Onde a liberdade marcha

por Maria Mendes Vasconcelos,    29 Junho, 2025
Onde a liberdade marcha

A imagem que nos chega é poderosa. Contra todas as tentativas de proibição, milhares de pessoas marcharam nas ruas de Budapeste no mês de junho, num dos países da União Europeia onde a liberdade de ser quem se é se tornou um ato de resistência. Na Hungria, governada há mais de uma década por Viktor Orbán, a repressão legal e simbólica contra a comunidade LGBTQIA+ tem sido crescente, culminando agora com uma tentativa explícita de proibir a realização da Marcha do Orgulho. Mas, mesmo diante da intimidação, a marcha aconteceu — e isso importa, diz-nos respeito a todos.

Este momento não surge do acaso. A Hungria é hoje um dos casos mais alarmantes de erosão democrática dentro da União Europeia. O governo húngaro tem sistematicamente enfraquecido os pilares do Estado de Direito: silenciou grande parte da imprensa livre, estrangulou a autonomia das universidades e da vida académica, instrumentalizou o sistema judicial e aprovou legislação discriminatória que atinge diretamente as minorias e as comunidades vulneráveis. A retórica oficial do governo húngaro promove frontalmente a exclusão, o medo e a uniformização. Neste cenário, uma expressão pública de diversidade torna-se, inevitavelmente, um gesto político.

É por isso que a marcha deste ano assume um valor simbólico tão inequívoco. Trata-se de muito mais do que um desfile: é um clamor coletivo por liberdade. É a afirmação de que nenhuma lei ou governo pode ditar quem somos. É uma manifestação de coragem e de solidariedade entre cidadãos que se recusam a abdicar dos seus direitos e liberdades mais fundamentais.

Há algo de profundamente liberal nesta reivindicação: o direito de cada um viver segundo a sua consciência, a sua identidade, os seus afetos. A liberdade de expressão, de associação, de pensamento — todos estes valores se entrelaçam na cultura democrática que a Europa se comprometeu a defender, a cultura que nos é identitária. Quando um Estado tenta apagar a diferença, não está apenas a ferir minorias, está a trair a promessa de uma sociedade livre.

Importa reconhecer, também, o papel essencial da juventude nesta resistência. Esta não é apenas uma geração ativista — é uma geração solidária, corajosa e descomplexada. São jovens que compreendem que a liberdade de uns é a liberdade de todos, e que sair à rua por quem somos não depende da nossa orientação sexual, do nosso credo, das nossas origens ou das nossas escolhas pessoais. Marcham lado a lado não porque partilham tudo, mas porque acreditam no direito de cada um viver plenamente a sua singularidade. Esta juventude, herdeira de muitas lutas, assume agora a sua responsabilidade: defender o presente para que o futuro não seja construído sobre o medo.

A comunidade, no seu sentido mais profundo, renasce onde existe solidariedade.

A marcha do orgulho em Budapeste não foi apenas um protesto: foi um manifesto por um amanhã livre. Um amanhã em que a liberdade não seja privilégio, mas condição essencial da vida em comum.

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