“O Testamento de Ann Lee”, uma aparição chamada Amanda Seyfried: “a Mãe Natureza é o meu Deus”
Ainda não estamos preparados para uma líder religiosa. Nem no cinema. Um filme que segue uma utopia absurda e inebriante para os nossos dias acabou desprezado nos grandes festivais e nas premiações principais. Falámos com Amanda Seyfried, protagonista, e Mona Fastvold, realizadora de “O Testamento de Ann Lee”, na 82.ª do Festival de Veneza. O filme estreia agora nos cinemas portugueses.
Os actores não são figuras divinas, mas aproximam-se muito de um estado intangível. Pode ser patético, mas estão perto da definição das figuras que aprendemos a venerar: ou as adoramos cegamente, ou odiamos. Não há estado médio. Olhar para um actor, sendo o cidadão comum que se aproxima de, tem outra luz. Gostando-se ou não, há uma vergonha inerente nessa primeira abordagem. Amanda Seyfried tem voz angelical e pele que se confunde com as vestes mais clericais. Num hotel em Veneza, nas vésperas de entrar para mais um momento mediático, fura o corredor atrás de algo, como uma criança atrás de uma borboleta. “Desculpem, são só mais uns minutos”, avisa uma das (muitas) agentes que coordenam esse caminho até Fátima que dá pelo nome de “rodas de imprensa”. Ninguém se atreve a questionar o aviso. Afinal, a actriz foi a correr atrás de um cão. Quando se senta ao lado da realizadora Mona Fastvold, autora do mais irreverente, inventivo e apaixonante filme do Festival de Veneza — que saiu sem prémio algum —, cria-se uma vibração diferente na sala. Não dá para explicar. As pálpebras vermelhas, a magreza e os dois dedos de conversa sobre a nudez que habita a Praia do Meco confundem até o jornalista mais credível. Jesus Cristo encarnou na americana ou quê? Pode ser porque o filme onde protagoniza uma líder de uma seita religiosa do século XVIII nos abanou a alma, fez questionar ateus, subverteu a fé e jogou-a para a discussão onde habitam temas como maternidade, luto e feminismo. “A Mãe Natureza é o meu Deus”. Eis uma conversa espiritual sobre de “O Testamento de Ann Lee”, ao vivo, em Veneza.
Pela segunda vez, a dupla Brady Corbet e Mona Fatsvold volta a trazer uma história épica sobre alguém que quer criar o impossível. Primeiro, foi “O Brutalista”, drama histórico e premiado nos Óscares que desfazia o sonho americano em bocadinhos através da história do imigrante judeu László Tóth. A utopia espezinhada pela ganância dos homens. Em 2025, e na competição oficial no Lido, a realizadora norueguesa assumiu as rédeas de “O Testamento de Ann Lee”, que segue a extática caminhada de uma líder religiosa inglesa, no século XVIII, da Nova Inglaterra até aos Estados Unidos, cujo a missão era ser “a mãe de todo o mundo”, depois de perder quatro filhos. Os shakers, gente que dançava para estar mais próxima da graça divina e se “libertou” do pecado do sexo e do casamento, queriam ser iguais, amar, pregar a bondade e cantar. Mas a sua utopia tinha os dias contados. “Parece que estamos naquele tempo, à procura de um sentido de comunidade e de segurança. Desejas ser tratado com bondade. Mas o medo faz-nos tomar decisões doidas. As pessoas queriam matar a Ann Lee. O medo tem muito poder”, começa por dizer Amanda Seyfried.
A comunidade de Shakers em “O Testamento de Ann Lee” segue a sua líder de Inglaterra para os Estados Unidos à procura de expandir a palavra feminina e irreverente, onde o pecado é resolvido com movimentos e respirações ofegantes até que o corpo caia redondo no chão. Normal a crescente tensão depois da chegada dos shakers em terras de Tio Sam, pois a revolução americana não se entendia com o pacifismo que brotava daquela comunidade. As suas práticas, o espírito de comuna, o celibato não cabiam no sonho americano. Essa jornada narrativa em “O Testamento de Ann Lee” não é desvirtuada por focos de conflito desnecessários, porque o que interessa é acompanharmos a evolução da comunidade sem perder a missão de Ann Lee. Ninguém se sobrepõe no filme, mas há uma voz para ser ouvida.

O aspecto musical do filme — tal é a importância coreográfica, visual e de composição – ganha, por isso, um protagonismo que não o encaixa a cem por cento no género, mas que faz com que esta obra se transcenda ao ponto de causar tantas sensações diferentes no público que fica impossível de o explicar. Não se explicam visões. Não se explica a fé. Não se explicam chamamentos. “O Testamento de Ann Lee” navega todas essas sensações sem nunca tapar o lado trágico da comunidade. Depois, não esquecer que nos dias de hoje, pensar que é possível viver numa comunidade respeitadora, igual — e que não pratica sexo — é ainda mais utópico do que a utopia ansiada pelos shakers. “Estamos a falar de uma altura em que tínhamos esta líder religiosa num meio onde as mulheres tinham zero autonomia, eram propriedade dos homens. A Ann Lee oferecia esse lugar liderado por empatia. Não era uma religião puritana apesar do celibato. Havia muito amor”, afirma a realizadora.
É talvez por isso que Amanda Seyfried se mostre aos jornalistas numa aparente leveza que a faz quase flutuar. Nunca a tínhamos visto assim. Certamente não em “Mamma Mia”, musical inspirado nos Abba que a projetou internacionalmente. Ou em séries bem produzidas ou filmes mais independentes. Em várias entrevistas anteriores e posteriores à roda de imprensa a que a Comunidade Cultura e Arte esteve presente, a atriz norte-americana confessa, por isso, que “O Testamento de Ann Lee” a mudou. Pode ser cliché, mas parece estar ali outra pessoa. Ou, pelo menos, outra atriz. Os seus dotes artísticos como cantora são elevados a outro patamar no filme. “Não sou uma pessoa religiosa, a Mãe Natureza é o meu Deus [e os cães que encontra em hotéis de Veneza, os discípulos da actriz]. Mas sinto-me mais próxima dessa figura através da música e da dança, linguagens universais. São quase como rezar. Tornam-te vulnerável. Senti-me muito mais próxima da Ann Lee por ter liberdade, por me poder movimentar, cantar, dançar. É raro ter esta oportunidade”.

Quanto a Fastvold, que anda a explorar o amor e o entendimento (ou o medo e preconceito) do mundo sobre a condição feminina como filmes como “The Sleepwalker” (2014) ou “The World to Come” (2022), sabe que “O Testamento de Ann Lee” nunca teve a pretensão de fazer uma caricatura dos shakers. Estudou-lhes a vida, os movimentos, composições e cultura. E enamorou-se pela líder religiosa — e não “líder de uma seita” — porque foi capaz de pegar no indescritível e monumental sofrimento de perder vários filhos e transformar dor em energia para criar uma religião. “Passou a querer ser mãe do mundo, a acreditar que toda a gente podia ter o espírito de Deus. Uma sobrevivente com falhas, que não era heroína”. Essa pretensão faraónica quase inatingível é própria das personagens criadas pelo power couple criativo Fastvold Corbet, que com baixos (mas milionários) orçamentos se desafiam a encontrar a arte no trauma e projectá-la em grande no cinema.
Para Amanda Seyfried, que não chegou a ser nomeada para Melhor Atriz nos Óscares, a impossibilidade de fazer um filme como este na indústria de Hollywood torna a história ainda melhor. “Todos os bons filmes são assim”, garante. Podem acabar ignorados, mas nada diz que daqui a uns anos, tal e qual um bom vinho que precisa de tempo, esta produção não seja vista com outros olhos. Não esquecer a música, antes de percebermos se a atriz norte-americana irá, em Veneza, atrás de mais filhos da mãe Natureza. Daniel Blumberg ajudou a compor uma banda sonora que ainda assinala mais o êxtase da fé que é este “O Testamento de Ann Lee”. E porque é que é importante referir isto? Porque o puzzle espiritual que Mona Fastvold construiu tem essa dimensão que eleva ainda mais a experiência cinematográfica. Podem só existir três shakers a nível mundial, mas aqui nos confessamos: depois de ver este filme, e tal é a desordem mundial, que até a Comunidade Cultura e Arte ficou com vontade de entrar. Ou de, pelo menos, seguir a flutuar atrás de Amanda Seyfried.
