“Para o que nos roubam até não estamos mal”

por Ricardo Costa,    27 Abril, 2026
“Para o que nos roubam até não estamos mal”

É uma frase que tenho ouvido cada vez mais vezes nos últimos tempos. E talvez seja uma das frases mais perigosas que se pode ouvir num país.

Porque não é apenas um desabafo. É um sinal de resignação. É a prova de que começámos a normalizar o que nunca devia ser normal.

Portugal é hoje um país onde mais de 2 milhões de pessoas vivem em risco de pobreza ou exclusão social. Um país onde trabalhar continua, para muitos, a não ser garantia de uma vida digna.

Um país onde a habitação se tornou um luxo. Onde comprar casa é um sonho cada vez mais distante e arrendar é, para muitos, simplesmente impossível.

Um país onde mais de metade dos jovens adultos continua em casa dos pais. Não por escolha. Por falta de alternativa.

Um país que formou milhares de jovens qualificados com dinheiro público e depois os vê partir, ano após ano, à procura de salários, estabilidade e futuro noutros países.

E depois há o outro lado.

O lado que alimenta esta frase.

Os sucessivos casos de suspeitas de corrupção, favorecimento, má gestão e utilização indevida de dinheiros públicos que vão passando pelas notícias como se fossem episódios de uma série a que já nos habituámos.

Do colapso do Banco Espírito Santo, que custou milhares de milhões aos contribuintes, ao caso Banco Português de Negócios, que continua a ser um dos maiores escândalos financeiros da nossa democracia. Dos processos mais recentes, como a Operação Influencer, a Operação Vórtex ou o caso Tutti Frutti, à sensação constante de que há sempre mais um episódio a caminho.

Não falo de condenações. Falo de um padrão. De uma sensação pública de impunidade. De uma fadiga colectiva perante processos que se arrastam, responsabilidades que se diluem e consequências que raramente parecem proporcionais ao dano causado.

E nós?

Nós vamos encolhendo os ombros.

Comentamos no café. Indignamo-nos nas redes sociais. Partilhamos uma notícia. Fazemos uma piada amarga. E depois seguimos a vida.

“Para o que nos roubam até não estamos mal.”

Não. Estamos mal precisamente porque começámos a achar esta frase normal.

Um país não é pobre apenas por falta de dinheiro. É pobre quando perde a capacidade de exigir. Quando aceita a mediocridade como destino. Quando transforma a indignação em folclore. Quando olha para os seus jovens a partir e chama-lhe mobilidade. Quando olha para os seus pobres e chama-lhe estatística. Quando olha para a corrupção e chama-lhe fatalidade.

Nada disto é inevitável.

Há poucos celebrámos o 25 de Abril de 1974.

Celebrámos a liberdade. Celebrámos a democracia. Celebrámos o fim de um regime onde não podíamos falar, votar ou exigir.

Mas a liberdade não é apenas um direito conquistado.

É uma responsabilidade permanente.

E talvez a pergunta mais incómoda que podemos fazer hoje seja esta:

O que estamos nós a fazer com a liberdade que herdámos?

Estamos a usá-la para exigir mais?

Ou para aceitar tudo com um encolher de ombros?

Porque há uma diferença enorme entre não poder falar… e poder falar e não dizer nada.

Entre não poder escolher… e escolher sempre o mesmo.

Entre não poder exigir… e simplesmente deixar de exigir.

Inevitável é o que aceitamos sem lutar. Inevitável é o que normalizamos por cansaço. Inevitável é o que deixamos crescer porque já não acreditamos que possa ser diferente.

Portugal não precisa de mais resignação. Precisa de exigência. Precisa de cidadãos que não se habituem ao pouco. Precisa de líderes que percebam que governar não é gerir sobrevivência. É criar futuro.

A pergunta que fica é simples.

Vamos continuar a repetir “para o que nos roubam até não estamos mal” como se fosse uma piada inteligente?

Ou vamos finalmente perceber que esta frase não é humor português?

É o retrato de um país que está perigosamente perto de desistir de si próprio.

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