão as consequências para as pessoas que, ironicamente, as pediam para Nelson Moreira, por um crime que não cometeu?

As consequências não existem. A proliferação de mentiras normalizou-se. Condena-se brevemente num comentário nas redes sociais ou numa conversa que rapidamente é substituída por outro tema. A falta de consequências proporcionais para alegações falsas, mentiras descaradas e campanhas de desinformação incentiva a sua proliferação. As pessoas deixaram de ter medo de ser apanhadas a mentir porque sabem que, na maioria das vezes, nada lhes vai acontecer. Sentem-se invencíveis.

Não é apenas a mentira. É a facilidade com que acreditamos nela, a rapidez com que a partilhamos e a indiferença com que seguimos em frente quando descobrimos que era falsa. Uma pessoa inocente foi transformada num criminoso porque uma fotografia encaixava numa narrativa racista. E depois todos seguiram a sua vida. A revolta já não existe, mesmo quando a vida e a dignidade de uma pessoa estão em jogo.

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