Por que razão a telescola devia continuar

por Ana Isabel Fernandes,    29 Abril, 2020
Por que razão a telescola devia continuar
Fotografia de Changbok / Unsplash
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Pode parecer estranho o que vou escrever e defender neste artigo, tendo em vista a maioria dos comentários sobre a telescola. Ora é a professora de Educação Física do terceiro e quarto ano que parece que tem energia a mais e, vejam só, fica mesmo cansada enquanto dá uma aula de … Educação Física. Ora é a professora de Português do 1.º e 2.º anos que diz ‘OK’ muitas vezes, ora são as matérias, ora é isto ou é aquilo, e não há jeito da malta ficar contente, não é verdade? Pois bem, não só fiquei uma completa aficionada da telescola (completamente viciada) como acho o resultado bastante positivo. Aliás, vou mais longe e defendo a sua continuação, não obviamente como modelo escolar (discutir a escola é muito mais do que isto, há outras reflexões mais profundas a ter em conta e esta é uma situação temporária em momento de crise, eu sei) mas enquanto modelo televisivo. Passo já, sem demoras, a explicar o porquê e a razão pela qual penso que não seria um projecto votado ao total fracasso, ao contrário do que se possa crer, se for pensado, no futuro, também para o público em geral e não, apenas, para a comunidade estudantil.

Enquanto modelo televisivo, não obstante ser notória, em alguns casos, a falta de preparação de uma certa parte dos professores face às câmaras (o que até pode ter encanto), reparei em algumas coisas bastante curiosas no que diz respeito ao papel da televisão em si. Qual foi a principal modificação das últimas duas décadas na forma como acedemos aos conteúdos televisivos? Ora bem, antes tínhamos quatro canais generalistas, depois veio o cabo e passamos a poder aceder a canais temáticos. Depois dos canais temáticos veio o youtube que (apesar do bom e do muito mau) ofereceu-nos uma maior autonomia daquilo que queremos ver e, se repararmos na forma como as operadoras de comunicação organizaram o backoffice da programação e como podemos aceder a ela, há uma segmentação que dá um maior controlo ao telespectador caso esteja com vontade de ver um filme, um documentário, telejornais ou o que quer seja. Onde quero chegar? Uma das maiores transformação foi, mesmo, a possibilidade de podermos aceder aos conteúdos por temas, consoante o nosso interesse.

Ora, não pude deixar de pensar nisso quando, no passado dia 20, queria ver, então, o projecto, acedi às gravações e lá estavam à minha frente os vários temas (falando em contexto televisivo) referentes às várias disciplinas Português, Francês, Matemática, Espanhol, Ciências Naturais e por aí em diante. O que eu pensei enquanto telespectadora foi, “há aqui um largo leque de categorias à minha frente e com pessoal (neste caso os professores) oficializado para os abordar.” Agora perguntam, e muito bem, mas na internet não está lá a informação toda? Até pode estar, mas uma pessoa vê-se e deseja-se para encontrar informação credível administrada por quem saiba do assunto esta é a principal diferença e é por isso que se cometem muitos erros e devemos, sempre, questionar, de alguma forma, a informação que advém da internet. Aqui haveria, pelo menos, a questão da orientação e a capacidade de se dar o verdadeiro valor que os conteúdos têm. Independentemente dos possíveis erros aos quais qualquer actividade está sujeita (meus caros, a isso chama-se vida) pelo menos há a obrigação de um professor, a nível de conhecimento, saber do que fala. Outra questão –de alguma forma, todos nós desempenhamos actividades susceptíveis de se relacionarem a uma determinada disciplina ou, então, acalentamos aquele gostinho secreto de aprender mais sobre determinada área. Quem o quiser, esta é a oportunidade. Outra coisa que funciona muito bem a favor da telescola é o tempo em si blocos de 30, não muito mais do que isso, sem as aulas de 90 minutos. A nível televisivo (é disso que estamos a falar) é um tempo regular que funciona bem para estes temas.

Como espectadores temos, portanto, acesso a diversas áreas do saber, de fonte certificada, e acessíveis em blocos não demasiado extensos. Agora voltam a perguntar. Mas sem a obrigação escolar, sem serem os miúdos, quem é que iria ligar à telescola? Mais uma vez, a questão não é assim tão simples, meus caros. Pensem na quantidade de pessoas que precisam mesmo ou gostariam de sedimentar ou ganhar conhecimentos básicos de inglês e não podem pagar 70 euros por mês naquela escola que nós sabemos. Quem diz inglês diz outras línguas como, por exemplo, espanhol ou alemão (estou a seguir as aulas). As línguas, pelo menos, são mesmo essenciais se pensarmos que queremos, no futuro, ganhar a mesma possibilidade de mobilidade. Neste campo o céu seria o limite. Pela quantidade de jovens que gostam de anime, imagino até que aulas de japonês fariam sucesso, mas não só.

A questão do exercício físico, que é cada vez mais importante, até porque as pessoas procuram cada vez mais estilos de vida saudáveis (não estou a fazer moralizações, a esse nível cada um sabe de si) também seria uma mais valia, principalmente se administrassem exemplos de exercícios que se podem fazer em casa. A questão é a seguinte. À parte os youtubers que pouco ou nada acrescentam, a verdade é que há cada vez mais pessoas que procuram essa plataforma para aprenderem algo ou uma actividade lúdica qualquer através de vídeos. O meu pai, por exemplo. Quantas pessoas saíram das aulas de Educação Visual sem saberem os processos básico de desenhar uma cara mas gostariam, por exemplo, como eu? O que não faltam são jovens também interessados, se pensarmos que há, até, uma fase da adolescência em que a arte ganha um pendor mais cool a complexidade da existencial da vida vem depois, não se preocupem que ela vem. O que quero dizer, é que há a possibilidade de adaptarmos este projecto a uma modelo mais televisivo e de correr bem. É claro que teriam de ser feitas adaptações para o público em geral, embora os alunos pudessem aproveitar de uma forma mais livre como complemento. Os conteúdos poderiam ser administrados por professores sem colocação ou, então,  poder-se-iam elaborar pequenos  blocos informativos da mesma forma que se realizam pequenos documentários. É só pensar no assunto.  Seria sempre uma mais valia que estaria acessível, o serviço público estaria a fazer a sua missão e ganharíamos todos. Teria, claro, de haver interesse, mas é sempre mais fácil dizer-se que só se faz aquilo que o público quer ver, como se isso não culminasse na questão do ovo e da galinha. Além disso, dá sempre gosto reparar que a telescola já ultrapassou em audiências os programas da manhã da TV generalista, por exemplo sim, sim, eu sei, mesmo que os alunos tenham de ver.

Os problemas que atravessamos a nível da comunicação têm a ver com aquilo que ainda não se fez a nível democrático. Não basta lançarmos a pessoa para a jaula da internet e acharmos que isso basta, porque não, não basta. Precisamos de educação para os média, aprender a lidar com a informação, orientação, acessos garantidos (todos nós vimos o drama de alguns dos alunos que ainda não possuem computador) e esta pode ser uma forma boa de se utilizar a televisão de uma forma mais actual para algo extremamente útil. Claro que teria de ser bem pensado, mas não era impossível. Só um parêntesis, eu não estou a discutir a escola em si neste artigo, estou a discutir conteúdos televisivos.

Confesso, no entanto, que ver a telescola, para mim, até foi uma experiência boa porque, em primeiro lugar, e ainda não vi ninguém a referir isso, alguns professores de áreas diferentes estão a ter o cuidado de relacionar temas ou estabelecerem pontes com outras áreas. Por exemplo, na primeira aula dada a professora de português falou da história ‘A casa da mosca fosca’. Como era um livro com ilustrações de diversos animais, vai daí a professora de Estudo do Meio pega nessas ilustrações para abordar as diferentes categorias dos animais. Tenho gostado, igualmente, das aulas de Educação Artística porque, em primeiro lugar, está a ter mais abrangência do que, propriamente, Educação Visual e  Música (professora Ângela, és a maior). A segunda aula desta disciplina foi dedicada à dança e ao teatro, o que, por si só, já foi muito bom. Podem dizer, mas aquela aula não valeu nada, só estavam a andar à maluca pelo estúdio. Errado, meus queridos, e se pensam assim, é sinal de que precisam da telescola. O que as professoras fizeram pareceu simples, mas tem uma importância tamanha. Se enquanto criança tivesse feito mais exercícios destes teria sido muito mais feliz. Mas bem, é um outro exemplo muito bem conseguido de pontes entre diversas áreas, neste caso dança, teatro e desenho isso mesmo, o desenho. Uma vez que na aula anterior de Educação Visual, além da texturas, abordaram-se os pontos e as linhas, as professoras de dança e teatro tentaram fazer essas formas com o próprio corpo brincando e estimulando exercícios de associação com as formas. No fundo, o cerne da criatividade é isto.

Já nas aulas de Ciências aproveitei um esquema sobre a estrutura do sistema nervoso humano e a Educação Física tem-me ajudado a desentorpecer o corpo. Uma vez que já fiz cinesioterapia, tenho aproveitado, essencialmente, exercícios de alongamentos que contêm elementos que se assemelham à cinese. Portanto, programadores, pensem no assunto com carinho e com boa vontade, até porque não sei como hei-de alimentar o meu vício quando a telescola acabar.

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