Os dilemas da minha pegada (social) digital
Ponto prévio: já fui muito ativo nesta Comunidade que é de todos sem exceção. De há um ano e pico para cá, porém, procuro escrever aqui quando vozes mais altas me pedem e faço-o com o tremendo gosto de sempre. Contudo, e com as devidas autorizações concedidas, trago uma espécie de um balanço desse período de menor atividade aqui, com outras reflexões à mistura.
Destaco o que me assola nas últimas semanas e que, felizmente, está longe de ser uma questão de vida ou de morte. Com o devido agradecimento a alguma entidade superior pelos mínimos de uma existência digna e agradável assegurados, vislumbro-me numa encruzilhada. Uma encruzilhada de alguém que, sabendo que tem muito a dar aos outros e ao mundo, se fixa na ausência de redes sociais e num desejo de estar cada vez mais presente (aqui e agora soa bem?) no dito mundo real. Longe da famigerada Meta, dos Elon Musks da vida, dos ChatGPTs, longe daquilo que é definido como enshittification. Na chegada aos trinta anos (por muito que não dê crédito a isso, porque, afinal de contas, em que calendário acreditar?), estou no ápice de um caminho de uma certa autonomia digital. E o que é que isso quer dizer? Procurar que a presença digital se dilua em poucos serviços, alimentada por poucos dados pessoais, limitando-me ao estritamente essencial, de um quase escapismo daquilo que toda a gente usa, tendo em conta as entrelinhas dessas plataformas. Para outros, também é assumido como um rumo onde os dados são, efetivamente, do utilizador e não das plataformas, que os disseminam a seu bel-prazer, com remates (potencialmente) políticos, colocando em cheque a tão sagrada privacidade individual. É um caminho difícil, de “fintas”, como já me disseram, mas é aquele com o qual me identifico.
Sou do tempo do Hi5 e do MSN, o que já é sinónimo de uma certa meia-idade nestas lides. Uma espécie de nativo digital a meio tempo. Passei grande parte da última década no Facebook, onde vi algum sucesso nas interações que tive. No Twitter, também foi correndo bem das vezes que por lá andei. No Instagram, por onde andei no último meio ano, nessa tentativa de me mostrar ao mundo como tantos fazem (embora com várias limitações pessoais), até ver, nunca me dei. Não me identifico com a voracidade das stories, nem com a necessidade de estar sempre ligado, nem com os regulamentos implícitos de algoritmos. Da autenticidade que procuro obter nos meus contactos com o outro, senti pouca ou nenhuma e mesmo essa pouca era altamente fugaz. Dava um estudo psicossociológico (que palavrão!) perscrutar e deslindar a conduta das pessoas nas redes sociais, mesmo das mais moderadas, entre as selfies e as demais dezenas de interações. Essa necessidade de estar ligado tinha em mim, como consequência, um desgaste mental grande e uma fragmentação muito maior da minha atenção, com prejuízo a muito do que me rodeava fisicamente.
Pelo meio, antes de até ter passado um dia no Bluesky, encontrei uma espécie de nenúfar chamado Mastodon. Uma rede social que prescinde de impor (e até de ter) Inteligência Artificial por tudo e por nada, ela que, mesmo tendo valências de grande relevo, traz consigo um ónus ético e até de potencial estupidificação a ter em conta. Com a presença de organismos como a Comissão Europeia (fica o desafio lançado para qualquer tipo de instituições, os grandes motores destas mudanças) ou de gente como o ator George Takei (o Sulu do “Star Trek” original), procura estar ligada ao mundo de uma forma mais verdadeira, sem recolher dados para as famosas third parties (entidades intermediárias associadas à das redes sociais que utilizam a informação dos seus utilizadores para fins diversos que têm muito pouco de ético).
Uma rede social que se quer afirmar como entidade sem fim lucrativos e que quer estar na linha da frente na forma de estar no mundo digital. Interligando diferentes redes entre si (inclusive o Bluesky, que também tem suscitado questões de ordem estrutural), procura descentralizar a tutela dessas mesmas redes a partir de servidores privados onde cada uma dessas redes e instâncias estão alojadas (um protocolo chamado ActivityPub). É a isto que se chama o tal fediverso, que procura agregar e colocar em contacto todas essas variadíssimas instâncias que saem do espectro dos poderes obtusos e obscuros da Meta, munido de um impacto cada vez mais perverso, e seus afiliados. Para o Facebook, há o Friendica, para o X, há o Mastodon. Para o Instagram, há o Pixelfed. Para o Reddit, há o Lemmy. Para o Youtube, há o Peertube. Imagine-se tudo integrado e possível de se comunicar com os seus utilizadores tendo conta numa só delas. É possível.
Mesmo fora deste painel do fediverso, as alternativas às tais Big Tech vão-se avolumando, todas elas com sede europeia. Ao Whatsapp, surge o Therema (o Signal é igualmente válido, se bem que é estadounidense). Ao Google como motor de pesquisa, surge o Ecosia (que projeto fabuloso), o Mojeek, o Qwant, etc.. Google Chrome, Edge, Firefox? Que giro que é usar o nórdico do Vivaldi. Como e-mail, como calendário e como cloud, há o Proton, o Nextcloud, o Tuta, etc.. O Linux não é um bicho de sete cabeças para quem trabalha bem com Windows, assim como o LibreOffice não o é para quem usa o Word ou o Excel. Para a Amazon (Prime), a Netflix ou a HBO, há produções da RTP Play, coisas deliciosas da RTP Arquivos e repositórios a céu aberto com tantos filmes, documentários e séries de enorme qualidade em acesso livre. Notícias? Consulta-se e subscreve-se diretamente as newsletters dos jornais, das associações, das instituições, dos projetos.
O Spotify? Olá, Bandcamp e Qobuz (Salvador Sobral já falou dela). O OpenStreetMap (Organic Maps é o nome da aplicação) é tão ou mais fixe que o Google Maps. Até para os telemóveis e seus sistemas operativos há possibilidades de escolha. A muitas vezes referida como soberania digital (um termo que suscita controvérsia, nomeadamente pela forma como é instrumentalizado politicamente), pensada não só a nível individual, mas até, perante o desafiante contexto global, a nível europeu, está à mão de semear. As alternativas multiplicam-se para tudo e mais alguma coisa. Exige algum tempo e disponibilidade (mental), mas mudanças incrementais podem ser feitas. Algumas delas até já são incentivadas em painéis de opinião de órgãos de comunicação social, como o The Guardian, e começam a ser locais de chegada para muitos daqueles que, não devendo nada ao Zuckerberg e ao Musk, procuram experiências mais seguras e sensatas. A nível comunitário, no regulamento de cibersegurança redigido recentemente, está contemplado o uso de soluções open source.
No Mastodon, percorri três instâncias. A geral (mastodon.social), a portuguesa pura e dura (masto.pt) e a da D3 – Associação dos Direitos Digitais em Portugal (ciberlandia.pt). Em todas elas, procurei ativamente manter contacto com os utilizadores portugueses, que devem rondar uma centena, embora haja muita gente brasileira e espanhola, inclusive galega, com quem me dei igualmente bem. E aqui voltamos à parte de crónica deste artigo. As minhas experiências foram breves, visto que a disponibilidade mental para estar presente nestes palcos é diminuta. Decorrida uma semana de trabalho ligado “às máquinas”, tudo aquilo que quero para o tempo de descanso é o tal desligamento. O momento em que há o reencontro com a vida e o rompimento com o compromisso laboral diário que poderia dar pano para mangas, mas esqueci-me de trazer a agulha de coser.
É nestas lides que reside o dilema. A necessidade de estar presente e de dar a conhecer esta jornada que sei que é única, assim como as descobertas que faço todos os dias. Não é comum fazê-lo tendo em conta ser e afirmar-me como solitário. É como me dou bem, embora seja da opinião que tudo que tem impacto no mundo tem de ser plural e plural rima com social. Também aí está o que devia (e muitas vezes é) de ser o dia do expediente, em que o empreendimento de muitos resulta em obra (bem) feita. Não obstante, o dilema entre estar presente em mim e estar presente no mundo é de difícil resolução. As respostas são intermitentes e oscilantes, como mostra a minha presença social digital tão inconsistente. Porém, creio que esta crónica ajudou e ajuda a estabilizar um caminho que quero, efetivamente, que seja partilhado.
Uma partilha que não quero que funcione como doutrina (chega de doutrinas, bem-haja aos caminhos que cada um faz por si e que tornam cada um de nós tão interessante), mas antes como porta entreaberta para reflexão e consideração. Conhecemos bem o que estamos a usar? Temos noção do que estamos a alimentar as plataformas que usamos? Sabemos para onde vai esse alimento que damos às plataformas? Para que fins é que damos tanto de nós a estas plataformas? Sentido de ligação ao mundo, sentido de conexão e de uma sociabilidade que tem tanto de instantânea como de (potencialmente) artificial? Sabemos que há alternativas para aquilo que condenamos de dia e que agarramos à noite? Mas a pergunta que fica é: que vida é esta que vivemos, onde tanto de nós vai para um vazio que nos consome?
É por isto que, a estar, estarei ativo de forma muito crítica nas redes sociais massificadas, colocando um manguito à disposição na própria montra (“minar por dentro”?) que criaram para Zuckerberg, Musk, Bezos, Pichai e companhia, mas piscando o olho ao projeto do Fediverso, que pode apontar para um futuro mais responsável e eticamente sustentável. Com a certeza de que, perante o máximo de sigilo necessário, o velhinho do e-mail e a raquítica da SMS ainda dão conta do recado.
