O Verão dos Outros

por Lara de Sousa Dantas,    11 Julho, 2026
O Verão dos Outros
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Chega aquela altura do ano em que parece que a vida dos outros ganha uma nitidez particular, como se tudo aquilo que durante meses permaneceu discreto, adiado ou silencioso encontrasse finalmente o cenário ideal para se revelar. As fotografias multiplicam-se, os grupos de amigos parecem maiores, as viagens sucedem-se, os jantares prolongam-se noite dentro e os finais de tarde surgem enquadrados por uma luz quase perfeita, compondo uma narrativa subtil mas persistente segundo a qual toda a gente parece estar a viver algo extraordinário.

Sem nos apercebermos, começamos a observar a nossa própria vida através dessa lente. Já não a vemos apenas pelo que é, mas também pelo que parece não ser quando comparada com os fragmentos cuidadosamente escolhidos da vida dos outros.

A pergunta repete-se em conversas, encontros e redes sociais: onde vais de férias, com quem vais, quanto tempo vais estar fora, o que tens planeado para o verão? São perguntas naturais, próprias de uma estação que associamos ao descanso, à liberdade e ao convívio. O problema não está nelas. O problema começa quando sentimos que as respostas têm de corresponder a uma determinada expectativa, como se o verão fosse uma espécie de montra da nossa vida social, emocional e financeira.

Pouco a pouco, instala-se a ideia de que uma vida feliz deve ser visível.

Passamos grande parte do ano a construir uma imagem idealizada das férias. Aprendemos desde cedo que existe um tempo para trabalhar e um outro tempo para parar, descansar e recuperar. A publicidade transformou essa ideia numa promessa permanente e as redes sociais amplificaram-na até ao limite. O resultado é uma convicção silenciosa, mas profundamente enraizada: a de que o verão deve ser o momento mais feliz do ano e que essa felicidade deve manifestar-se de forma evidente.

Mas a vida raramente se organiza segundo esse guião. Nem sempre viajamos quando chega agosto. Nem sempre temos disponibilidade financeira para partir. Nem sempre estamos rodeados de pessoas. Nem sempre nos sentimos particularmente felizes apenas porque o calendário indica que chegou o verão.

A filosofia recorda-nos, há muito tempo, que existe uma diferença profunda entre prazer e realização. Aristóteles defendia que a felicidade não correspondia a uma emoção passageira nem a uma sucessão de momentos extraordinários. Era, antes de mais, uma forma de viver, uma construção paciente baseada no propósito, na virtude e no significado.

Os estóicos desenvolveram uma visão semelhante. Para eles, a tranquilidade não dependia das circunstâncias perfeitas, mas da capacidade de encontrar equilíbrio naquilo que existe, aceitando com serenidade aquilo que não controlamos, o valor (verdadeiro) da vida não estava concentrado nos acontecimentos excecionais, mas na relação que construímos com o quotidiano.

E, no entanto, todos os verões parecemos esquecer esta sabedoria antiga.

A normalidade começa a parecer insuficiente. Trabalhar em julho ou agosto parece menos interessante. Permanecer na própria cidade parece uma falha discreta. Ter poucos amigos parece pouco. Não ter uma viagem marcada parece uma derrota silenciosa. Como se a vida estivesse a acontecer noutro lugar e nós tivéssemos ficado para trás.

Talvez porque confundimos frequentemente intensidade com significado. Mas a maior parte da vida não acontece nos momentos extraordinários. A maior parte da vida acontece nos dias normais. Acontece na rotina que tantas vezes criticamos, no trabalho que nos dá estrutura, nas pessoas que permanecem ao nosso lado durante todo o ano e não apenas durante quinze dias de férias. Acontece nos cafés habituais, nas conversas demoradas, nos passeios sem destino, nos livros que finalmente encontramos tempo para ler e até nos momentos de aparente monotonia que nos permitem descansar verdadeiramente.

Existe uma certa injustiça na forma como olhamos para o quotidiano, passamos meses a desejar férias e, quando elas chegam, passamos grande parte do tempo a avaliar se as estamos a aproveitar suficientemente bem. Como se até o descanso tivesse de ser otimizado. Como se fosse necessário regressar com histórias, fotografias e experiências capazes de justificar o tempo passado longe das obrigações habituais.

Mas descansar nunca deveria precisar de justificação, estar parado não deveria precisar de explicação e não fazer nada de especial não deveria ser motivo de desconforto, porque há uma dimensão profundamente humana, e talvez até profundamente necessária, na possibilidade de simplesmente existir sem a necessidade constante de validação, desempenho ou demonstração.

Ao mesmo tempo, aquilo que vemos nas redes sociais está longe de representar a totalidade da experiência humana. Um estudo da Fundação “la Caixa” concluiu que 43,6% das pessoas vivem situações de solidão ou risco de isolamento social. Por detrás das imagens de grupo, das viagens partilhadas e dos momentos aparentemente perfeitos existe uma realidade muito mais diversa, mais silenciosa e, muitas vezes, mais vulnerável.

Isto não significa que as pessoas estejam a mentir. Significa apenas que observamos fragmentos. Pequenos recortes cuidadosamente selecionados de vidas inteiras e quando comparamos a totalidade da nossa existência com os melhores momentos da existência dos outros, o resultado dificilmente poderá ser justo.

Talvez por isso se tenha tornado tão importante recuperar o valor da normalidade.

Normalizar o verão de quem trabalha. O verão de quem fica na sua cidade. O verão de quem passa tempo sozinho. O verão de quem não tem grandes planos. O verão de quem não sente necessidade de transformar cada fim de semana numa experiência memorável.

Porque nem todas as pessoas têm os mesmos recursos, as mesmas oportunidades, a mesma disponibilidade ou as mesmas circunstâncias e nenhuma delas deveria sentir que a sua vida vale menos por não corresponder à imagem dominante de uma estação feliz.

O verão não precisa de ser um teste à popularidade. Não precisa de ser uma demonstração de estabilidade financeira. Não precisa de ser uma competição silenciosa sobre quem viveu mais, viajou mais ou publicou mais. Pode ser apenas aquilo que sempre deveria ter sido: uma pausa.

Uma pausa para descansar, recuperar energia, estar com quem gostamos, pensar, abrandar e reconciliarmo-nos com a ideia de que uma vida boa não é uma vida permanentemente extraordinária. Uma vida boa é uma vida que continua a fazer sentido mesmo quando não está a acontecer nada de especial, porque os momentos extraordinários são raros e ainda bem que o são. Nenhuma existência se sustenta apenas na exceção. O que verdadeiramente sustenta uma vida são os restantes dias do ano: os afetos consistentes, o trabalho com significado, a tranquilidade de chegar a casa, a sensação de pertença, a dignidade de uma vida comum.

Numa sociedade que valoriza frequentemente o excecional em detrimento do quotidiano, existe quase uma forma de “maturidade” em reconhecer que a normalidade não é um fracasso, nem uma versão menor da vida, mas o espaço onde a maior parte da existência se desenrola e ganha significado.

A normalidade é, muitas vezes, o próprio lugar onde a vida realmente acontece. E talvez aquilo que nos faz sofrer, no fundo, não seja o nosso verão. Talvez seja o verão dos outros.

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