Peça “A gorda” com Maria Rueff, baseada no livro de Isabela Figueiredo estreia esta semana

por Lusa,    25 Março, 2026
Peça “A gorda” com Maria Rueff, baseada no livro de Isabela Figueiredo estreia esta semana
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Uma mulher que já não é gorda, mas que continua a pensar como se fosse, professora, presa numa reflexão sobre a sua história, domina a peça “A gorda”, estreia-se no sábado, no Teatro Estúdio lldefonso Valério, em Alverca.

Maria Luísa é a heroína da peça, e da obra de Isabela Figueiredo, personagem que Maria Rueff interpreta, numa encenação de Sofia de Portugal, a convite do diretor artístico da Companhia Cegada.

Com quarenta quilogramas a menos após ter feito uma gastrectomia, Maria Luísa continua a pensar como gorda apesar de o seu corpo ter mudado brutalmente. “Quarenta quilos é muito peso e foi os que eu perdi; quarenta quilos é realmente muito peso, é como ter perdido um gémeo siamês que estivesse agarrado a mim”, diz a personagem logo à partida.

Como se deixou chegar ao estado ao peso extremo, anterior à cirurgia, que vida foi a sua são interrogações que se impõem.

Como Sofia de Portugal disse à Lusa, “A Gorda” é uma história “sobre amor próprio com o Portugal contraditório e florescente do pós-25 de Abril como pano de fundo”.

Convidada para erguer a peça, que o diretor artístico do Cegada achava que devia ser dirigida por uma mulher, Sofia de Portugal pensou imediatamente fazer corresponder às diferentes partes do livro as diferentes “divisões da casa”.

“Se pensarmos em termos de andamento e partitura interior e diferentes temperaturas interiores, [a escritora] Isabela [Figueiredo] divide-nos pelas divisões da casa”, por isso “comecei por imaginar isso mesmo, ou seja, que cada cena seria dividida por divisões da casa e que as divisões ou o espaço físico poderia depois andar para a frente e para trás no tempo”, explicou a encenadora à Lusa.

“Através de um objeto ou através de uma qualquer ação poderia ver o tempo a andar para trás e para a frente em função daquele objeto naquela divisão”, precisou.

Apesar desta “primeira conceção” da peça que começou a desenhar muito cedo, Sofia de Portugal reuniu-se depois com a autora da obra a quem pediu que lhe “desenhasse num caderninho a casa” onde a ação se passa, o que a escritora fez e que deu mote a Marta Dias para fazer a versão cénica da obra.

“Mas já mediante estas diretrizes de dividirmos como eu estava a imaginar as diferentes divisões, o tempo de andar para a frente e para trás, depois comecei a fazer várias recolhas do texto que eu gostaria muito de ter presente”, explicou, sublinhando ter concluído que Maria Luísa “devia ser uma voz já com alguma maturidade”.

Uma “voz de muitos tempos, uma voz madura”. De imediato chegou a Maria Rueff, de quem fora colega de Conservatório.

Para Sofia de Portugal, Maria Luísa deve ser “uma mulher já no tempo presente e não noutros tempos”, embora a obra fale das memórias de “retornados” e das ex-colónias portuguesas, lembrou.

A encenadora ergue assim “A gorda” como uma voz que “pudesse andar para a frente e para trás no tempo e em que todos os tempos pudessem estar em cena em cada divisão da casa, com uma temperatura diferente”.

“Podemos visitar os fantasmas, as feridas emocionais e, ao mesmo tempo, ver a que é que isso corresponde em termos de maturidade no tempo presente, ou seja, poder andar para a frente e para trás na régua do tempo nas diferentes divisões, essa era a minha ideia”.

Daí que Maria Rueff enquanto Maria Luísa também “ande para trás e para a frente no tempo”. Por isso, umas vezes Maria Luísa aparece-nos mais nova, noutras, mais velha, “mas sempre como a narradora que reflete sobre a sua vida e sobre quem ela é na atualidade”.

Apesar da gastrectomia e da perda de quarenta quilogramas, Maria Luísa continua a dizer que “ainda é gorda, pensa como gorda e sente-se como gorda”, com tudo o que isso lhe acarretou no passado, como o ‘bullying’ de que foi vítima na escola e até na sociedade.

“A gorda” é também para Sofia de Portugal uma peça para “refletir sobre o direito à diferença”. “Porque é que não posso ser gorda? E porque é que não posso ser uma gorda linda?”, questionou, contrapondo com o facto de as pessoas terem de “ser arrastadas” pelos modelos de beleza da moda, “rejeitando-se muitas vezes como são”.

E, nessa perspetiva, as frases finais são “muito importantes” para a encenadora, com Maria Luísa a interrogar-se como é que não viu que era bonita, que era uma gorda bonita.

“Como é que deixei que os outros me achassem feia? Por que motivo é que deixei que aquilo que os outros disseram sobre mim tivesse mais valor do que aquilo que eu pensava sobre mim?”, questiona-se finalmente Maria Luísa.

Estas questões interessam à encenadora, porque procura contar a história sob esse ponto de vista e levar à reflexão. “Como é que eu não posso ser uma gorda maravilhosa? Porque é que estamos todos escravos deste tempo, destas imagens formatadas que conduzem para uma falta de autoestima, de toda a gente andar aqui a correr a tentar encaixar-se no padrão, a perder a identidade e a perder sei lá que partes de si próprio neste caminho?”, interroga Sofia de Portugal.

Na peça, Maria Luísa pergunta: “Como é que eu não me vi? Porque é que eu não me ouvi? Se eu sabia que tinha razão, porque é que ouvi os outros?”.

Com espaço cénico de Aurélio Alves e figurino de Dino Alves, “A gorda” vai estar em cena até 12 de abril, com récitas de quinta-feira a sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 16:00, no Teatro Estúdio lldefonso Valério, em Alverca.

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