Olá, Nina, quero tratar de ti
Sara Inês Gigante e Pedro Nunes escrevem, depois de verem “Só Mais Uma Gaivota”, de Formiga Atómica, no dia 06/06/2026, em Guimarães, no âmbito dos Festivais Gil Vicente.
Olá, Pedro, meu eterno Treplev.
Espero-te bem.
Escrevo-te porque senti que era agora o momento. Há dias passei por uma fotografia nossa e achei que era como um passarinho a dizer-me que era agora. Ou uma gaivota…
A fotografia era aquela ao pé do lago azul, na barragem de Ferreira do Zêzere, lembras-te? Esse fim-de-semana foi épico. Estávamos precisamente a meio do processo da Gaivota, e achámos todos boa ideia passar um fim-de-semana intensivo ao pé de um lago, para tentarmos descobrir coisas para cada personagem. Que fritaria.
Mas foi tão giro.
A vida é tão bela quando somos jovens, já dizia a Arkadina.
Na altura, lembro-me que não estavas muito seguro se querias continuar no teatro, ou pelo menos na vida de actor. Como estás agora? Não sei nada de ti! Por onde andas tu, e o que andas a fazer? Foste logo para a Holanda mal acabámos o exercício final e perdi-te completamente o rasto.
Ok, não vamos fingir que o elefante na sala não existe, sei perfeitamente que aquela situação com o nosso Trigorin mexeu com a nossa amizade, mas quero agora dizer-te que para mim nunca foi uma questão, que sinto a tua falta, e que espero que possamos reencontrar-nos algures na vida. É fascinante e assustador como a ficção minou tanto a realidade naquela altura. E vice-versa, tanta quantidade de realidade em Tchekhov. Não achas?
Mas fala-me de ti.
A mim, a vida levou-me por um caminho inesperado. Depois de ter terminado o curso, fiquei muito desnorteada com o vazio que foi não ter trabalho nenhum, e um bocadinho por insistência dos meus pais acabei por fazer os exames de Geometria Descritiva, (porque era barra no secundário), e acabei por tirar mais uma licenciatura… Fui estudar arquitectura, vê lá tu. Insólito, não é? Hoje sou arquitecta numa empresa fundada por mim, e na verdade estou bastante feliz. É giro ver o contraste da febre com que estava há uns anos em busca de qualquer coisa que jamais acharia encontrar num lugar tão diferente.
O meu eu de há uns anos chamaria a isto um fracasso.
Mas felizmente crescer fez-me bem, e aprendi a suportar, a carregar a minha cruz e a ter fé.
E estou tão plena, Treplev.
E tu?
Diz-me coisas
beijo,
da tua eterna Arkadina.
§
Irina Nikolaevna, minha querida Sara Inês,
Que bom é ler-te. Saber de ti.
Por vezes, passam semanas ou até meses em que não penso nessa altura, nessa licenciatura, nessa produção e temo que me venha a esquecer por completo. As memórias cuidam-se, como os jardins. Há que regá-las de tempos a tempos, mesmo que com adubo e ficção, para que não esvaneçam. Obrigado por me relembrares de uma vida que parece ter terminado tanto ontem, como há uns longos vinte anos.
Acho que não fui particularmente feliz nos dias de espectáculo dessa nossa Gaivota. Deixei-me consumir pelo peso da nostalgia antecipada e sentia que cada récita era mais um funeral do que uma celebração. O processo, por outro lado, foi inacreditável. Claro que me lembro da barragem: eu sou de Tomar, a ideia foi minha! A máquina de fotografar era do nosso Dorn. E no dia seguinte, à pala disso, fomos ao rio a Dornes, também em Ferreira do Zêzere. Estávamos sempre com trocadilhos. Era a imagem de marca da nossa turma.
Como te deves recordar, Velikan é Gigante em russo. Daí resultou, sempre que tinhas uma branca durante um ensaio, soltarmos um Velican’t, enquanto, embaraçada, procuravas o texto que habitualmente tinhas na ponta da língua. Eras uma máquina a decorar e nós éramos mesmo muito parvos. Ainda nessa onda, lembro-me do teu colega de casa na altura — mais Masha do que a nossa alguma vez foi —, que andava a tirar Filosofia há quatro ou cinco matrículas. O Zé, para além de uma aptidão particular para cozinha típica da Europa de Leste, oriunda do seu Erasmus em Vilnius, com várias passagens por Kiev e Moscovo, era célebre por ter livros a mais. De eslavos, claro, mas sobretudo de alemães. Por todo o lado. Livros na sala, livros no quarto, livros na casa de banho; o gajo estava sempre a ler. O problema dele nunca foi não gostar do curso. Limitava-se a gostar mais de organizar festas lá em casa. E sempre que o vosso apartamento antigo, numa rua mais antiga ainda, sem passeio e sem saída, tinha problemas de iluminação ou energia — provavelmente devido aos cabos elétricos instalados no tempo em que o Edison e o Tesla andavam à bulha e a nossa peça estreava em São Petersburgo — vinhas para as aulas queixar-te, a dizer que andavas às escuras e te fartavas de tropeçar nos livros de filosofia do Zé. Como não poderia deixar de ser, fazíamos pouco da nossa Sara Inês Velikan, coitadinha, que nessas noites andava aos apalpões às Velas e ao Kant. Éramos tão parvos.
Sempre achei graça ao facto de assinares com três nomes, como as personagens d’A Gaivota; como se Inês fosse o teu matronímico. A tua mãe, como está? E o teu irmão?
Fico feliz por te saber arquitecta — penso que a nossa Nina me tinha mencionado essa tua mudança de área quando nos cruzámos, por absoluto acaso, numa viagem que ela fez aos Países Baixos (Holanda é bué 2005, Sara). Ou melhor, fico feliz por te saber feliz em seres arquitecta, é mais isso. A geometria pode ter sido uma boa porta de entrada, mas os sinais estavam todos lá: tu passavas mais tempo nas oficinas de cenografia do que na sala de ensaios e por ti tinhas pintado mais paredes da casa do Sorin do que provado figurinos para a tua actriz-mãe-diva. Nunca foste diva. Percebo agora que também já não és actriz. E mãe? És? Eu sou pai. Que fora, dizer isto assim, a uma pessoa que me conheceu no fim da adolescência. Mas sim, sou pai de uma menina.
O teatro ou, vá, o nosso sonho ingénuo de uma carreira no teatro, esse, passou por mim a voar. Como uma… estou a gozar. A minha companheira é de Maastricht e quando vim para cá, depois do curso, resumindo uma longa história, não voltei. As prioridades alteraram-se. As vontades apontaram outros caminhos. Abrimos uma livraria-café. Vendemos café de especialidade e peças de Tchekhov. É belo e simples e um tanto-ou-quanto irónico. Mas assim era no século dezanove e assim será no vinte e um. Sei que pareço o Medvedenko, conformado e fatalista, mas sinto-me muito mais Treplev hoje, do que alguma vez me senti aos vinte anos. Um Treplev que sobreviveu, talvez, num universo paralelo.
O mundo está todo ao contrário, é verdade. Honestamente, parece caber cada vez menos realidade dentro do teatro que fazíamos, pelo menos para mim. Portanto, à semelhança de ti, querida Irina Nikolaevna Velikan, Sara Inês Arkadina, carrego a minha cruz, tenho fé e faço terapia. Esta última acrescento eu. Por outras palavras, trabalho bastante, leio muito e tento ser um pai responsável. Se isto é um fracasso, então que se foda o Trigorin. E sim, também o nosso.
Um beijo enorme de saudades.
Do teu Konstantin Gavrilovich Nunes
Amsterdão, 2026
P.S.: Em breve vou a Portugal. O que achas de reunirmos a malta e passarmos uma tarde na barragem? Prometo não dar um tiro na cabeça.
§
Pedro. Treplev!
Sugiro-te continuarmos esta conversa olhos nos olhos.
Conheci um sítio lindo que gostava de te mostrar. E acho que podemos – e merecemos – dar esse mergulho que sugeres num outro lago. É o Poço Verde, no Gerês.
Consegues vir em Junho? Assim podíamos depois dar um outro mergulho, noutro lago, noutra realidade – e íamos a Guimarães, que é relativamente perto, ver o Só Mais uma Gaivota do Miguel Fragata. Vai estar em cena nos Festivais Gil Vicente, e acho que era bonito, poético e quiçá nostálgico vermos juntos.
Traz a tua filha, quero conhecê-la e saber que sonhos tem.
És um pai incrível, tenho a certeza.
Traz também a tua fé, vamos continuar esta conversa, este reencontro.
Tenho tantas outras coisas para te contar.
beijo e até já,
Arkadina aka Velikan aka Sara Inês Gigante
