O parasita

por José Malta,    22 Maio, 2020
O parasita
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No início dos anos 70 do século XX, quando Portugal ainda se encontrava mergulhado numa ditadura, José Cardoso Pires publicava uma obra intitulada por Dinossauro Excelentíssimo. Trata-se de uma sátira que no fundo é uma alegoria ao Estado Novo, regime que imperou em Portugal durante décadas, com diversas metáforas aos seus elementos alusivos, no qual um dinossauro está conotado à grande figura que conduziu os destinos do nosso país nessa época. A fábula estava tão maravilhosamente retratada e mascarada que conseguiu ser publicada, sem que a censura se apercebesse do seu conteúdo, dando conta do que realmente se tratava um pouco mais tarde. Figuras como o tal “Dinossauro” de origem humilde com formação académica em Coimbra, os “Mexilhões”, os “Dê-erres”, são exemplos de associações a diversos elementos desse tão tenebroso regime ditatorial. A obra foi incluída mais tarde em O Burro-em-Pé e A República dos Corvos, pequenas colectâneas de contos do escritor. Recentemente esta foi também uma das obras incluídas na coleção Livros RTP, uma série de reedições de preço mais reduzido do que as edições convencionais de outras editoras, sendo ainda hoje reconhecida como uma peça marcante da literatura contemporânea portuguesa.

Numa altura em que caminhamos para meio século de democracia, sabemos que esse mesmo “Dinossauro” e os elementos do seu reino se extinguiram. Houve toda uma reconstituição de um ecossistema com novas espécies a surgir e a terem que aprender a conviver entre si apesar das suas diferenças. Embora esse ecossistema não seja perfeito, porque nunca o será, o equilíbrio entre as diferentes espécies que o constituem não é comparável ao período dominado pela supremacia desse “Dinossauro”. Porém, recentemente, seres muito pequeninos apareceram nesse ecossistema democrático, visando uma contaminação, um desequilíbrio funcional, que possa pôr em causa a sua sustentabilidade. E não, não são vírus responsáveis por pandemias, nem bactérias, nem fungos que possam gerar algum tipo de ameaça. Nas últimas eleições legislativas, um partido com um nome simples e sonante conseguiu eleger pela primeira vez um deputado na Assembleia da República, tratando-se do seu fundador e líder. Esse mesmo partido, que não tem propriamente uma posição ideológica definida e coesa, tem um líder com um discurso fortemente anti-sistema, xenófobo, populista, incentivando ao ódio e ao fanatismo pelo ódio, sendo reconhecido como o primeiro partido de extrema direita na história da nossa democracia a chegar à Assembleia da República. Para além de ser de extrema direita, trata-se de uma extrema direita titubeante, histérica, demagógica e sem um plano ou programa delineado, que tende a ganhar palco nos sítios e nos locais certos para destabilizar e caçar votos onde sabe que os vai ter. Convém relembrar que uma extrema direita bastante semelhante chegou ao poder na Alemanha nos anos 30 do século passado, através de eleições livres e democráticas. O resultado esteve à vista, e é hoje recordado como o período mais negro de toda a história da humanidade.

Em todos os partidos, sejam de esquerda ou de direita, existem pessoas sérias, credíveis e acima de tudo democratas. Estando associado à direita (neste caso, extrema direita), e numa altura em que a direita em Portugal se encontra algo dividida, esse mesmo partido consegue muitas vezes fazer com que as pessoas que têm posições e opiniões de direita passem a estar conotadas às suas ideias, o que não é verdade. O deputado que representa este partido na Assembleia da República apenas tem um propósito: chegar ao poder ao todo o custo sem olhar a meios, distorcendo argumentos e factos de forma a seduzir um certo eleitorado, mesmo que não acredite naquilo que está a dizer. Para ele, a liberdade é vista como uma arma, ou um instrumento e não como um direito, acreditando que pode chegar longe ao manipulá-la como um objecto seu. Os recentes acontecimentos que têm estado à volta deste deputado têm merecido palco e atenção por parte dos media e das pessoas no geral como se fosse algo viral. No fundo é isso mesmo que o deputado que representa esse partido quer, e neste momento estamos perante uma bola de neve que é cada vez mais difícil de parar. São cada vez mais os episódios, escândalos, contradições que o envolvem quando ainda estamos nos primeiros capítulos de uma história que parece estar longe de terminar.

Este deputado, continuemos a chamar-lhe assim, tornou-se conhecido por ser comentador desportivo, representando o clube de futebol com mais sócios e adeptos em Portugal, num canal que tem como grande parte dos espectadores o eleitorado a que pretende chegar. Foi preciso ter sido eleito para que uma série de notáveis desse mesmo clube assinassem uma carta contra o mesmo, acusando-o de aproveitamento do clube para se conseguir projectar politicamente, após um longo período de cegueira. Antes de chegar a deputado, e de ter fundado o seu partido, foi candidato à câmara municipal de Loures por um grande partido político, tendo contado na apresentação da sua candidatura com a presença do líder desse mesmo partido, na altura primeiro-ministro. Apesar de ter proferido declarações xenófobas tempos mais tarde, o partido fez questão de clarificar o seu apoio mesmo com o abandono de outros parceiros de coligação. Os holofotes foram descendo gradualmente sobre o mesmo, tornando-o numa figura distinta para alguns e desprezível para outros. Apresentava-se como um salvador da nossa democracia, uma espécie de santidade, visto até como um novo messias para alguns lunáticos que se deixavam, e que ainda se deixam, ir na sua cantiga. Tinha uma estratégia que tinha esse mesmo objectivo, bem-parecido, com um currículo académico notável, apresentando-se sempre de fato e gravata para onde quer que fosse, o comportamento dentro dos estúdios de televisão e nas suas redes sociais com comentários provocadores e uma atitude rasteira permitiram-lhe chegar a toda a gente e ser reconhecido pelos motivos mais óbvios.

A história deste deputado que tende a aparecer em tudo quanto é sítio para ganhar palco, conquistar votos e infectar tudo e todos com ódio e argumentos distorcidos, já tem episódios suficientes que, se não fossem verdade, poderiam dar um conto satírico. Numa manifestação de polícias que aconteceu em frente à Assembleia da República deram-lhe palco para proclamar um discurso apoteótico, contagiante, de forma a que se aproveitasse politicamente de um evento apartidário. O discurso teria alguma graça se fosse uma passagem do O Grande Ditador interpretado por Charlie Chaplin ou de um sketch humorístico dos Monty Phyton, mas sendo de um deputado resume-se puramente a demagogia barata e altamente perigosa, visto que foram vários os aplausos e muitos os que lhe proclamaram apoio. Quando um jogador maliano foi insultado pela sua cor num jogo de futebol, foram vários os partidos, desde a esquerda até à direita a repudiarem o acto dizendo que os responsáveis deveriam ser severamente punidos. O senhor deputado acabou por desprezar aquilo que toda a gente testemunhou, vindo falar de hipocrisia, de polícias que eram agredidos na rua e de professores maltratados pelos alunos e de outros assuntos que nada tinham a ver o momento. Antes disso já teria proposto a uma deputada de origem guineense que fosse “devolvida ao seu país de origem”, tendo dado origem a um processo em torno de uma atitude claramente xenófoba e racista.

Numa altura em que nos encontrávamos confinados devido a uma pandemia que ainda trará consequências sociais e económicas em todo o mundo, o próprio sugeriu que a comunidade cigana tivesse um plano específico de “desconfinamento”. Felizmente, teve uma resposta à altura de um internacional de futebol, assumidamente e orgulhosamente cigano, que fez um alerta para que todos nós abríssemos os olhos para os perigos destes discursos populistas e racistas.  O episódio bárbaro e repugnante que vitimou uma menina de 9 anos que ainda tinha tanto para viver, foi motivo de aproveitamento para o próprio subir ao palco, dizendo que no que depender dele irá haver prisão perpétua para responsáveis por estes actos, tudo para conquistar votos. O 13 de Maio, dia marcante para a comunidade católica portuguesa, foi motivo para que fizesse um post nas suas redes alegando que a sua missão política “está profundamente ligada a Fátima”, assumindo-se de um modo sub-reptício como figura próxima de Deus, defensor do bem quando o próprio nem sequer sabe distinguir o bem do mal visto que o bem é e será sempre aquilo que mais lhe convém. Ao ter exigido aos outros deputados que abdicassem do seu salário quando este aufere outros salários por outras vias, foi outra das muitas atitudes que conseguiu revelar mais uma vez os seus princípios de ética, mesmo tendo sido recentemente afastado do canal onde exerce o seu comentário desportivo, por razões ainda muito pouco esclarecedoras. Ainda assim, a história não fica nem ficará por aqui. Existem supostas ligações ao sector imobiliário de luxo e a determinadas entidades religiosas, nomeadamente a certas organizações evangélicas que têm promovido a sua projecção política, projecção essa que hoje parece ser altamente notória. E só é notória porque permitimos que assim seja.

O Dinossauro Excelentíssimo extinguiu-se, está no passado, há quem ache que se deva erguer museus em sua memória pois trata-se de uma espécie extinta que faz parte da nossa história. Dada a atrocidade dos anos do seu reinado, a melhor coisa que podemos fazer é deixá-lo no passado, como um capítulo que não deve ser esquecido nem repetido. Meio século depois surgiu uma espécie, que muitos chamam gostam de chamar abutre, sabujo, bicho rastejante, o que quer que seja, mas no fundo é algo muito mais diminuto do que isso. Este deputado, e sem nunca pronunciar o seu nome porque não vale a pena, trata-se de um parasita à solta e que traz consigo uma praga de parasitas que se vai multiplicando cada vez mais. Dada a importância e o tempo de antena que lhe dão, faz com que aumente de tamanho e tenha um impacto de maior dimensão. Muitos dizem que o Parasita Magnifico, porque um nome em latim que o definisse seria uma ofensa à dignidade das outras espécies, diz as verdades quando apenas debita coisas insensatas e demagógicas que levam um certo rebanho a segui-lo de forma cega. Contudo, apenas não passa disso, de um mero parasita que tende a ser perigoso com a quantidade de infectados pelo seu discurso. E, como qualquer outra parasita, tem sempre que ter vários hospedeiros para assegurar a sua subsistência.

O parasita vive no seu mundo microbiano julgando que este é o equivalente a toda a biodiversidade quando se trata de uma pequena bolha. O parasita vive dependente de um trono e de um microfone porque só assim é que consegue ser equiparado a uma espécie ameaçadora de grande porte quando não passa de um ser desprezível. O parasita julga-se o rei da selva quando precisa de comer muita papinha darwiniana para evoluir e estar ao nível das grandes espécies. O parasita jamais terá lugar em fábulas que sejam alegorias a uma realidade política como o Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires ou do célebre Animal Farm de George Orwell. O parasita nunca foi convidado para ir a talk show de cariz humorístico porque, para além de ser uma figura diminuta e sem interesse, é tão mau que nem com o melhor humorista do mundo ao seu lado terá alguma graça. O parasita quer que se fale dele, mesmo que o seu nome esteja nas bocas de quem condene os seus actos, como se de uma epidemia lexical se tratasse de forma a projectar-se ainda mais. O parasita sonha que todos lhe prestem vénias e louvores quando o próprio tem pés de barro, telhados de vidro e um tamanho muito pequenininho. Quer ser o novo líder espiritual da nossa sociedade quando só sabe usar a mesma estratégia incendiária desde sempre. Quer que as outras espécies desçam ao seu nível, onde é cinturão negro na argumentação e na retórica, onde é rei e senhor do mundo. No futuro esperemos que não vá muito mais longe e que fique conhecido na história apenas e só por esse nome simples que o define como espécie. Parasita.

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