“Partes Sensíveis”, de David Marques e Nuno Pinheiro: teatro de íntimas sombras

por Tiago Bartolomeu Costa,    28 Julho, 2025
“Partes Sensíveis”, de David Marques e Nuno Pinheiro: teatro de íntimas sombras
Fotografia de Beatriz Pequeno
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O som de um aspirador que percorre o espaço, inundando de uma musicalidade anestesiante os primeiros gestos de corpos sobre os quais pouco sabemos, abre um espetáculo que é uma consentida intromissão na vida de um casal ocupado a viver. É quanto baste para desacreditarmos em todo o real que David Marques e Nuno Pinheiro apresentam como verdadeiro e quotidiano, mas o suficiente para nos intrigar, e manter uma performance-intervenção que expõe o que é íntimo e esconde o que é realmente privado e importante.

“Partes Sensíveis”, de David Marques e Nuno Pinheiro é um curiosíssimo baile de sombras, de desvios, de truques e passos de dança, que trabalha a partir de uma premissa de exposição, mas sabe bem o que revelar, e como. É uma intervenção um no outro, e um para o outro, a que nos é dada a possibilidade de assistir, criando sentidos para o que é dito, mostrado e escutado. Faz-se mais na interpretação do que na confirmação, e isso transforma a riqueza e dedicada inteligência do desenho de movimento numa fronteira entre o reconhecível e o aproximado.

Fotografia de Beatriz Pequeno

Um diz: “A turbulência tem um papel importante no comportamento e na estrutura da troposfera.” O outro responde: “A turbulência tem um papel e nós também.” Antes de cada frase, anunciam-se: “Eu digo”.  Às vezes: “Eu digo. Tu sentes.” Outras ainda: “Tu dizes”. E, no espaço de encontro que vão construindo, e esvaziando, informam-nos, e a si mesmos, sobre regras, expetativas e frustrações, tão banais que se tornam, pela força do hábito, ficcionais, porque antecipam respostas e se permitem à reescrita.

As palavras deste teatro de íntimas sombras, como escreve João Manuel de Oliveira no texto que acompanha os diálogos da peça, “vistas de fora ganham outros contornos e enunciações”. São, “ritos para congelar o tempo, para ensaiar um para sempre sabendo que essa temporalidade nos é exterior, não temos como imaginar a nossa condição efémera.” Aquilo a que assistimos, numa constante ocultação pela palavra, pelo movimento replicado, pela transformação de um gesto de ação numa interpretação que suspende o próprio movimento, é da ordem do desaparecimento e da ilusão. No desfiar de gestos de aproximação, sejam de desejo ou de dúvida, combatem afincadamente uma colagem imediata e uma finitude na intimidade do casal, e fazem da nossa observação a possibilidade projetada de primeira resposta às dúvidas que ficam no espaço entre um e outro.

Esta dança enamorada, declarada, cheia de recados de um para o outro, como se fossem a intimidade quotidiana, porque exposta, poeticamente transformada em eternidade, acredita no espaço – o sideral –, no tempo – o eterno – e no corpo – a matéria feita à escala de quem o deseja – para os transformar em matéria de trabalho e de ação. O espaço, tomado pela presença dos dois corpos, e das suas vontades, é manipulado através de materiais distintos – areia, utensílios de limpeza, lençóis – aos quais se junta a voz, elemento sensorial, condutor e manipulador, que avisa, interpela e provoca, e sobretudo o olhar que um e outro concentram de tal modo na projeção que fazem da sua própria relação em palco, que torna comovedoramente púdica a nossa própria presença. Tornamo-nos, afinal, as partes sensíveis de um quotidiano que continua para lá do nosso olhar, na verdadeira intimidade que “Partes Sensíveis” ficcionou.

“Partes Sensíveis” estreou a 10 de Maio 2025 no Teatro Virgínia (Torres Novas) e apresentou-se no Teatro Municipal de Bragança a 12 de Junho. Pode ser visto em Lisboa, na Galeria ZBD, entre 27 e 29 Julho.

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