O universo Jacquemus: a mãe no coração, o sul de França nos sentidos e a arte na pele
“Tinha sete anos quando fiz uma saia com uma cortina para a minha mãe, e ela foi buscar-me à escola com ela vestida.” A frase, dita por Simon Porte Jacquemus à Paper Magazine, é tudo menos uma memória inofensiva de infância. É a semente de uma linguagem, um sinal precoce de que havia, já ali, algo mais do que brincadeira, um impulso criador movido pelo afeto, um modo de comunicar que trocava palavras por tecido. A saia era imperfeita no corte, mas perfeita no gesto. E talvez seja assim que se possa ler toda a obra de Jacquemus: uma tentativa constante de traduzir emoções em matéria visível, de vestir o que não se consegue dizer. Mais tarde, em entrevista à Vogue, resumiria tudo num murmúrio quase tímido: “vendo poesia.”
Jacquemus não é apenas uma marca dedicada à mãe. É, acima de tudo, uma extensão dela. A escolha do nome de solteira não é um detalhe sentimental, é o centro da arquitetura da marca. Valérie está em cada vestido descomplicado, em cada botão deslocado, em cada desfile que transforma o campo em passarela. Está no silêncio entre uma peça e outra, no sorriso discreto das modelos, na maneira como a marca insiste em falar baixo num mundo que grita. Simon não fez uma homenagem à mãe. Fez dela o centro do seu universo. Foi ela quem sempre o incentivou a ser quem ele era e a ir atrás dos seus sonhos.
Em 2009, com 19 anos, muda-se para Paris para estudar na ESMOD. Um mês depois, o mundo desaba, a sua mãe Valérie morre num acidente de carro. Como contou à Another Magazine, foi como um eletrochoque. Voltou cinco dias após o funeral e disse a si mesmo: tens de viver a tua vida. Fundou a marca nesse mesmo ano. Não havia investidores, nem contactos, nem currículo. Tinha apenas com ele uma ausência tão profunda que se tornou força. Jacquemus nasceu do luto, mas é, lá no fundo, um projeto de amor, um tipo de amor impossível de substituir, o amor de mãe, a eterna origem do nosso ser.
A motivação não vinha do desejo de reconhecimento. Vinha da necessidade de continuar uma conversa interrompida. Em entrevista à GQ, disse que se tornou uma máquina. Acordava todos os dias a escrever para revistas, ligava para pessoas da moda, mandava emails. Estava obcecado. E não era ambição. Era sobrevivência emocional. Cada coleção era, segundo ele próprio contou à Vogue, uma narrativa pessoal: baseada na infância, na tristeza, em dias de verão, na mãe.
O sul de França nunca saiu dele. Nem das suas roupas. Cresceu em Mallemort, entre campos de lavanda e o calor seco da terra. Filho de agricultores, aprendeu a ver beleza na rusticidade, na terra que suja as mãos, na luz oblíqua do fim da tarde. E é precisamente isso que se vê na sua estética: os tecidos naturais que respiram, as cores quentes como a paisagem da Provença, os cortes simples que lembram o vestir diário das mulheres da aldeia. Há uma leveza que é mais do que formal. É emocional. As suas peças têm algo de domingo ao sol, de verão sem obrigações. Não há rigidez, não há artificialismo. Em vez de ceder ao glamour parisiense, escolheu a luz do interior, os tons do campo, a simplicidade elegante das feiras de domingo. Tudo em Jacquemus tem cheiro a alecrim e poeira quente. Os chapéus enormes lembram os campos de trigo. As camisas abertas são como o vento seco que passa pelos pomares. E os vestidos leves parecem saídos de uma fotografia de família, perdida no fundo de uma gaveta. Jacquemus consegue sempre surpreender com o simplicidade e com detalhes simples de grande impacto.
Para além das raízes e da memória, há também referências culturais claras que moldaram a visão de Jacquemus. A sua paixão pelo cinema francês moderno é explícita, não apenas nos gestos, mas nos lugares. Em 2022, organizou o desfile “Le Papier” num espaço junto à Villa Noailles, casa onde Jean-Luc Godard filmou partes de “Le Mépris”, e que ele próprio descreveu como “um lugar mítico do cinema francês” e inspiração para o cenário. Noutra ocasião, apresentou uma coleção no interior do Château La Coste, entre esculturas de Alberto Giacometti, criando um diálogo direto entre moda e arte contemporânea. O desfile “Le Raphia”, por exemplo, surge com uma encenação quase cinematográfica, como se fosse uma cena de Éric Rohmer captada em tempo real, com personagens suspensas numa melancolia solar. Há também ecos evidentes de Jacques Demy e da doçura colorida de filmes como “Les Demoiselles de Rochefort”. A influência não está apenas na estética, mas na forma: nas composições, no uso do espaço, no ritmo narrativo dos desfiles, pensados como curtas-metragens silenciosas. Jacquemus absorve esse imaginário e traduz para a roupa uma ideia muito francesa de beleza: natural, provocadora, simples, cheia de subtexto.
Jacquemus não seguiu o caminho clássico. Não concluiu os estudos, não passou pelas grandes casas. Mas compensou isso com clareza estética e disciplina silenciosa. À Purple Magazine disse: “a minha moda não é feita para ser compreendida por todos. É feita para tocar algumas pessoas.” E talvez seja isso que o torna tão raro. Numa indústria barulhenta, ele decidiu falar baixo. Mas o que diz, quando o faz, ecoa.
O sucesso veio. Desfiles virais, reconhecimento internacional, lojas próprias. Mas o que o sustenta não são os números. É o gesto inaugural. O pano cortado aos sete anos. O sorriso da mãe ao vesti-lo. A vontade de, através da roupa, manter acesa uma ligação que o tempo não apagou. “Criei a Jacquemus para não morrer com a minha mãe”, disse à Vogue Paris. E cada coleção, cada imagem, cada botão ligeiramente torto, parece repetir essa mesma frase. Talvez, Jacquemus sinta que ao criar a marca com o nome da mãe e para na qual trabalha todos os dias seja a melhor forma que ele tem de continuar a estar com ela, de a sentir perto, de ter a certeza de que ela estaria feliz de o ver seguir os seus sonhos.
Para quem deseja ver traduzida em imagens a poesia e a “melancolia solar” descritas nestas linhas, o documentário “Jacquemus, le prince soleil” é um complemento essencial. A obra, que mergulha na intimidade e no processo criativo de Simon, encontra-se disponível na RTP Play.

