O patriotismo não foi, não é, nem nunca será progressista
Pensei que tínhamos aprendido alguma coisa com o resultado do passado dia 18 de Maio, mas aparentemente não. A receita mais fácil para perder um debate é aceitar que o adversário escolha os termos, os tópicos e as regras desse debate. Foi isso que Francisco Themudo fez no seu artigo “Por um progressismo patriótico”. Continuarmos a achar que algum dia a esquerda se tornará maioritária jogando o jogo que a direita quer, é receita para perdermos de vez. Pessoalmente, recuso-me a que tal se faça.
Aparentemente, durante anos, o progressismo foi cedendo terreno à extrema-direita. Não consigo perceber como. Não vejo como é que apontar falhas e contradições da extrema-direita, nos temas nacionais e internacionais, seja ceder-lhe terreno. Mas parece que já que tanto terreno foi cedido, podemos entregar o pouco que resta de barato ao pedir que sejamos todos “patriotas”. De facto, vejo muita preocupação neste artigo para tentar encontrar um chão comum entre ser-se patriótico e progressista, mas, francamente pouca com o que nos está a fazer constantemente perder: apresentar uma ideia de um país coeso, inovador, de bem estar e de esquerda.
“O patriotismo envolve uma lealdade, uma postura activa próxima da devoção a estas linhas imaginárias. O patriotismo exige o acompanhamento fiel ao que aqui se faz. Nada tem que ver com as comunidades, as pessoas ou as diferentes realidades que coexistem dentro de si. O patriotismo não as valoriza, promove ou cuida. Pelo contrário, uniformiza e molda a acção e pensamento para que estas diferenças não existam. O patriotismo é anti-progressista.”
Li, neste artigo, pela primeira vez, uma definição de patriotismo que não inclui, de alguma forma, a palavra pátria: “é o compromisso com a comunidade política onde nos encontramos, com as pessoas com quem partilhamos responsabilidades”. Bom, se é assim, e as palavras já não querem dizer nada, acabem com qualquer tipo de comunicação escrita, porque perdemos o significado básico das coisas.
Há uma clara confusão entre o que é patriotismo e o que é, para simplificar, “amar o país”. No dia-a-dia, até posso conceber que sejam sinónimos. Mas enquanto mote de acção política não: o patriotismo envolve uma lealdade, uma postura activa próxima da devoção a estas linhas imaginárias. O patriotismo exige o acompanhamento fiel ao que aqui se faz. Nada tem que ver com as comunidades, as pessoas ou as diferentes realidades que coexistem dentro de si. O patriotismo não as valoriza, promove ou cuida. Pelo contrário, uniformiza e molda a acção e pensamento para que estas diferenças não existam. O patriotismo é anti-progressista.
“A esquerda, e em particular a progressista, historicamente, sempre foi muito mais internacionalista do que patriótica. Sempre se preocupou com todos os trabalhadores ao invés de dicotomias simplistas de pátria, mesmo nos momentos áureos da construção dos Estados Sociais do pós-segunda guerra.”
O único ponto verdadeiramente importante é o da identidade e do sentimento de pertença das pessoas. Mas até nisso há um problema sério com o patriotismo: houve e ainda há um empolamento constante do patriotismo enquanto único elemento para a identidade individual, suplantando espaços que outrora pertenciam à função, à classe, à origem, à profissão. Queremos promover isso ainda mais?
Sejamos claros: a esquerda, e em particular a progressista, historicamente, sempre foi muito mais internacionalista do que patriótica. Sempre se preocupou com todos os trabalhadores ao invés de dicotomias simplistas de pátria, mesmo nos momentos áureos da construção dos Estados Sociais do pós-segunda guerra. Até mesmo a esquerda marxista percebeu que as contradições inerentes ao capitalismo superavam largamente o Estado-Nação e é por isso que quando Marx começa o seu Manifesto não diz que um espectro ronda a Prússia, Portugal, França ou o Reino Unido. Começa com “Um espectro ronda a Europa”. E, não sendo marxista, estou em crer que Marx sabia muito bem o que estava a escrever. Sabia-o tão bem que termina o mesmo manifesto dizendo “proletários de todo o mundo, uni-vos!”.
Devo relembrar que já há uma esquerda no país que se orgulha de dizer patriótica e nem por isso os resultados são bons. As soluções que nos apresentam parecem, portanto, dar sempre a faca e o queijo à direita. Foi assim com a terceira-via no final do século passado, vai ser assim com o patriotismo nestes novos loucos anos vinte.
A esquerda progressista ama o seu país. A esquerda progressista conhece bem as diferenças realidades que nele existem. A esquerda progressista é, muitas vezes, a única que cita Saramago, Variações, Garrett, Sophia (correctamente) ou até D. João II. A esquerda progressista é a que valoriza, respeita e promove as diferenças identidades e comunidades que existem, de quem quer preservar o mirandês a quem quer inovar na sua cooperativa no Alentejo. A esquerda progressista reconhece também onde falhamos e o que de bom se fez, porque não somos nem anjos nem demónios — somos como todos os outros. E é tudo isto sem ser patriótica. E quando o for, deixará de ser tudo isto.
Escrevi, e torno a repetir. Quem joga à defesa acaba por perder. O que se lê neste artigo é um pedido para se jogar com as regras que a extrema-direita decidiu agora inventar. Mais do que estar a evitar recuar, a esquerda tem de aprender a atacar e mostrar que é possível dar passos em frente. Ceder em mais coisas à extrema-direita é receita para a esquerda nunca mais voltar a mudar o mundo. E repare-se que falei deste belo país em quase todos os parágrafos sem dizer o seu nome. Porque não é preciso. Não é por acaso que Variações dizia que a sua música estava entre Braga e Nova Iorque.
