Populismo moderno e teatro presidencial
A democracia vive hoje um paradoxo inquietante: nunca se falou tanto em “povo”, “liberdade” e “vontade popular” e, ainda assim, raramente esses conceitos foram tão esvaziados de conteúdo. O populismo moderno instalou-se no coração do espaço público não como ruptura violenta, mas como encenação permanente. Um teatro político onde a forma se sobrepõe ao conteúdo e onde o gesto vale mais do que o argumento. O recente debate sobre a desinformação associada às eleições presidenciais portuguesas expôs esse fenómeno com particular clareza, revelando como o processo democrático pode ser transformado em espetáculo.
No ensaio “Fascismo e Populismo”, Antonio Scurati descreve o populismo contemporâneo como uma patologia da democracia que não a enfrenta de frente, mas a habita e a desgasta por dentro. Não se apresenta como inimigo do regime democrático. Pelo contrário, apropria-se da sua linguagem, dos seus símbolos e dos seus rituais, esvaziando-os de densidade política e moral. A democracia permanece de pé, mas perde espessura; mantém-se o cenário, desaparece o conteúdo.
É neste contexto que a desinformação assume um papel estrutural, não apenas como mentira deliberada, mas como ambiente cultural. A política deixa de ser espaço de mediação e passa a funcionar como sucessão de estímulos emocionais — em períodos eleitorais, esta lógica intensifica-se. A campanha transforma-se num fluxo contínuo de imagens, slogans e indignações, onde a verificação dos factos cede lugar à eficácia do impacto. O eleitor não é convocado a compreender, mas a reagir.
O populismo moderno prospera neste cenário porque compreendeu algo essencial: numa democracia fatigada, a política-espetáculo é mais eficaz do que a política do argumento. A complexidade é apresentada como elitismo, a ponderação como fraqueza e a dúvida como suspeição. A linguagem democrática é reduzida a um vocabulário de confronto permanente, onde a exceção se torna regra e o conflito substitui a deliberação.
Talvez por isso não surpreenda que o teatro presidencial contemporâneo produza imagens que roçam o absurdo. A figura de um indivíduo de farda, investido de uma autoridade simbólica que a própria República historicamente procurou subordinar ao poder civil, a esbracejar contra a igualdade e contra valores basilares do regime democrático, não é apenas uma provocação isolada. É um sintoma, um gesto performativo cuidadosamente inserido num palco político que privilegia a disrupção visual e a indignação instantânea.
A força dessa imagem não reside no seu conteúdo político, mas no que ela comunica simbolicamente. A farda, que numa democracia republicana deve representar neutralidade institucional e submissão à lei, é instrumentalizada como adereço cénico. O discurso contra a igualdade, princípio estruturante da República, surge não como proposta política séria, mas como ato de transgressão calculada.
Este tipo de encenação revela um dos traços mais perigosos do populismo moderno: a normalização da deslegitimação dos valores republicanos através do espetáculo. A igualdade deixa de ser fundamento constitucional e passa a ser tema opinativo. A separação entre poder simbólico e poder político esbate-se. As instituições, quando reagem, são acusadas de censura ou perseguição. A aplicação normal das regras democráticas é apresentada como hostilidade ao “povo”.
Uma abordagem centrada e responsável exige reconhecer que a liberdade de expressão é pilar essencial da democracia, mas que ela não existe fora de um quadro de valores comuns. A República não é apenas um método de escolha de governantes. É um compromisso coletivo com princípios como a igualdade, a dignidade humana e o primado do Estado de Direito. Quando esses princípios são transformados em objetos de escárnio performativo, o problema não é apenas político, é cultural.
O populismo moderno revela-se, assim, menos como alternativa ideológica e mais como forma de erosão simbólica. Alimenta-se do desencanto, da frustração e da sensação de abandono, mas responde-lhes com teatro em vez de projeto. Substitui a política pela encenação e a cidadania pela audiência. O risco não está apenas na radicalização, mas na habituação, que o absurdo se torne efetivamente familiar.
Como recorda Scurati, os grandes processos de degradação democrática raramente começam com golpes ou rutura institucional. Começam com linguagem, com imagens e com a aceitação progressiva de que tudo pode ser transformado em espetáculo. Defender a democracia, hoje, implica também recusar o teatro mediático quando ele ameaça engolir-nos.

