“Pluribus”, de Vince Gilligan: o fim do “eu”
Este artigo pode conter spoilers.
“E pluribus unum” (de muitos, um), para os portugueses, é o lema do Sport Lisboa e Benfica, para os norte-americanos, porém, é um símbolo fundador que representa a união entre estados, juntos pelos ideais da democracia, do patriotismo e da diversidade cultural. É o lema laico norte-americano, sendo o oficial “In God we trust”. Será também a provocação que Vince Gilligan pretende com a sua nova série da Apple TV? A resposta é não, ou talvez… ninguém sabe ao certo. “Pluribus” assinala o regresso do criador de “Breaking Bad” ao pequeno ecrã. Ainda só estrearam três episódios, mas já há quem a proclame como “a série do ano”. E não é difícil perceber porquê. Gilligan nunca acreditou no herói clássico e sempre preferiu desconstrui-lo. A transformação de um Ned Flanders em “Scarface” resultou numa das melhores séries de sempre, que se ramificou no spin-off “Better Call Saul” e no filme “El Camino”. Agora, o autor regressa ao território onde foi feliz, a ficção científica. Afinal, antes de construir o seu universo na AMC, foi um dos argumentistas e produtores de “The X-Files”.
Levemos o lema à letra. Se de muitos fôssemos um, como seria o mundo? É essa a premissa central de “Pluribus”, onde a humanidade passa a operar como uma hive mind, uma consciência coletiva que se propaga como um vírus e que torna toda a gente feliz. Paz na Terra, por fim. Ou quase. Porque há, pelo menos, uma exceção.
Carol (Rhea Seehorn) é autora de bestsellers de aeroporto, que misturam fantasia e erotismo barato. Idolatrada por uma legião de fãs, vive entre sessões de autógrafos, jantares caros e viagens à Riviera Francesa (pelo menos, de acordo com o seu voicemail), mas carrega um já familiar vazio existencial. Nas suas próprias palavras, escreve “mindless crap”. Misantropa por natureza, resigna-se ao conforto da vida que construiu até perceber que é, aparentemente, a única norte-americana imune ao “vírus” da felicidade. Como ela, existem 11 pessoas no mundo, 5 das quais falam inglês. Carol, ao contrário delas, recusa-se a embarcar no peace train e a ver o potencial utópico dessa nova consciência global. Parte da sua resistência vem do seu luto por Helen (Miriam Shor), a sua companheira, que não sobreviveu às primeiras convulsões provocadas pelo evento.
Uma utopia distópica
Embora distopia e utopia pareçam conceitos antagónicos, não é raro que se cruzem, sobretudo na ficção científica. Em “Admirável Mundo Novo”, por exemplo, Aldous Huxley imaginou um futuro aparentemente risonho, no qual a humanidade vive em perfeita harmonia social, livre de guerras, pobreza ou sofrimento. A felicidade é garantida por uma combinação de engenharia genética, condicionamento psicológico e uma droga milagrosa, a Soma, que elimina qualquer traço de angústia. No entanto, atrás desse futuro ideal, esconde-se uma sociedade profundamente desigual.

O que Huxley, tal como Gilligan, não esquecem é que humanos são feitos carne, osso e de erros. Se a linguagem estrutura o pensamento e se a nossa linguagem é, por natureza, imperfeita, é lógico que também o pensamento o seja. O problema nasce na passagem do significante ao significado, de uma crise semiótica e semântica que alimenta desentendimentos, crenças disfuncionais e paradoxos.
Lembro-me do discurso de Rust Cohle em “True Detective”: “Certain linguistic anthropologists think that religion is a language virus that rewrites pathways in the brain, dulls critical thinking.” A linguagem, como um vírus, infiltra-se na mente e molda perceções, crenças e ideias. É também um conceito próximo do que Richard Dawkins explorou quando cunhou o termo (hoje popularizado) “meme”. Na sua obra “O Gene Egoísta”, o biólogo britânico descreve o “meme” como uma unidade cultural — um fragmento de uma ideia, crença ou comportamento — que se instala na memória coletiva, sofre mutações subtis e é transmitido de geração em geração, tal como um gene.
Uma das grandes obsessões das distopias sci-fi tem sido a pergunta “o que nos torna humanos?”. De “Blade Runner” a “Ex Machina”, de “Her” a “Arrival”, a ficção científica habituou-nos a esta contemplação sobre a natureza da consciência, emoções e identidade. Está na própria génese do género, desde Mary Shelley até H. P. Lovecraft, esta pulsão para usar o inexplicável e o cósmico como forma de incidir uma luz sobre a humanidade. Mas perante esta abundância de interpretações, como distinguir o essencial do acessório (isto se o quisermos fazer)? A fórmula não é muito diferente da do cinema de terror: retiramos o monstro e observamos o que sobra. O que permanece quando excluímos o elemento fantástico que sustenta a premissa? O que é que fica quando olhamos apenas para as personagens, para as suas escolhas, para o que as move?
“Com uma consciência coletiva e partilhada, à semelhança da sugerida em “Pluribus”, deixaria de haver lugar para o desentendimento. Se todos nos compreendêssemos na perfeição, desapareceriam os conflitos, as ambiguidades e as falhas de comunicação. Restaria apenas a cooperação, uma humanidade movida por um único propósito, a trabalhar em uníssono por um bem comum, como uma colónia de formigas ou uma colmeia de abelhas. Mas é precisamente o desentendimento que nos garante a individualidade. É na fricção entre perspetivas, na pluralidade de interpretações, que se manifesta a singularidade. Discordar é, paradoxalmente, o que nos une enquanto seres conscientes, o erro, o mal-entendido e o conflito são as margens que definem o “eu” perante o “outro”.”
Apliquemos o exercício a “Pluribus”. Se retirarmos o fenómeno da mente-colmeia, dos códigos encriptados alienígenas, ficamos com a história de uma protagonista que escreve romances que considera medíocres, mas que, ironicamente, lhe garantem uma vida confortável e fazem milhares de leitores felizes. O sucesso de Carol assenta numa certa pobreza de espírito, não no sentido moral, mas o exercício auto-consciente de perceber que aquilo que produz está longe de ser considerado “Grande Literatura”. Essa lucidez, que a diminui, é também aquilo que a torna competente. É precisamente por ter um olhar clínico sobre o que faz, que o faz tão bem, mas é também por isso que não deixa de se sentir uma fraude.
Podemos levar o exercício de análise ainda mais longe. E se toda a humanidade (mesmo sem uma mente-colmeia) concordasse em tudo, menos Carol? Ficamos com alguém isolado. E se toda a humanidade estivesse feliz, menos ela? Ficamos com alguém triste, isolado e, muito provavelmente, ressabiado. Unanimidade global implica solidão absoluta para o único dissidente se este não se esforçar por acreditar que um dia pode ser “aceite”.
Esse sentimento não é estranho à nossa era. Vivemos tempos de certezas e opiniões blindadas, de reforço constante das próprias convicções. Quem pensa diferente ou simplesmente não alinha em determinado discurso, fica facilmente ostracizado, quase culpado por não partilhar do mesmo entusiasmo ou da mesma verdade. Carol representa essa fricção moderna, a de quem não consegue ou não quer aderir ao consenso, mesmo quando esse consenso promete felicidade.
Não creio com isto sugerir que Gilligan procura traçar um paralelo direto com as chamadas “echo chambers”, um termo que vemos associado ao reforço da própria opinião, sem abertura para opiniões externas, no contexto das redes sociais. Até porque acredito que não exista, em “Pluribus”, uma grande metáfora à vista, nem um símbolo evidente que resuma “sobre o que é” a série, tal como não existia em “The Thing” ou “The Fog”, de John Carpenter ou nos episódios da antologia “The Twilight Zone”. “Pluribus” parece, antes, interessar-se em testar a fronteira entre utopia e distopia e a testar a elasticidade destes conceitos através da manipulação do género, tema, conflito e das dimensões das personagens. Um exercício que nos recorda “Severance“, também da Apple TV. Parte-se de uma premissa sólida e intrigante, mas sem a necessidade de a decifrar de imediato. Não parecem haver respostas fáceis, no mesmo sentido em que não parecem existir respostas certas. E, por norma, isso é sinal de bom drama.
Por enquanto, utopia e distopia confundem-se. Gilligan não nos dá uma mensagem clara. Convida-nos a questionar a protagonista e as escolhas que faz, leva-nos a compreendê-la e, ao mesmo tempo, a discordar dela. Obriga-nos, em simultâneo, a empatizar com ela. Ao contrário de Carol, o espectador quer compreender o fenómeno e quer, sobretudo, perceber porque razão ela não quer compreendê-lo tanto quanto nós. Somos empurrados para o questionamento e, como tal, para a intriga. Será que ela está certa? Será que Eles estão certos? Será assim tão positivo partilhar uma consciência? Poderá este ser o caminho para uma maior concordância? Ou é simplesmente o fim do mundo tal como o conhecemos?
O humano omnipresente
Com uma consciência coletiva e partilhada, à semelhança da sugerida em “Pluribus”, deixaria de haver lugar para o desentendimento. Se todos nos compreendêssemos na perfeição, desapareceriam os conflitos, as ambiguidades e as falhas de comunicação. Restaria apenas a cooperação, uma humanidade movida por um único propósito, a trabalhar em uníssono por um bem comum, como uma colónia de formigas ou uma colmeia de abelhas. Mas é precisamente o desentendimento que nos garante a individualidade. É na fricção entre perspetivas, na pluralidade de interpretações, que se manifesta a singularidade. Discordar é, paradoxalmente, o que nos une enquanto seres conscientes, o erro, o mal-entendido e o conflito são as margens que definem o “eu” perante o “outro”. Ou, pelo menos, parece ser nisso que a protagonista, Carol, acredita.
Durante os primeiros episódios, Carol não encara a mudança como a “salvação da humanidade”, mas antes como a derrota da mesma. Disse-o Saramago, na voz da Rapariga de Óculos Escuros, em “Ensaio Sobre a Cegueira”: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. É isso que somos”. E Carol não parece querer abdicar dessa coisa sem nome. À superfície, podemos ler nela o reflexo de um certo egocentrismo estereotipadamente norte-americano, a convicção de que a sua forma de ver o mundo é a correta, e de que a individualidade e a privacidade são direitos a preservar a todo o custo. Uma Carol transformada em Karen. À sua volta, as outras cinco personagens parecem acreditar que o “vírus” trouxe o melhor dos futuros possíveis. Afinal, pela primeira vez na história, não existem homicídios, roubos, violações ou violência premeditada. O racismo, a misoginia e a discriminação desapareceram. Como poderia isso ser uma coisa má?
Mas Carol acredita que, nesse novo mundo, as pessoas deixaram de ser pessoas. A construção simbólica do “eu” desapareceu, apesar de Eles (leia-se, toda a humanidade) garantirem que “your life is your own”. Uma das principais resistentes às ideias de Carol defende que “O meu filho (uma criança) ainda é o meu filho.” Ao que Carol contra argumenta: “O seu filho, agora, é capaz de fazer uma cirurgia de peito aberto.” No subtexto, para Carol, as pessoas são elas e a soma dos seus contextos e imperfeições. Liberdade é sinónimo de liberdade para errar e de se ser imperfeito porque, na diferença, está na essência do ser. Não obstante, a premissa d’Eles é tentadora. Se todos refletíssemos sobre o futuro da espécie dentro deste coro de consciência partilhada, talvez não houvesse lugar para a tragédia, dor ou sofrimento. Por detrás dessa utopia está uma ideia, talvez simplista, mas muito badalada: “não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti.” Só que, neste caso, nós somos os outros — “We are us”, como indica o título do episódio piloto — e, se assim for, desejar o melhor para o outro equivale a desejar o melhor para nós mesmos. A empatia tornar-se-ia lei natural, e a humanidade, em consequência, finalmente justa. Mas partilhar um único espaço de consciência é também trair a própria natureza humana, no sentido de dissolver aquilo que nos torna únicos naquilo que é comum.
O filósofo francês Paul Ricoeur sugere que a identidade do sujeito se define pela articulação entre o relato e a experiência, constituindo-se no próprio ato de narrar como uma forma dinâmica de continuidade no tempo. O “eu” surge, deste modo, como uma figura em permanente (re)construção. Redefinindo-se através da performatividade. “O que fazer? Como agir? Quem ser?”, são questões, que o sociólogo Anthony Giddens, na sua obra “Modernity and Self-Identity”, identifica como centrais na experiência individual contemporânea, definem o horizonte reflexivo através do qual o sujeito constrói e negocia a sua própria identidade. As respostas a essas interrogações manifestam-se tanto no plano discursivo quanto na conduta quotidiana, revelando que o “eu” se constitui performativamente, no decurso das suas práticas e relações. Se entendermos a identidade como efeito dessa contínua encenação do quotidiano — marcada pela repetição, pela adaptação e pela resposta às normas sociais —, ela deixa de ser um estado fixo para se afirmar como processo. Nesse sentido, como propõe Stuart Hall: “em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento”, sempre aberto à transformação. Se dissolvermos estas perguntas — “O que fazer? Como agir? Quem ser?” — estamos, pelo menos na mente da protagonista de “Pluribus”, automaticamente, a negar a nossa humanidade.
“Há nela um conformismo para com a infelicidade, talvez porque saiba que, mesmo sendo infeliz, o é à sua maneira. A felicidade pode ser universal, mas a dor é sempre individual, uma experiência subjetiva e, por isso, única. Não há dois sofrimentos semelhantes. E é precisamente nesse desequilíbrio que reside a nossa “humanidade”. Na promessa de uma felicidade absoluta, há sempre uma forma de controlo.”
Quando Carol se junta às outras cinco pessoas imunes, todas se espantam com a sua frieza. Nenhuma entende porque é que ela não faz a pergunta óbvia de como é viver dentro daquela consciência partilhada, dessa espécie de paraíso emocional onde já não há dor nem solidão. Ao que Carol explica ser suficientemente inteligente para saber que não se pede a um toxicodependente que descreva a experiência com a heroína. No especial “Louis C.K.: Live at the Beacon Theatre”, o humorista confessa a dificuldade de explicar às filhas porque é que as drogas são más: “All drugs are a perfect solution to every problem you have right now. How do you beat that? Drugs are so fucking good, they’ll ruin your life.” Carol parece perceber o mesmo relativamente à felicidade. Que se drenarmos toda a melancolia, não sobra a felicidade, mas sim apenas uma serenidade inquietante, uma dormência.
Há nela um conformismo para com a infelicidade, talvez porque saiba que, mesmo sendo infeliz, o é à sua maneira. A felicidade pode ser universal, mas a dor é sempre individual, uma experiência subjetiva e, por isso, única. Não há dois sofrimentos semelhantes. E é precisamente nesse desequilíbrio que reside a nossa “humanidade”. Na promessa de uma felicidade absoluta, há sempre uma forma de controlo.
Carol não quer abdicar do controlo que tem sobre as próprias emoções, mesmo que isso implique nunca mais voltar a sentir algo negativo e mesmo que, na prática, esteja a prejudicar a humanidade inteira. Até ali, ela parece ser a única a contribuir para tornar o mundo pior. “Eles” (vistos como a humanidade unificada numa só consciência) caminham para a paz absoluta. Ela, sozinha, é um entrave a que isso aconteça. Vince Gilligan descreve a premissa de forma cristalina: “the most miserable person on earth tries to save the world from happiness”.

Como já referi, Gilligan não aprecia o herói convencional e prefere subverter a lógica narrativa que o define. Se em “Breaking Bad” assistimos a uma descida em Ícaro, aqui contemplamos um arco distinto, em que a protagonista não ascende, nem cai, apenas resiste. Aquilo que todos encaram como uma necessidade, ela rejeita. Recusa a mudança. Mas essa rejeição nasce do desconhecimento. Carol quer preservar o mundo como ele era porque é o único mundo que conhece, um mundo imperfeito e previsível, onde a dor faz parte da equação.
Ao mesmo tempo, ela percebe que o verdadeiro motivo da sua recusa é simples, visto que ela não sabe o que é aquela mega-consciência. A partir do momento em que souber, teme passar a querê-la e que, após isso acontecer, nunca mais queira voltar. “Drugs are so fucking good they’ll ruin your life”.
“O fim do progressismo no momento em que alcança o progresso absoluto. O progressismo levado tão longe que se torna num conservadorismo do próprio progresso. Porque se a paz absoluta elimina todos os impulsos destrutivos, elimina também aqueles que nos obrigam a questionar, a discordar, a transgredir. E sem essa fricção, sem esse confronto, o que resta é uma humanidade imóvel, cristalizada numa espécie de perfeição estéril.”
Podemos encarar a teimosia de Carol como egoísmo, mas é importante perceber que o que está realmente em causa, pelo menos no seu entendimento, é renunciar à condição humana. Porque a humanidade omnipresente, perfeita e total, deixa de ser humana. O humano omnipresente é, afinal, Deus. E Carol não está pronta para entregar o seu livre-arbítrio a um deus que não escolheu.
No entanto, não há escapatória à vista, porque o ego é o maior aliado da individualidade e, ao mesmo tempo, o maior inimigo do coletivo, mesmo quando o coletivo é o melhor para o individual. Guerra, ganância, diferenças sociais, culturais e de classe assentam todas em princípios do ego. É aqui que “Pluribus” encontra o seu motor de conflito. Não é um dilema tecnológico, nem um mistério alienígena, mas uma convicção filosófica que divide a protagonista do resto do mundo.
Paz na terra… e então?
Em “Pastoral Americana”, Philip Roth apresenta-nos Merry Levov, a filha de Seymour Levov, que cresce num ambiente aparentemente perfeito, rodeada de estabilidade e bons princípios. Mas essa paz da era dourada norte-americana, não consegue proteger Merry de uma profunda inquietação. A jovem, com uma perturbação da fluência da fala desde criança e sempre em conflito com a própria voz, procura desesperadamente uma causa que lhe dê sentido. Acaba por se radicalizar, envolve-se em movimentos contra a guerra do Vietname e, num ato de rutura total com o conforto moral da família, comete um atentado. A paz nunca lhe bastou. Faltava-lhe fricção, conflito, uma forma de insurgência que compensasse um qualquer vácuo existencial. Acaba por desaparecer do mundo para se entregar radicalmente ao ascetismo. Junta-se a um grupo de inspiração jainista, cobre a boca com um lenço para não matar organismos ao respirar.

Quando olhamos para o “Eles” de “Pluribus”, agora transformados num coletivo vegetariano, incapaz de matar sequer um inseto por medo de causar sofrimento, é difícil não rever um pouco dessa filosofia. Uma humanidade hipersensível, purificada, moralmente impecável. O fim do progressismo no momento em que alcança o progresso absoluto. O progressismo levado tão longe que se torna num conservadorismo do próprio progresso. Porque se a paz absoluta elimina todos os impulsos destrutivos, elimina também aqueles que nos obrigam a questionar, a discordar, a transgredir. E sem essa fricção, sem esse confronto, o que resta é uma humanidade imóvel, cristalizada numa espécie de perfeição estéril.
Não creio que Carol encare tudo isto dessa forma, pelo menos não de maneira consciente. Ainda é cedo para tirar conclusões sobre o que poderá ser, afinal, o principal motivo da sua resistência à hive-mind. O que parece evidente, por agora, é que a protagonista não quer abdicar da sua condição humana para passar a operar como parte de “um todo”. Uma das suas maiores preocupações é a possibilidade de Eles lhe lerem a mente, mesmo quando garantem que podem fazê-lo, mas não o farão. Afinal, Eles são a expressão máxima da compreensão.
Carol, imagino, quer preservar o seu direito à privacidade porque isso significa manter algum controlo sobre o “eu”. Quer conservar a capacidade de mentir, de enganar, de se iludir e mesmo de iludir os outros, porque essas falhas são libertadoras. São parte da imperfeição que a define. E abdicar disso seria abdicar de si.
“We are, in reality, somewhat split in two, the self and the body; the one hidden, the other open. The child learns very quickly to cultivate this private self because it puts a barrier between him and the demands of the world. He learns he can keep secrets—at first an excruciating, intolerable burden: it seems that the outer world has every right to penetrate into his self and that the parents could automatically do so if they wished—they always seem to know just what he is thinking and feeling. But then he discovers that he can lie and not be found out: it is a great and liberating moment (…)”
Ernest Becker, em “The Birth and Death of Meaning: An Interdisciplinary Perspective on the Problem of Man”
Na lógica cartesiana “Penso, logo existo”. Mas, se passo a pensar como um todo, então não penso, porque há quem pense por mim. O meu pensamento passa a ser dos outros e vice-versa, portanto deixa de ser meu. Não penso, pensamos, e, se não penso, não existo, ou, então, existimos. O eu é anulado. Mas até que ponto isso não acontece fora da ficção?
Se convocarmos a ideia de “tecnologia do eu”, proposta por Michel Foucault, percebemos que aquilo a que chamamos “verdadeiro eu” é, na realidade, uma construção interna moldada pela standardização das normas e discursos sociais. Os indivíduos internalizam essas normas e policiam-se a si próprios com medo de serem vigiados. Essa vigilância interior padroniza comportamentos e crenças, no entendimento do filósofo francês, perpetua o discurso dominante e reforça as estruturas de poder.
De certa forma, já vivemos em “Pluribus”. Já pensamos do coletivo para o individual. Já interiorizamos comportamentos, crenças e ideias para depois nos vigiarmos constantemente de modo a garantir que cumprimos os critérios do que é aceitável em determinada doutrina ou padrão comportamental. Foucault desafia-nos, assim, a observar como as estruturas de poder moldam o nosso pensamento. Porém, se todos nos monitorizarmos internamente uns aos outros, tal como em “Pluribus”, abdicamos da possibilidade de discernir entre o que está certo e o que está errado. Perdemos a escolha. O dogma instala-se. Chegámos a um consenso. A morte do “eu” e, com isso, paz na terra. Com o fim da imperfeição, chega também o fim da humanidade.
