Os sabores de um verdadeiro estrangeiro

por Martinho Lucas Pires,    7 Agosto, 2026
Os sabores de um verdadeiro estrangeiro
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Deixei as redes sociais a meio de junho. Não foi a primeira vez que saí das redes sociais, nem sei se será a última. As razões para a minha saída não são de princípio. Simplesmente, estava farto: farto de abrir as aplicações de forma preguiçosa e inevitável e de me confrontar com coisas que não me interessam ou, pior, que não me deviam interessar. Com os atuais algoritmos aumentou alguma cacofonia, mas o processo de participação passiva (já que, ativamente, pouco fazia por lá) começou a tornar-se cada vez mais aborrecido e frustrante. Foi quando me apercebi de que não tinha vontade, a não ser por mero hábito, de ir espreitar o que se passava que tomei a decisão de sair.

O mundo não se tornou melhor, mas tornou-se menos confuso e com mais espaço, sobretudo mental. Vejo-me a concentrar mais nas coisas, e sobretudo a concentrar-me mais no que sinto, penso, e faço. Surpreendo-me com alguns gestos, como por exemplo a emoção que me veio ao de cima ao escutar a canção Danceteria de Madonna. Foi quase equivalente à emoção sentida ao ver o jogo de Cabo Verde contra a Argentina do Mundial. O golo de Mikel Merino contra a nossa seleção, ao contrário, não me fez sentir nada, tal o descrédito que tinha pelo potencial daquela equipa.

É verão e eu continuo na minha senda de ler toda a ficção de Roberto Bolaño. Estou a meio do 2666, a um quarto do quarto capítulo, a parte sobre os crimes. Entendo, nesta altura do campeonato, que a maior qualidade da literatura de Bolaño é o mundo que estabelece, onde as personagens parecem todas, de certo modo, estrangeiras, mesmo aquelas que vivem nos seus lugares de origem. Parecem sempre tensas, prontas a fazer algo completamente irascível e pouco lógico a partir de um toque, de uma palavra, de um cenário qualquer. Não faço planos para ler outra coisa até ao fim da época estival.

Minto: faço planos de ler outras coisas, sim. Pus-me a ler, por interesse intelectual e profissional (que, na minha área de atuação, acabam muitas vezes por coincidir), livros de teoria política, mais concretamente daquilo que se costumava chamar “no antigamente” de Teoria do Estado. O nome parece ultrapassado, talvez por acharem que não faz sentido usar a palavra Estado, ou que esta é problemática, quando já se diz isso desde pelo menos o início do século vinte. Interessa-me, mais do que o princípio, o esqueleto, isto é, os elementos – porque é a partir daí que a dinâmica se monta e se produz. São linguagens conceptuais, especulativas, filosóficas. Fenómenos, gosto de fenómenos.

Lembro-me de quando saí de casa, uma bela tarde de semana, para ir até à Baixa, a pé, para comprar um disco que todos os jornais diziam ser um fenómeno. Chamava-se Is This It?, de uma banda de Nova Iorque chamada The Strokes, e a capa era tudo aquilo que um beto católico como eu era na altura queria: uma bonita e subtil provocação, cheia de estilo. Lembro-me de que, em casa, achei o disco giro, mas estranho, porque parecia que o ritmo vinha mais das guitarras do que da bateria. A pior música era a mais conhecida – e continua a ser; a melhor era a primeira, e continua, cada vez mais, a ser. Pela calma, pelo humor, pela ternura, pela atitude, pelo refrão.

Os Strokes lançaram um novo disco recentemente, com um single muito bom, sobre perder o amor. O resto, do que ouvi, não está ao nível, nem ao nível do disco anterior, o novo anormal, que acaba com uma música que liga diretamente com a primeira de todas, antes de se tornar uma espécie de elegia a um tempo, ou a uma maneira de estar no tempo que já foi, já não volta. Tocou-me muito quando a ouvi, e sou capaz de ter escrito alguma coisa sobre isso. Sinto saudades de escrever, de ter um blog, de publicar semanalmente uma crónica sobre o sentido da vida naquele período. Talvez faça algo assim, depois do verão.

Sugestões do cronista:

Este texto do Pedro Ramos. O verão é um tempo muito duro e bonito, saibamos ser justos com ele e connosco, durante o seu reinado.

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