O WhatsApp é o nosso pastor e nada nos faltará

por Henrique Pinto de Mesquita,    15 Março, 2026
O WhatsApp é o nosso pastor e nada nos faltará

O WhatsApp é o centro da contemporaneidade, circunstância diária da vida pós-moderna, extensão digital do novo Homem: de neofeirantes digitais a ministros a aprovar indemnizações, todos no século XXI têm parte das suas vidas cativas desta aplicação.

Tanto que ela virou juíza de um assunto muito sério: em 2026, um grupo de amigos só realmente o é se for formalizado com um grupo no WhatsApp. Até essa canonização digital se dar, são apenas pessoas a falar de assuntos que lhes interessam.

Só desde a popularização do WhatsApp é que os economistas conseguiram entender os baixos índices de produtividade dos portugueses. Quais sociedades de advogados, escolas ou jornais: a profissão dos meus amigos é falar no WhatsApp.

Transformado no novo café central, os grupos de WhatsApp ganham as suas próprias dinâmicas: há o que nunca fala, o que está sempre a falar, o que está sempre a levar porrada e o viciado em stickers, quais gomas digitais. A qualquer hora envia-se uma mensagem para qualquer grupo e há sempre alguém acordado, sempre alguém que resiste, disponível para bater um papo: somos a primeira geração de humanos a conseguir falar com alguém quando quisermos.

O melhor do WhatsApp, porém, é quando às 11h42 de uma terça-feira, sem aviso prévio, estamos todos a trocar pergaminhos sobre a inutilidade do dia como se disso dependessem as nossas vidas. As mensagens são tão rápidas e os espíritos estão tão aguçados que passamos a estar lado a lado: e com a sorte de tudo ficar registado para futuras vinganças. Eis as maravilhas da pós-modernidade: podermos sacar do bolso felicidade que há 30 anos só acontecia se saíssemos para ir ao café.

Imagine-se que em 1807 havia WhatsApp: a primeira coisa que D. João VI faria quando entrasse no barco para o Brasil seria escrever uma mensagem para os grupos justificando as razões da sua partida, com emojis de coração e de tristeza. E imagine-se os 12 apóstolos de Cristo num grupo de WhatsApp: Judas a leakar as mensagens para o grupo do lado, a enviar memes sem piada e a partilhar vídeos que homem santos não devem ver.

O WhatsApp já não é só um chat onde amigos falam: é a sala de estar da humanidade, onde os adolescentes começam os seus primeiros namoricos; onde se destroem vidas por circularem imagens sem consentimento; onde amigos consolam outros pela morte do seu pai; onde adultos zangados partilham as mentiras do governo e cozinham revoluções, cada um no seu fogão.

É uma pista nova, infinita, onde estamos a aprender a patinar sem cair, indecisos sobre se devemos criar barreiras ou não. Pequenos perante a dimensão do bicho, mas felizes por poder brincar com ele. E enquanto não nos limitam, rezemos: o WhatsApp é o nosso pastor e nada nos faltará.

Sugestões do cronista

Este mês só há uma sugestão para não haver distrações. Li-o de férias e passou a um dos meus livros preferidos: é para crianças, só que não. Escreveu-o quando o filho nasceu, em 1948, e viu a estampa quase 30 anos depois, sem edição face ao original. “O Gato Malhado e Andorinha Sinhá” (ed. Dom Quixote), de Jorge Amado, com ilustrações lindas de Carybé, é dos poucos livros sobre os quais se pode dizer: pousa o que estás a ler e vai-te a isto. É, ao lado de “O meu pé de laranja lima”, o livro mais ternurento que li. «O mundo só vai prestar/ Para nele se viver / No dia em que a gente ver / Um gato maltês casar / Com uma alegre andorinha / Saindo os dois a voar / O noivo e a sua noivinha / Dom Gato e dona Andorinha». Ainda te choro, meu Gato.

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