O peso de um homem só
Nota: A autora deste texto e a Comunidade Cultura e Arte não subscrevem quaisquer mensagens de ódio, intolerância, xenofobia, misoginia ou antissemitismo. A crítica e o relato que se seguem debruçam-se sobre um concerto e uma trajectória artística; não constituem, em caso algum, endosso das declarações ou posições, actuais ou de outrora, do artista.
Seis meses depois de pedir desculpa numa página inteira do Wall Street Journal, Kanye West (Ye) trouxe a sua digressão ao Algarve. Sem demoras, afirmamos desde já que foi, possivelmente, dos melhores concertos a que assistimos em anos. Recuemos, porém, um pouco.
Na manhã de 26 de Janeiro deste ano, os leitores do Wall Street Journal encontraram uma carta de setecentas e cinquenta palavras intitulada «To Those I’ve Hurt». O autor, agora conhecido como Ye, pedia desculpa às comunidades judaica e negra por um conjunto de anos que incluíram declarações antissemitas, uma autoproclamação como nazi, t-shirts com suásticas e uma canção com o nome de Hitler no título. Atribuiu o essencial a uma lesão no lobo frontal direito sofrida no acidente de automóvel de 2002 — o mesmo que, de forma quase demasiado literária para ser verdade, tinha inspirado Through the Wire e lançado a sua carreira —, agravada por uma perturbação bipolar não tratada e culminando num episódio maníaco de quatro meses que descreveu como «psicótico, paranoico e impulsivo». Terminava a pedir «paciência e compreensão enquanto encontro o caminho para casa». Era, note-se, já o terceiro pedido de desculpa público desde 2023.

Convém situar a queda antes de descrever a recuperação, porque uma explica o tamanho da outra. Kanye Omari West nasceu em Atlanta em 1977 e cresceu em Chicago, filho de um ex-Black Panther convertido em líder espiritual e de uma professora universitária. Entrou na indústria pela porta dos fundos — a do produtor, essa figura semi-anónima que encontra o loop certo e faz qualquer rapper soar maior do que é — antes de o seu trabalho em The Blueprint, de Jay-Z, convencer editoras relutantes de que havia ali mais do que um técnico com jeito para samples. The College Dropout, em 2004, foi a resposta a essa relutância: hip-hop ambicioso o suficiente para se rir da faculdade numa faixa e confessar uma crise de fé três depois. Seguiram-se os discos que uma geração inteira sabe de cor — Late Registration, Graduation, 808s & Heartbreak, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, Yeezus —, vinte e quatro Grammys, duas capas da Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, e uma parceria com a Adidas que chegou a representar sete por cento das receitas anuais da marca.
A partir do final de 2022, o enredo inverteu-se com a mesma velocidade com que se tinha construído. Houve a entrevista a Alex Jones, de máscara de esqui, em que declarou admiração por Hitler; houve parcerias cortadas quase da noite para o dia; houve, em 2025, recaídas piores do que qualquer coisa anterior. Entre isso e a carta de Janeiro, houve tentativas diversas — um pedido de desculpa em hebraico no Instagram, retrocessos, o episódio em que anunciou ter voltado a «gostar de judeus» depois de ver Jonah Hill num filme. Quando a Vanity Fair lhe perguntou, meses depois, se a carta não teria sido calculada para preparar o lançamento de um disco e de uma digressão, Ye negou. Não há forma de verificar o interior de um homem; há, porém, forma de verificar um calendário, e este é particularmente comprometedor: desculpa em Janeiro, álbum BULLY em Março, digressão em Abril. É inteiramente possível que o arrependimento e o cálculo comercial sejam, como tantas vezes acontece, simultaneamente genuínos.

A Europa, na sua maioria, não quis saber se eram. França, Polónia, Suíça, Chéquia e Itália cancelaram datas; o Reino Unido recusou-lhe entrada; a Austrália revogou-lhe o visto; o presidente da câmara de Marselha resumiu a posição da sua cidade em duas palavras — «nazismo sem remorsos» — que funcionam, também elas, como veredicto sobre a carta do Wall Street Journal. A digressão mundial ficou reduzida a meia dúzia de paragens: Istambul, Arnhem, Tbilissi, Tirana, Madrid e, por fim, Faro. Na véspera do concerto português, o embaixador de Israel pediu publicamente o cancelamento e a Comunidade Israelita de Lisboa solicitou às câmaras de Faro e Loulé que retirassem qualquer apoio institucional ao evento. Houve protestos. O concerto realizou-se de qualquer forma.
O concerto
O palco era uma esfera de trinta metros de estrutura geodésica no centro do relvado sobre uma plataforma circular, com o público disposto à sua volta em vez de diante dela. Não havia propriamente frente nem fundo de “sala”; havia um centro e Ye no topo — uma decisão cenográfica que resolve, sem dizer uma palavra sobre o assunto, o problema de colocar em palco um homem que já não quer, ou já não pode, falar directamente ao seu público.
Com quarenta e cinco minutos de atraso, abriu com KING, sem introdução gravada nem contagem decrescente. Seguiu-se Can’t Tell Me Nothing, repetido porque algo falhou (Ye parece continuar alérgico a imperfeições), e depois Ni**as in Paris e Mercy.
O som chegou distorcido nos primeiros minutos, estabilizando depois. Contudo, não é possível garantir que a experiência tenha sido igual em todos os pontos do estádio, dado o desenho do recinto e a natureza circular da própria estrutura sonora.

Um dos pormenores mais reveladores da noite não estava na música, mas na sua edição. Em CARNIVAL, o verso de Playboi Carti foi cortado. Em FATHER, o verso de Travis Scott desapareceu logo a seguir à linha sobre a seringa de crack. Em Ghost Town, pelo contrário, o verso de PARTYNEXTDOOR foi deixado tocar — pela primeira vez, segundo quem acompanha a digressão de perto, desde o concerto nos Países Baixos. É difícil não ler nisto uma extensão do mesmo instinto que mantém Ye praticamente calado entre canções: se a voz do próprio artista está sob vigilância editorial, as vozes dos seus colaboradores também. A curadoria de um alinhamento pode ser, afinal, tão política como qualquer discurso.
Power e Bound 2 produziram o primeiro momento de entrega colectiva verdadeiramente notável da noite, antes de a energia baixar para um bloco mais intimista — Fade, Say You Will, Heartless com um novo final orquestral, e ALL THE LOVE. Ao longo destes temas, e de vários outros, ouviu-se a voz de André Troutman, o director musical da digressão, processada por vocoder — presença que desfaz, ainda que discretamente, a imagem do artista absolutamente sozinho que a cenografia da esfera parece querer vender.

A dada altura, e sem qualquer anúncio, ouviram-se os primeiros acordes de H0w Sh0uld ! f33l — não uma canção de Ye, mas de North West, cantada pela própria, que subia ao palco. A canção seguinte, TALKING, trouxe pai e filha a cantar juntos até um abraço no final, depois do qual Ye desapareceu por instantes dentro da esfera antes de regressar, já sozinho, para EVERYBODY.
O resto do alinhamento avançou por blocos de nostalgia geridos com a precisão de quem já fez este trajecto muitas vezes: Famous, Run This Town (versão de Jay-Z), American Boy (versão de Estelle), Jesus Walks, All Falls Down e um Gold Digger interrompido logo a seguir ao segundo refrão.
Na recta final, a sempre obrigatória Runaway trouxe-nos um Ye à moda antiga e um público eufórico — uma lembrança do que Ye foi e pode continuar a ser. Será redenção ou apenas um bom momento num percurso ainda atribulado? Não sabemos. Mas logo depois de Runaway, True Love ecoou no estádio —um tema quase confessional, para fechar duas horas que tinham passado por praticamente todas as versões possíveis de Kanye West: o provocador, o crooner ferido, o pai, o penitente que evita o microfone. Neste caminho para casa, terá sido esta digressão a casa que True Love descreve — a única porta com a luz acesa à qual se pode sempre bater?
Voltemos então à frase inicial. Foi, tecnicamente, um dos melhores concertos a que assistimos em anos — e dizê-lo não anula uma única das coisas que este homem disse ou fez. Não se trata de uma coisa apesar da outra; tratam-se de duas coisas que coexistem, lado a lado, sem se resolverem uma na outra. Os milhares de pessoas que ali estiveram não foram absolvê-lo de coisa alguma; foram, sobretudo, reclamar canções que já lhes pertencem mais a elas do que a ele. A carta de Janeiro pedia paciência enquanto Ye encontrava o caminho para casa. Três pedidos de desculpa em três anos aconselham cepticismo quanto a esse destino. Mas, durante duas horas, no Algarve, o caminho passou por ali — e isso, tanto quanto o resto, também é algo que fica por resolver.

