Oneohtrix Point Never ao vivo: a familiaridade do imprevisível
Recentemente, tive o prazer de visitar Inhotim, que é considerado o maior museu a céu aberto do mundo. Localizado no estado de Minas Gerais, no Brasil, alberga uma imponente coleção de arte contemporânea, espalhada por diferentes pavilhões. Num deles, encontra-se a Galeria Cildo Meireles, cuja instalação “Através” espoletou em mim uma estranha sensação de reviver um pesadelo. Com recurso a objetos comuns, o artista construiu um labirinto ladeado por grades, cercas e arames, com o chão forrado a cacos de vidro. A justaposição destes objetos e a parca luz industrial remeteram-me a um pesadelo recorrente da minha infância, em que me via preso numa construção eternamente inacabada, constantemente a fugir de um perigo inominável. Ao contrário do que seria de esperar, ao invés de me provocar ansiedade, reviver essa experiência num ambiente controlado trouxe-me paz. O confronto com algo tão assoberbante em sonhos — principalmente referentes à nossa infância, altura em que as coisas normalmente tomam uma dimensão maior do que realmente têm — sob outra perspectiva funcionou como o fechar de um ciclo que nem sabia ainda estar aberto no meu subconsciente.
O que é que tudo isto tem a ver com Oneohtrix Point Never? A música do artista norte-americano tem um efeito similar. As suas referências sónicas são música de anúncios ou programas de TV do século passado, efeitos sonoros para samples e toda a espécie de detrito sonoro que possa evocar alguma memória, como sons de modems ou falhas computacionais. Todos esses elementos são editados até se tornarem algo quase abstrato e depois conjugados em músicas que na maioria das vezes não respeitam as estruturas de composição às quais estamos habituados. Em quem a ouve, isso traz uma sensação de imprevisibilidade, como caminhar por um labirinto digital em que de repente podemos chegar a um precipício ou a uma parede de espinhos. Apesar de soar assustador ou desagradável — não deixando necessariamente de o ser —, tal como a descrição da exposição em Inhotim, tanto ver aquela exposição como escutar esta música pode ser estranhamente catártico.

É por isso que o regresso de Oneohtrix Point Never a Lisboa foi tão entusiasmante para muitos melómanos, que esgotaram a sala maior da Culturgest para o ver. Após uma passagem por Braga a 9 de novembro do ano passado, Daniel Lopatin (o nome do artista por trás do projeto) voltou a Portugal para apresentar Tranquilizer, desta vez com este álbum efetivamente lançado. A crítica tem sido generosa com o mesmo, anunciando-o como um regresso à experimentação cativante de Replica ou R Plus Seven, discos lançados em 2011 e 2013, respetivamente, e que cimentaram Lopatin como um dos produtores mais interessantes da música experimental. Desde então, seguiram-se vários discos, bandas sonoras e colaborações com The Weeknd, Rosalía, Caroline Polachek, Arca, FKA twigs e Soccer Mommy, entre outros.
Nesta digressão, Lopatin tem-se apresentado com Freeka Tet, artista digital francês conhecido pelos seus visuais arrojados e inventividade. Para acompanhar a música fragmentada de Oneohtrix Point Never, as referências visuais incluíram documentários sobre a Natureza, fenómenos naturais pixelizados e renderizações de edifícios altamente processadas. As imagens eram transmitidas ora no pano de fundo do palco, ora num ecrã situado dentro de uma pequena maquete filmada ao vivo por Freeka Tet, com um efeito similar ao filme “Poltergeist”.

A música e os visuais funcionavam quase como um, alternando em termos de protagonismo. Quando a música era mais tranquilizadora ou vagamente constante, como a batida IDM de “Cryo”, os visuais ganhavam primazia. Por outro lado, em momentos intensos como o clímax cinemático e arrepiante de “Measuring Ruins”, quase nos esquecíamos que havia imagens por trás. Os sintetizadores de “Cherry Blue”, quando conjugados com a imagem de um pôr-do-sol bem alaranjado refletido no mar, pareciam ser o equivalente sonoro de uma luz que brilha tanto que nos encandeia. Por entre todas as suas referências nostálgicas, Daniel Lopatin é capaz de fazer música que transcende o digital e se torna algo mais atemporal.
Num concerto deste estilo, quase parece irrisório falar de canções ou momentos, mas o artista insistiu em apresentá-los como momentos separados. Obviamente, entre eles o público batia palmas, o que acabava por cortar ligeiramente o ambiente imersivo. Aliás, parece até estranho aplaudir explosões de ruído e segmentos musicais que se desenrolam quase como fenómenos meteorológicos — “Storm Show” foi uma representação bem literal disso, com os seus sons evocativos de chuva e as luzes estroboscópicas de palco a simular relâmpagos, tendo sido um dos momentos mais belos do espetáculo.

A maioria do alinhamento dividiu-se entre Tranquilizer e R Plus Seven, mas ainda houve espaço para revisitar “Power of Persuasion” e, já no encore, uma versão epilética de “Replica”, do álbum homónimo desta última. O piano cheio de classe que vai espiralando ao longo da canção em disco repetia-se como se de um glitch se tratasse, fazendo a ponte com o conceito de detritos digitais transversal a todo o concerto. Para o fim, ficou a única representante do agressivo e grungy Garden of Delete, uma versão acelerada e particularmente maléfica de “Mutant Standard”, um dos momentos da carreira de Oneohtrix Point Never que mais se aproximou mais do techno e ao longo da qual que podíamos mais facilmente acompanhar a música com a nossa cabeça.
Enquanto pensava em como documentar este concerto, dei por mim a pensar no motivo pelo qual eu (e aparentemente muitos outros fãs) gostava tanto deste estilo de música tão abrasivo e por vezes difícil de penetrar. Talvez seja pela familiaridade das suas referências, que é divertida de descortinar sem se tornar redundante. Os seus sons evocativos criam uma ligação direta a memórias às quais raramente acedemos; quiçá até nos permitam reconciliar-nos com coisas que julgávamos perdidas.







