Oaxaca, o lugar onde a morte dança viva

por Rui Maciel,    4 Dezembro, 2025
Oaxaca, o lugar onde a morte dança viva
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Foi no dia 31 de outubro de 2025 que mudei a minha perspetiva sobre a morte. Estava em Oaxaca, no México, num cemitério coberto por uma neblina laranja, com bandas a tocar música de baile mexicano, e percebi que a morte não tem que ser um fim. Havia pessoas a dançar à volta da campa, com cervejas na mão, com várias colunas JBL brilhando no topo das campas, tocando as músicas favoritas do morto, até que me ia apercebendo que ali havia uma celebração qualquer. Outros estavam mais calmos, tocando guitarra para os seus defuntos, numa nostalgia marcada, ou um outro senhor que se emocionava de felicidade a contar histórias sobre a sua avó, como a do seu cão, mostrando a mini-estatueta que tinha posto no topo da sua campa. Outros comiam, como se de um verdadeiro piquenique se tratasse, havia tapetes, tupperwares com merenda, cadeiras de abrir, e bocas cheias, mastigando os tacos trazidos de casa. Outros iam-se instalando nos seus cobertores para passar a noite ao lado dos seus antepassados. Ali, percebi que a morte, em contraste com Portugal, é muito mais sobre aqueles que vão do que sobre aqueles que ficam. 

Esta imagem marcou-me desde o momento que a vi. A morte, entre as flores, esbelta a olhar o horizonte

O que é a morte? Fico parado em frente ao computador a pensar o que será. Pode ser muita coisa. Uma pessoa morre realmente antes de ser esquecida? É no momento que o seu cérebro morre? É quando a sua existência se torna irrelevante? Embora seja uma realidade desde o dia que nascemos, julgo que na nossa sociedade ocidental perdemos contacto com o que é a morte e no dia-a-dia fazemos questão de a afastar o mais possível nós, quase numa dança constante de distração. Ela fica reduzida a hospitais, entre paredes esbranquiçadas, em camas que acumulam escaras, e bips que tocam numa orquestra esforçada para manter a vida. 

Mas este processo, que culminou na visita aos cemitérios, começou muito antes. Assim que cheguei à cidade, assisti a uma normalização da morte. Em todo o lado, cor. As casas tinham flores nas varandas, as ruas eram cobertas por fitas coloridas, e por todos os cantos se via esqueletos, pequenos, grandes, pintados, simples, de todos os tamanhos e feitios. Ou dançando, ou convivendo com outros amigos esqueletos, ou declarando-se às suas amadas. Todos vestidos de uma forma divertida, prontos para festejar a sua inexistência. Também de uma forma bonita, vêem-se altares às portas das casas e lojas, a honrar o morto. Estes altares têm uma maneira específica de ser construídos. No topo, a fotografia do morto, o típico pan de muertos, muitas flores laranja, uma tacinha que arde copal (o incenso lá do sítio) e, milimetricamente, são colocadas coisas que o morto gostava. Nunca mais me esqueço de entrar numa barbearia e de ver uma garrafa de Bacardi ao lado da fotografia do morto. Ainda estava a tentar compreender o que aquilo significava e então conversei com os barbeiros presentes. Após um pouco conversa, percebi que aquele era o dono original da barbearia e que o Bacardi era a bebida favorita dele, e o melhor de tudo é que me contaram isto sempre com um sorriso rasgado na cara. O mais curioso daquele momento é que embora estivesse a falar entre os presentes, falei um bocadinho com o morto, porque acabei por conhece-lo e saber das coisas que ele gostava mais. 

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Outro aspeto relevante a mencionar são as calendas, estas marchas que vão decorrendo ao longo dos dias preparatórios. Várias vezes me ocorreu estar só a passear pela cidade, a ir para um restaurante ou para um destino certo, e, de repente, um som de bandas filarmónicas rompia no horizonte da estrada e mudava o meu destino. Vim a descobrir que isto eram as calendas, desfiles nos quais vêm pessoas mascaradas alusivas à morte na frente, uma banda de fanfarra de seguida, e pessoas vestidas de forma normal fazem uma grande festa atrás. Este tipo de evento vai-nos fazendo estar mais familiarizados à morte. Foi quase como ver a dança macabra ao vivo. Havia esqueletos a dançar ao lado de pessoas, como se a vida e a morte unissem as mãos por breves momentos.

Neste altar é possível perceber um pouco sobre a falecida, gostava de croissants e da cerveja modelo. Tem muita fruta o que também é indicativo de como a senhora gostava dela

Tudo isto chocou comigo, porque a verdade é quando cheguei, fui carregado com os meus preceitos católicos de morte. Tive várias imagens a passar diante dos meus olhos, como película de filme. As velhas, todas vestidas de preto à frente do cemitério, os rituais funerários carregados de negrume, as flores extraordinariamente relacionadas com a morte com uns grandes descansa em paz no meio, com uma cor branca frígida para contrastar com o preto das celebrações, as músicas que forçam o choro e sentimentos negativos, os padres que fazem sermões sobre alguém que não conhecem, as conversas forçadas iniciadas por “os meus sentimentos”, ou pior o momento temeroso quando o coveiro atira a primeira terra para cima da caixão, e aquele som específico forte, cru e retumbante, que é acompanhado com um aperto audível das pessoas mais próximas do familiar. Quando estava lá, estas duas realidades estavam constantemente em contraste, e eu vivia quase uma uma luta de personalidades, como se eu fosse uma casa antiga na qual uma renovação silenciosa começava a mudar pinturas que eu julgava definitivas.

Em Oaxaca, isto não foi feito através de tratores ou bulldozers, mas mais como se o sol começasse finalmente a dar luz a este canto da minha casa para onde a morte tinha sido atirada. Mais do que palavras, foi o sentimento que se entranhou. Ali senti que ganhei uma compreensão diferente daquilo que eu penso que a morte é. Ainda não sei o que é, mas houve um sentimento muito reconfortante que senti naqueles dias. As minhas pessoas próximas podem partir desta vida, mas enquanto eu for vivo, elas serão vivas, porque eles fazem parte de mim, quer eu queira quer não, e é o meu papel celebrá-las na minha vida, e não carpi-las. Já repararam como é mal visto se num velório ou num funeral as pessoas não estarem a chorar e com um semblante triste? Como é mal visto fazer piadas sobre o morto, quando elas é que celebram genuinamente a sua existência e peculiaridades? E para mim o pior ainda é o que vem a seguir, que é a tentativa de quase esquecimento por parte de toda a gente. Há claramente algum problema na maneira como se trata a morte na sociedade ocidental. 

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Não tenho receio em dizer que o positivismo, a tecnologia, e, principalmente, a corrida da rotina retiraram a espiritualidade da nossa vida e que isso tem consequências bastantes reais na nossa saúde. No silêncio deixado pela falta de espiritualidade, surge um vazio que a mente tenta preencher com controlo, produtividade, comparação constante ou ruminação infinita. E quando a vida treme, não existe uma estrutura interna que nos ajuda a colocar o caos em perspetiva, apenas uma sensação crua de desorientação.

Há uma quantidade significativa de pessoas que vira “shanti-shanti”, encontrando a espiritualidade em promessas que se vendem como soluções milagrosas para o vazio interior justificado. Sem uma base espiritual sólida, muita gente acaba por confundir espiritualidade com consumo: retiros que prometem “cura”, gurus que criam MBAs da vida, cristais que substituem conversas difíceis, ou drogas “medicinais” que são usadas como fuga. Procura-se significado, mas muitas vezes acaba-se em orbitas de auto-ajuda altamente lucrativas para quem está do outro lado. E isto revela uma sede profunda, não de misticismo barato, mas de sentido, que o ritmo moderno silenciou.

Como no final da música dos “Ouvi dizer” dos Ornatos Violeta, alguém escreveu o teu nome em toda a parte. Só que em Oaxaca, o nome escrito é morte.

Lembro-me que nos meus tempos de faculdade entrevistei Marcelo Rebelo de Sousa. Lembro-me que a certa parte da entrevista, ele mencionara que lia Camus nos seus tempos de juventude. Não sei como a conversa desviou, mas a certo ponto perguntei-lhe “O Professor imagina Sísifo feliz?”. E ele respondeu: “Não preciso, eu sou religioso”. Essa resposta ecoou na minha mente a escrever este texto, mais pelo seu contexto do que pela profundidade, porque como as respostas de Marcelo Rebelo de Sousa são cheias de afetos e chavões que parecem bem à primeira. Tenho a dizer que continuo a não concordar com ela. Ainda continuo a pensar a nossa vida como Sísifo, todos os dias, levamos a pedra até ao final do monte e ela cai, para novamente a levantarmos todos os dias. Camus está muito perto da resposta do que Marcelo Rebelo de Sousa porque usa a religião como escape, contudo, não posso deixar de pensar que para imaginar Sísifo feliz é necessário dar algum salto de fé, e isto foi o que a celebração do dias dos mortos em Oaxaca me deu. 

Sugestões do autor:

O livro “Intermitências da Morte” de José Saramago. Já li este livro há vários anos, contudo, lembrei-me imenso dele durante estes dias, principalmente pela forma como o nosso Nobel fala sobre a morte. Foi dos únicos livros onde senti alguma familiariedade com a morte, tal como em Oaxaca.

Se estiverem interessados em acompanhar mais aventuras, sintonizem o podcast Périplo feito pelo autor deste texto. 

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