Os liberais acreditam que o Pai Natal traz gasolina
Não me lembro bem quando descobri que o Pai Natal não existia (peço desculpa se acabo de destruir a fantasia a alguém). Penso que, na realidade, nunca acreditei na figura, sobretudo porque os meus pais nunca a alimentaram. No entanto, percebo o quão sedutora é: numa noite de inverno, fria e chuvosa lá fora, mas quentinho cá dentro, onde comemos muito — mesmo muito — e não controlam os doces, acaba por aparecer uma figura que nos deixa prendas. Como é suposto resistir a esta fantasia?
A fantasia é essencial nas nossas vidas. É o que nos dá magia e alento quando nada mais o consegue fazer. Mas, infelizmente, não consegue impor-se à realidade. Pelo menos, não sempre. Temos muitas vontades, mas a realidade teima em existir. E a realidade da crise energética que vivemos hoje existe demasiado. Mas não tinha de ser assim. Sobretudo, não desta forma — não tinha mesmo.
Em Espanha, resolve-se a crise energética ajudando directamente o bolso do cidadão: diminuição de IVA, com alguma garantia que a descida será passada para quem consome; limitação ou tectos aos preços; limites aos lucros das empresas energéticas, com taxação de lucros extraordinários; apoios a empresas substancialmente afectadas. Cá, acreditamos no Pai Natal. Melhor dito, no sacrossanto mercado — deixemos o Pai Natal para Dezembro. Vai dar ao mesmo, na verdade: não passa de pura fantasia. Por cá, acreditamos que as coisas vão acabar por se resolver sozinhas. Aliás, o que temos de fazer, aparentemente, é sair de cena e deixar que as forças do mercado resolvam tudo. Quase como estar a conduzir em direcção ao abismo e a sugestão que os liberais têm é “tirem a mão do guiador”. Na verdade, até é capaz de resultar: provavelmente acaba a gasolina no depósito até lá chegar.
Eu percebo a inação e a pouca vontade de mudança no sacrossanto mercado. Era o que mais faltava quererem mudar o quer que fosse, ainda para mais na noite de Natal. Ainda perdemos as prendas pelo caminho. Lá estou eu com Dezembro… Desculpem, fiquei confuso entre fantasias. Recapitulemos. No fundo deste pensamento profundamente conservador está a pergunta “se as coisas até estão a funcionar, para quê mudar?”. O principal problema é outra pergunta: “está a funcionar para quem?”. Para quem não recebe prenda nenhuma, as coisas não estão a funcionar, não. Ou para quem não tem como colocar comida em cima da mesa. Ou pagar os medicamentos. Ou a gasolina.
A questão verdadeiramente fundamental é: para quem são desenhadas as políticas públicas? Em Espanha, claramente, são desenhadas para a esmagadora maioria da população. Por cá, são desenhadas para a ruidosa minoria de grandes empresários, cujo imperativo é não tocarmos na fantasia do sacrossanto mercado. Mas convenhamos: Espanha não é o paraíso na Terra. Por exemplo, a assinatura de acordos com a Palantir, a empresa de dados co-fundada por Peter Thiel, com proximidades a Donald Trump, não garante também um bom alinhamento entre a concepção e a implementação de políticas públicas.
No caso particular, com a promessa de uma gestão de dados eficiente e novo software, o caminho para ferramentas de espionagem e de vigilância massiva é trilhado. É mais uma fantasia: a de que os privados são bondosos na sua acção. Os Estados privatizam funções e infraestruturas fundamentais para a sua soberania e colocam nas mãos destas empresas dados e informações sensíveis e privadas dos seus cidadãos. Por cá, também não estamos imunes a esta fantasia tecnoliberal.
Os nossos políticos precisam de quem lhes quebre a fantasia. Reparem, acreditar no Pai Natal em criança é perfeitamente justificável. Não é ok quando se é adulto. Ninguém acredita que ao tirarmos as mãos do guiador resolvemos qualquer tipo de problema. Eu gostava que deixássemos as fantasias. Mas elas não nos querem mesmo deixar. É porque devem estar a funcionar para alguém. Para mim não é de certeza.

