Pedra, feminismo e poesia como resistência
A história de Shahd Wadi começa numa aldeia que já não existe no mapa. Al-Muzayri’a, a aldeia dos avós de Shahd, foi despovoada à força em julho de 1948, com os habitantes expulsos sob operações militares, e depois coberta por colonatos e pinhais para apagar vestígios. Shahd nunca lá entrou.
Na primeira vez que visitou a Palestina, ainda adolescente, com 15 ou 16 anos, Shahd Wadi só conseguiu ver de longe a montanha onde os avós nasceram. Desde então, carrega essa ausência como identidade. “A memória que eu tenho da minha vila é uma memória de impedimento”, diz.
Uma pedra trazida por amigos portugueses, resgatada entre trilhos turísticos israelitas, tornou-se altar íntimo e político: é o único contacto físico com a terra da família e, um dia, ser-lhe-á devolvida.
Essa pedra não é apenas objeto: é metáfora do feminismo de Shahd. Tal como a aldeia, o corpo das mulheres palestinianas foi alvo de apagamento e ocupação. Checkpoints onde mulheres foram impedidas de parir, universidades invadidas, organizações internacionais que reduzem a violência a questões “domésticas” ignorando a violência estrutural da ocupação. Daí a sua convicção: “Um feminismo que não luta pela liberdade da Palestina será, pelo menos, um feminismo incompleto.”
A genealogia não é recente. Desde o final do século XIX, camponesas palestinianas juntaram-se aos homens contra os primeiros colonatos. A luta contra o patriarcado nunca foi separada da luta anticolonial. Para Shahd, fragmentar é trair: liberdade não se divide.
É neste cruzamento que se expõe a contradição do feminismo global. Muitas correntes ocidentais, que se dizem progressistas, calam-se perante o genocídio em Gaza e a ocupação permanente na Cisjordânia. O silêncio é explicado como neutralidade, mas Shahd desmonta a falácia: não tomar posição é tomar o lado do opressor. Esse falso equilíbrio alimenta a narrativa de que existem “dois lados” equivalentes, quando há, de facto, um ocupante e um ocupado. Essa omissão é ainda mais grave se lembrarmos que o feminismo palestiniano não começou ontem nem nasceu como apêndice cultural.
Muito antes de Israel existir, já mulheres palestinianas se organizavam em associações e cooperativas agrícolas, sobretudo nas décadas de 1920 e 1930, para resistir ao mandato britânico e aos primeiros colonatos. A cooperativa não era apenas espaço económico: era também espaço de educação, de debate político e de afirmação da autonomia feminina. A memória dessas organizações mostra que a luta das mulheres pela terra, pelo pão e pela dignidade é parte estrutural da história da resistência palestiniana.
Israel usa há décadas a retórica dos direitos das mulheres e LGBTQ+ como instrumento de propaganda, mas foi a partir de 2005 que formalizou a campanha Brand Israel, investindo fortemente no pinkwashing para reconstruir a sua imagem internacional. Bandeiras arco-íris erguidas sobre ruínas em Gaza foram exibidas como símbolos de modernidade – mas sobre escombros, as cores não significam liberdade. Para Shahd, não é apenas cinismo: é apropriação de causas justas para encobrir crimes. A lógica repete-se em conferências internacionais, em festivais de cinema, até em séries televisivas com product placement de vinhos israelitas. A mensagem é clara: vender Israel como democrático e cosmopolita enquanto normaliza a ocupação. Mas, lembra Shahd, um feminismo que se presta a esse jogo não é feminismo; é cumplicidade.
Se a propaganda procura impor esquecimento, a poesia insiste em lembrar. “Em árabe, bait significa casa e significa verso.” Sem casa física, o verso é habitação. A família de Shahd, refugiada desde 1948, sempre preservou livros – o pai escritor, os tios copiando poemas à mão noite dentro. Hoje, em Gaza, poetas como Reba Abonada ou Rafat al-Harir escreveram até ao último instante, transformando a iminência da morte em afirmação da vida. Shahd junta a pedra da aldeia e o escorredor herdado da avó a esses versos: todos são casas provisórias que guardam um regresso.
No fundo, a entrevista com Shahd mostra como feminismo, memória e poesia não são dimensões separadas. São linhas de um mesmo fio que resiste ao apagamento. Uma pedra que lembra uma aldeia, um feminismo que não aceita ser neutro, um poema que insiste em viver: todos são fragmentos de uma mesma luta. E todos recusam desaparecer.
