O terceiro acto no Dia do Trabalhador

por Cláudia Lucas Chéu,    1 Maio, 2026
O terceiro acto no Dia do Trabalhador

Hoje, 1 de Maio de 2026, Dia Internacional do Trabalhador, o meu pai começa aquilo a que chamam o terceiro acto da vida — aposentadoria, reforma, encostar os costados à box — e há nisto uma espécie de pausa, como se o tempo, que nunca lhe deu descanso, hesitasse agora. O meu pai trabalha desde os onze anos. Nunca se encostou à box, nunca folgou mais do que era suposto, pelo contrário, muitas vezes foi trabalhar doente, exausto física e psicologicamente, todo torto, e, nos últimos anos, sem o dedo anelar da mão esquerda, perdido num acidente de trabalho entre o material implacável dos veículos pesados.

O meu pai é um trabalhador, para mim, um trabalhador exemplar, e já fez de tudo um pouco: moço de recados num cabeleireiro fino, aprendiz num escritório de advogados, trabalhador na extinta Lisnave, carpinteiro, cozinheiro num café, segurança num parque de campismo, motorista e, nos últimos anos, aquilo que lhe dava prazer e orgulho: chefe de tráfego numa empresa de camionagem.

Trabalhar nunca foi para ele apenas uma necessidade, mas uma obrigação, cumprida sempre em seu nome e em nome da família. Aos onze anos entregava tudo o que ganhava em casa e nem isso o livrava da pancada que recebia, sobretudo quando tentava esconder dez ou vinte escudos, das gorjetas, que guardava à sorrelfa para os seus prazeres de adulto antes do tempo. Aos onze anos já fumava — se trabalhava de manhã à noite, porque não havia de fumar também? — e, no entanto, deixou de fumar no dia em que soube da minha gravidez: «quero ver crescer o meu neto», disse, que afinal era uma menina. Começou a fumar na infância e deixou de fumar para assistir à infância da neta.

Sei que, como o meu pai, há muitos trabalhadores assim neste país: dedicados, incansáveis, estafados e, muitas vezes, menosprezados pelas entidades patronais, pelas famílias, pela sociedade. E talvez uns quantos que se reformam hoje. Este texto é a minha singela homenagem ao meu pai, homem trabalhador, mas a todos os homens e mulheres trabalhadores neste país e no mundo. E desculpem ter tornado a coisa tão pessoal, mas a reforma do meu pai coincidir com este dia, no Dia Internacional do Trabalhador, é, para mim, inefável. Não tenho palavras para expressar o que sinto. Seriam sempre insuficientes, as palavras são sempre impotentes quando as emoções são avassaladoras. O orgulho pelo percurso que ele fez, o exemplo que me deu e o desejo de que o seu terceiro acto de vida, que inicia hoje, lhe seja generoso, gentil e respeitoso, como ele merece, como todos os trabalhadores merecem.

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