Os posers e a música azeitrónica

por Henrique Pinto de Mesquita,    13 Dezembro, 2025
Os posers e a música azeitrónica
PUB

Os tempos são os tempos. O nosso aborrece-me. É que a Andreia viu o story da Teresinha e achou aquilo “brutal”, pelo que para a semana estarão lá as duas de telefone em punho. E depois o Manel, e depois o Varela. E quando damos por ela temos uma pista de dança colonizada por pessoas que querem ter uma “experiência diferente”, um “bocado estranha, admito”, mas que até “é gira”.

Não venham, a sério. É que já fizeram estragos. Sem aviso (pós-covid?), os bimbos portugueses começaram a achar graça à eletrónica e transformaram-na num folclore para as redes sociais, desfazendo pedreiras em azeite e criando um público fútil que se acha interstellar por estar de chapéu de cowboy a filmar um DJ em cuja cabeça um esquadrão de cavalaria à solta não esbarra contra uma ideia. Parabéns: criaram a azeitrónica.

E tudo isto me irrita porque a futilidade e ânsia por conteúdo para as redes sociais acabam por colonizar a boa cultura. Nestas festas não há verdade: só performance. A identidade é o bling bling e muitos nem sequer gostam do que ouvem — gostam da ideia de gostar do que ouvem (acabam a ouvir Keinemusik e a achar que é bom).

Quais bonecos, põem-se atrás do DJ – que é sempre muito giro e faz dancinhas – a abanar as peles julgando-se superiores aos demais por terem sido os nabos que pagaram mais para ouvir o mesmo. É uma infeliz demonstração de poder que nada tem a ver com a cultura da música eletrónica – só que, eureka!, ninguém está lá pela música.

Não tem mal gostar da Unwritten e cantá-la com toda a força – eu também gosto e canto –, mas é cringe ver-vos a tentar serem cosmopolitas da cena eletrónica quando o vosso coração suplica por Badoxa.

“Parecer” é o coração da época. E não só as festas são assombradas pelo excesso de performatividade: sinto-o nos restaurantes quando me querem alimentar de «experiências» em vez de vitela; sinto-o em certas leituras em público de livros ou jornais: «vejam como sou culto»; sinto-o até nas partilhas que os pais fazem dos filhos nas redes sociais: «vejam como o amamos». E performatividade sempre houve: a diferença é que agora há sempre.

As redes sociais farão de nós a primeira geração ontologicamente cosmética: a essência já não é o que somos, mas o que decidimos parecer. Seja em concertos de azeitrónica, visitas a restaurantes ou leituras em público, cada ocidental trabalha a sua própria montra. Eis também a minha.

Sugestões do cronista:

Nos últimos três meses — já há muito não vos escrevia, camaradas — felizmente preenchi a minha vida com muitos «agrados». A saber, namorei muito com a minha paixão adolescente de Santo António de Cavaleiros e pedi ao menino Jesus que me trouxesse no sapatinho o seu regresso. Unplugueto, Híbrido, tudo do Allen Halloween é amargo, feio e grosso, mas sempre doce, sempre amigo. Melancolia grunge.

Na comida, uma espécie de cabana de batata e grelos, fritos com alheira, tenta ser a personagem secundária de um prato de carne no Hotel da Penha, em Guimarães — não consegue. Para os geeks de mapas, a Sociedade de Geografia de Lisboa tem um dos mais antigos a retratar o mundo, do século XIV, com a altura de dois carros e largura de um outro. Tentei fazer sentido daquilo, mas não consegui.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.