O problema de Portugal é ter território a mais
Hoje, finalmente, o sol regressou e consegui olhar para estas terríveis semanas com alguma distância. Enquanto milhares de portugueses tentam ainda recuperar o que lhes sobrou dos ventos, das chuvas e das derrocadas, sinto que o país mediático já não se entusiasma e está cansado destas temáticas. Temo que os temporais de inverno passem a ser os incêndios do verão: a garantia noticiosa da catástrofe até à exaustão, mas sem uma estratégia estruturada para mitigar estes fenómenos. Não podemos deixar morrer este assunto.
O grande problema do combate às alterações climáticas, ou mesmo da prevenção dos seus efeitos, é que exige planeamento. Palavra que parece, por vezes, existir na língua portuguesa por mero acaso. Num período em que Portugal admite investir cerca de 5% do seu orçamento em despesa militar, assiste-se simultaneamente a um investimento em áreas como a Proteção Civil muito aquém das necessidades. Trata-se de uma área essencial para proteger populações e território de fenómenos que não são hipotéticos, mas cada vez mais frequentes e intensos.
No país dos incêndios descontrolados, das cidades antigas e pouco inclusivas, das aldeias isoladas, das cheias periódicas em zonas edificadas em leito de cheia, das regiões polvilhadas por habitação dispersa fruto de décadas sem planeamento urbanístico, dos tornados e depressões cada vez mais recorrentes, urge uma estratégia nacional coerente e de longo prazo.
Somos um dos países mais envelhecidos do mundo e ainda não parámos verdadeiramente para avaliar o impacto dessa realidade na qualidade das nossas vidas. Temos uma faixa crescente da população dependente de serviços do Estado, comunidades mais fragilizadas e isoladas, redes de entreajuda cada vez mais ténues.
Segundo os dados do INE, quase 80% do território nacional corresponde a territórios de baixa densidade. Existem mais de 186 municípios com menos de 20 mil habitantes, a maioria deles no interior. Em contrapartida, a faixa litoral concentra cerca de 70% da população portuguesa, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Paradoxalmente, continua-se a construir em zonas costeiras e ribeirinhas que, segundo várias projeções climáticas, poderão sofrer impactos severos nas próximas décadas.
Seria fácil colocar toda a responsabilidade nos decisores políticos. E é impossível ignorar a sua quota-parte neste desnorte e na fragilidade das infraestruturas e dos serviços públicos. O Estado poderia falhar em quase tudo,não nisto. E, no entanto, falhou.
Apesar de todos conhecermos a história dos três porquinhos, continuamos a construir, otimistas, um Estado de palha. Estarão as populações portuguesas disponíveis para o esforço que o verdadeiro planeamento implica? Para aceitar regras mais exigentes de ordenamento do território? Para criar planos de segurança robustos? Para abdicar de construir onde sempre se construiu?
A resposta, infelizmente, tende a ser negativa. Há uma enorme dificuldade em compreender causas e consequências. Mesmo para quem duvida da origem humana das alterações climáticas, é impossível negar que precisamos de estar melhor preparados. Não se trata de controlar a natureza, mas de a compreender e aprender a viver enquanto parte dela.
Persistimos na tentação de emparedar rios. Tenho a sorte de colaborar com o “Guarda Rios”, um coletivo científico e artístico que, através de estratégias de mediação cultural, aprofunda o conhecimento sobre a água e a riqueza dos ecossistemas ribeirinhos. Tal como o “À Escuta”, dedicado à floresta, ou a “Terra Batida”, o “Um Coletivo”, a “Formiga Atómica” e tantos outros, que, de forma integrada e multissetorial, criam espaços de partilha de conhecimento sobre a naturezaa partir da cultura. Ou não fosse a paisagem o nosso primeiro bem cultural. É neste cruzamento entre ciência, arte e território que se constroem respostas mais conscientes. Sem conhecimento estruturado, vemos ressurgir nos debates mediáticos propostas simplistas, como a construção indiscriminada de barragens ou o abate massivo de árvores. Não podemos construir estruturante contra a natureza, apenas com ela.
Lembro-me das polémicas obras do Flecheiro, em Tomar, cidade construída no leito do rio Nabão, historicamente marcada por cheias. São muitas as memórias dos dias em que não conseguia ir à escola ou em que atravessei a cidade empoleirado na pá de uma retroescavadora. Hoje, Tomar tem sido poupada às piores consequências das recentes inundações. A requalificação da zona, promovida pelo anterior executivo municipal, assentou em conhecimento científico que compreendia o rio e o seu comportamento natural.
Onde antes existiam barracas, foi criado um parque urbano. No verão, é usufruído pela população; no inverno, transforma-se em espaço de expansão natural do rio. Como um pulmão, permite ao Nabão respirar e ocupar o seu espaço sem destruir, protegendo a malha urbana. Um movimento que fertiliza as terras e nos reconecta com o ciclo natural da água. Nas primeiras cheias após a obra, a intervenção foi alvo de chacota nas redes sociais e na comunicação local. Hoje, espero que se reconheça a sua mais-valia social, económica e ecológica.
Mesmo em meios rurais, perdeu-se muito do conhecimento tradicional sobre a natureza. Persiste uma cultura de controlo e de desconfiança perante o “verde”. A iliteracia ambiental é profunda e constitui terreno fértil para o populismo político que cresce no país. Um populismo que não hesita em questionar a agenda climática nas políticas públicas enquanto parte do território perde tudo.
Na era do populismo, amplificada pela desinformação e pelas fake news, será muito difícil implementar uma estratégia robusta e estruturada, porque esta terá custos e exigirá escolhas. Implicará pensar a médio e longo prazo.
Na era do individualismo, planear para o bem comum é a tarefa mais difícil de todas. Trata-se de um trabalho invisível, sem o mediatismo da tragédia e sem o conforto imediato da empatia. Parece desperdício. Parece exagero. Mas é responsabilidade.
Qualquer plano sério terá de dar as mãos ao conhecimento científico e a uma gestão continuada e consistente do território. E, na sociedade da imagem, já não basta fazer, é preciso saber comunicar o que se faz e porquê.
Recordo-me também do período em que trabalhei em Ílhavo e do investimento invisível que estava a ser feito para mitigar a subida do mar e proteger a ria de Aveiro. Intervenções técnicas, discretas, quase impercetíveis, frequentemente mal recebidas pela população. O que acontecerá quando tivermos de tomar decisões mais difíceis, como concentrar populações em núcleos urbanos mais seguros? A fragilidade das infraestruturas, a debilidade das comunicações e o desconhecimento, por parte do poder central, sobre as múltiplas realidades do país alimentam um sentimento crescente de abandono.
Dizemos repetidamente que Portugal é um país pequeno. Mas, pelos vistos, o verdadeiro problema é termos território a mais, ou pelo menos mais território do que conseguimos planear, proteger e cuidar.
“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
— Bertolt Brecht
