Obituário das tascas portuguesas?
“Queria? Já não quer?”. Habituámo-nos a ouvir esta expressão em qualquer canto do país. Um empregado, com a ginga portuguesa costumeira, a desafiar-nos, logo no momento do pedido, sobre a nossa certeza acerca dele.
A hesitação numa tasca — daquelas com balcões corridos, tolhas de papel marcadas por gotas de gordura a fazer notar o sabor da refeição e o som persistente da máquina do café a ressoar no fundo – é uma constante.
O empregado percebe a indecisão que nos assola entre o bitoque com ovo a cavalo, umas pataniscas com arroz de tomate ou a tentação de algo mais ligeiro, como um preguinho a acompanhar um caldo verde.
É uma dança muito portuguesa, sedimentada ao longo do tempo, entre a nossa comida de conforto e o ambiente onde ela é servida. Um ritual quotidiano que nos caracteriza.
Mas as tascas que se multiplicavam de esquina em esquina dão lugar a espaços padronizados, onde fichas, dosagens e procedimentos substituem o alho, o azeite e o sal deitados a olho. A tendência, agora, é o congelado substituir o refogado.
Será que alguma vez uma franquia nos vai fazer um cozido à portuguesa com couves da terra? Será que alguma vez uma franquia nos servirá umas iscas de cebolada? Há sabor numa bifana feita com processos industriais?
É provável que possamos vir a perder o doce da casa, a conta feita à mão num guardanapo e a bica em chávena fria.
Segundo dados avançados pelo Expresso, com base em informação recolhida junto das associações representativas do setor, a restauração portuguesa registou mais de mil encerramentos nos últimos meses. Um número que nos revela a erosão acelerada do modelo de restauração tradicional e de proximidade, que durante décadas sustentou a identidade gastronómica do país.
A AHRESP e a Pro.Var convergem neste diagnóstico. Ambas têm vindo a alertar para um setor pressionado pelo aumento dos custos, num contexto em que as margens se estreitam e a escala se torna decisiva.
Empresas familiares, com um só estabelecimento, veem-se encurraladas pela imposição de uma lógica de mercado que favorece cadeias e franquias como condição de sobrevivência.
Esta transformação está a alterar a forma como comemos e onde comemos. De um lado, assistimos ao desaparecimento de restaurantes tradicionais, que preservavam o receituário português; do outro, vemos cadeias multinacionais a expandirem-se sem travões, ocupando cada vez mais espaço físico, económico e simbólico.
Invariavelmente, o aumento do custo de vida e os baixos salários têm levado os portugueses a comer menos fora e a fazer escolhas alimentares condicionadas pelo preço, sacrificando qualidade e valor cultural.
Se continuarmos neste caminho, o que perdemos não é apenas o prazer de uma boa refeição. Perdemos uma forma de estar, de conviver. Um traço coletivo de personalidade.
“Queria? Já não quer?”
Nós queremos, mas temos pouco tempo.
Crónica escrita por Manuel Neves e Francisco Themudo.

