Porto de abrigo
Quando o avião começou a descer para aterrar em Hamburgo, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: Castorp! Como numa história de Rui Manuel Amaral, o nome surge com estrondo. Castorp, Hans – o menino rico de Hamburgo que é o anti-herói da obra-prima de Thomas Mann, a Montanha Mágica, um dos livros de viagem mais formidáveis que li. Depois fechei os olhos, e procurei outro ponto de referência. O que me veio à cabeça foi Roth, Joseph – o enfant terrible da literatura germânica, numa altura em que Mann era o seu patriarca – e belíssimas crónicas que escreveu em diários alemães sobre as suas viagens na Europa. Terá dito algo sobre Hamburgo? Não me recordo. Mas se disse, o que terá sido?
Terá falado sobre os canais, por certo. Esta é uma cidade portuária como manda o conceito. Ruas, prédios, tudo construído por cima do que parece ser um gigantesco cais. O céu cinzento como a neblina marítima, mas com uma temperatura que parece asiática, tal o grau de humidade. Muitas bicicletas, muitas árvores, bastante elegância. Na área de St. Pauli a boémia tem um ar datado, algo kitsch (talvez, se quisesse ser simpático, pudesse dizer vintage) do que noutros sítios. Na cidade é tudo muito alto, grande, espaçoso. Não fui ao porto propriamente dito, fiquei-me pela visão do Elba pela janela do avião, aquela língua de água que vai penetrando a terra até desembocar naquele pedaço que é a cidade.
Num passeio matinal acabei por ir parar à igreja de S. Miguel, que estava fechada para missa. Martinho Lutero faz-me companhia lá fora, o que me deixou intrigado – um protestante à porta de uma igreja? “Os santos protestantes servem para ganhar musgo”, disse-me um amigo batista, de forma sarcástica. Vi muitos casais a passear, velhos e novos. Parecia um dia calmo.
Tinha acabado, no avião, mais um livro de Roberto Bolaño, o quarto de cinco que me fizeram o mês. Fui rápido, demasiado. Tive de contentar-me, no resto do tempo em que estive em movimento, com artigos sobre micróbios norte-americanos, testes de disciplinas várias, e artigos académicos sobre o direito constitucional europeu. Foi por isto que aqui vim, a Hamburgo, para discutir o estado do direito constitucional europeu, a partir de diferentes perspetivas. Para isso, tive de ir à universidade local.
A universidade local fica no meio de um parque. No outro dia, na minha universidade, tinha ficado a matutar nesta ideia de que é tão bom olhar pela janela e ver o verde. Dá outro sentido e gosto à investigação, à ciência, à especulação, porque estudar, mais do que qualquer outra coisa, é refletir sobre o que se leu, o que se apreendeu, e que agora se toma como nosso. O que fica, como fica, e para que fica?
No húmido verde desta cidade portuária, discutiu-se normatividade europeia, bem como humores, perspetivas, resultados do mundial de futebol. Discutiu-se o governo, mas não o português, ou pelo menos não diretamente. Discutiu-se o estado pouco confiável dos comboios alemães. “Um mito tão grande como a Europa”, dizia-me um colega alemão, “é o da nossa pontualidade”. Discutiu-se igualmente a crise da habitação, a crise da defesa, e as próximas conferências. Discutiu-se ainda a metodologia do que é o trabalho académico: ler, refletir, escrever, passear. A cerveja era fresca e saborosa. A sobremesa de frutos vermelhos idem.
Acordei no último dia da minha estadia com trovoada lá fora. No hotel, que parecia saído de um filme germânico dos anos setenta, e que um colega marroquino disse que lhe dava uma impressão de leste europeu (apesar de Hamburgo ter sido o mais a leste que ele tinha estado na Europa), o que lhe valeu uma reprimenda da nossa colega checa, que lhe disse que isto não era o leste, que o leste é outra coisa, tomei um pequeno-almoço de pão com manteiga, carnes frias, café e fruta. Escrevi no caderno as caras dos meus colegas, bem como as suas ideias, quer as boas, quer as menos bem conseguidas. Sei que fizeram o mesmo quanto às minhas. Depois escrevi o sonho que tive.
Estou numa enseada, cujas margens são de rocha arenosa. Tenho um peixe na mão, mas tenho de partir para outro sítio. Deixo então o peixe na água, mas quando regresso à enseada (onde fui? O que fiz? Porque regresso?) apercebo-me: onde está o peixe? Eis que ele vem ter comigo: uma carpa enorme, que me rodeia e me acompanha na água, carinhosamente. O que diria Roth sobre isto?
Sugestões do cronista:
Por nenhuma ordem em especial que não a de leitura: A Pista de Gelo, Antuérpia, Noturno Chileno, Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, e Estrela Distante (releitura). Seguem-se, por esta ordem, O Terceiro Reich (releitura), o Espírito da Ficção Científica (releitura), a Literatura Nazi nas Américas (releitura parcial quanto ao que já se tinha lido, noutra vida) e Os Detetives Selvagens (releitura). De resto, os discos Mabe Fratti e Bill Orcutt, Beauty Land de Greg Mendéz, e Philadelphia’s been Good to Me de Kurt Vile. E o mundial de futebol.
