Os animais de estimação como âncoras da nossa saúde mental

por Sara Rathenau,    6 Abril, 2026
Os animais de estimação como âncoras da nossa saúde mental
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Estamos em todo o lado mas não estamos em lado nenhum. Caminhamos pelas ruas com os olhos sempre colados ao ecrã. Medimos o nosso valor em notificações e “urgências” digitais que, na verdade, podem esperar. No meio deste mundo digital, há uma melodia que se destaca: o bater de uma cauda no chão da sala ou o peso morno de um gato que decide, sem qualquer aviso, que o nosso colo é o centro do seu universo. 

Já paraste para pensar que, num mundo que nos avalia constantemente pela nossa utilidade, metas e sucessos, o nosso animal de estimação “ama-nos” sem exigir uma prova de mérito? Eles não nos pedem êxito ou produção, pedem presença. E, quando retribuímos, compreendemos que cuidarmos deles é, na verdade, uma forma disfarçada de cuidarmos de nós mesmos. 

Estimar é atribuir valor. O animal de estimação estima-nos pelo que somos na nossa nudez emocional – cansados, tristes, felizes. Eles não celebram o nosso sucesso, celebram a nossa chegada. Um estudo publicado na AMA Network Open sublinha que a relação com animais de companhia reduz drasticamente o risco de depressão e ansiedade. As interações diárias, como acariciar um animal ou observar a sua respiração, promovem uma desaceleração física e mental, aliviando preocupações intensas. 

Crescer com um animal molda a forma como a criança se relaciona com os outros. As crianças que convivem com animais em idade precoce têm 6% menos probabilidades de apresentarem dificuldades na expressão emocional aos 5 anos. Investigações da University of Southampton confirmam que estas crianças desenvolvem competências sociais mais fortes, comunicam melhor e trabalham melhor em equipa. 

A ciência diz-nos que a psique de uma criança que cresce com um animal de estimação aprende uma gramática que os livros não ensinam. Crianças que ajudam nas tarefas do pet (exemplo: alimentar ou passear) desenvolvem níveis mais elevados de auto-confiança e autonomia. O exercício de cuidar de um ser vivo ensina planeamento e organização. Estudos de Julho de 2025 indicam melhorias significativas na regulação emocional e no envolvimento social em crianças com transtorno do espectro autista que vivem com cães. O animal apresenta uma função de ponte de comunicação mais simples e segura. 

Em momentos mais sombrios, quando a nossa mente se torna num lugar perigoso, o animal de estimação assume o papel de âncora de sobrevivência. A ciência identifica a “responsabilidade percebida”: para alguém com ideação suicida o animal é muitas vezes o último fio que o prende à vida. Estudos publicados na BMC Psychiatry revelam que os animais oferecem uma “ontologia de segurança”, uma prova de que a pessoa é necessária e insubstituível para aquele ser. Os animais conseguem ajudar a interromper o ciclo de isolamento que alimenta o desespero. É importante realçar que os animais apesar de serem aliados poderosos, não substituem o apoio clínico. Em casos de ideação suicida o animal é visto como um complemento vital ao tratamento psicoterapêutico e farmacológico. 

Para além do que referi, a presença de um animal altera a forma como o casal gere momentos de tensão. Um estudo da Psychosomatic Medicine, demonstra que casais que enfrentam tarefas stressantes na presença do seu animal de estimação apresentam batimentos cardíacos e níveis de pressão arterial significativamente mais baixos do que quando estão sozinhos. Investigações da University of Buffalo sugerem que o animal actua como um terceiro elemento neutro. Em momentos de discussão, a intervenção espontânea de um cão ou gato (pedindo atenção ou estando a brincar) quebra o ciclo da discussão, permitindo que o casal recupere a perspectiva emocional. O cuidado partilhado, cria objetivos comuns e uma linguagem própria do casal. Estudos da Human Animal Bond Research Institute sobre casais que enfrentam luto ou doenças graves mostram que o animal de estimação impede o isolamento emocional entre os parceiros, servindo como uma ponte de conforto quando as palavras falham entre ambos.

Para um idoso, um animal de estimação é muito mais do que companhia, é um antídoto contra a invisibilidade. Investigações publicadas no Journal of Aging and Mental Health em 2024 mostram que idosos que vivem com animais têm 36% menos probabilidade de reportar sentimentos de solidão do que aqueles que vivem sozinhos. O sénior que passeia um cão tem mais actividade física e mais interações com os vizinhos. Ter de alimentar, escovar ou passear um animal, obriga o idoso a manter uma estrutura diária. Se formos mais longe, estudos sobre Intervenções Assistidas por Animais em lares de idosos demonstram que a presença de cães de terapia reduz episódios de agressividade e ansiedade em pacientes com Alzheimer. 

Então e os outros animais sem serem os gatos e os cães? A evidência científica, demonstra que os benefícios psicofisiológicos da interação humano-animal não dependem da taxonomia ou da presença de pelagem. A manutenção de répteis, pequenos roedores ou anfíbios promove a regulação emocional através do estabelecimento de rotinas de cuidado mais meticulosas e da estimulação sensorial. Mais do que a espécie em si, é o vínculo e o sentido de auto-eficácia gerado pela responsabilidade de manter um ecossistema artificial que actuam como moderadores de ansiedade. 

Quem salva quem? Dizemos que temos um animal de estimação para não estarmos sozinhos, mas talvez a verdade seja mais crua: temos um animal para não nos esquecermos de quem somos. A ciência pode mapear a nossa ocitocina e medir o nosso cortisol em contacto com o nosso animal, mas nunca conseguirá traduzir o que acontece naquele silêncio partilhado. A grande provocação que o teu animal lança, não é sobre o que tu lhe dás, mas sim sobre o que ele te devolve: a capacidade de estares presente. Ele não te pede para seres a melhor versão de ti próprio. Talvez a maior lição de estimação seja esta: ao cuidarmos da vida deles, sem sabermos, estamos também a cuidar (ou até a salvar) a nossa.




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